Artigo: No Reino das Árvores de Pernas Tortas

Notícia - 15 - set - 2005

O dia 11 de setembro é dedicado ao Cerrado, bioma que serve de berço para as três maiores bacias hidrográficas do país: Amazonas, São Francisco e Paraná-Paraguai. Espalhado por mais de 12 estados do Brasil, o Cerrado vai do Maranhão até o Paraná, atravessando Tocantins, Goiás, o Distrito Federal, Minas Gerais e Mato Grosso, atingindo ainda Piauí, Bahia, Pará, Rondônia, São Paulo e Mato Grosso do Sul, com manchas de vegetação esparsas em Roraima e Amapá. Ocupa uma área de aproximadamente 1,9 milhão de km2, cerca de ¼ do território nacional, sendo considerado uma das 25 regiões mais ricas do mundo em biodiversidade. Infelizmente, é também uma das mais ameaçadas do planeta.

O Cerrado abriga 1/3 de toda a biodiversidade brasileira e 5% de toda a fauna e flora mundiais. Apenas para que se tenha uma idéia, nele podem ser encontradas até 10.000 espécies de plantas, mais de 161 espécies de mamíferos, 837 espécies de aves, 150 espécies de anfíbios e 120 espécies de répteis. Em que pese esta imensa riqueza, o Cerrado ainda é pouco conhecido dos brasileiros e sua importância é relegada ao segundo plano. No imaginário da população projeta-se, quando muito, a fotografia de algumas árvores retorcidas, que parecem não encher os olhos de quem busca a imagem de uma vegetação exuberante. Porém, as belezas do Cerrado serão reveladas pouco a pouco a quem se propõe a caminhar, como Guimarães Rosa, por suas veredas, que escondem um conjunto de diferentes formações, variando de matas densas a campos naturais.

A partir dos anos 60, segundo o geógrafo Pedro Novaes, um coquetel que misturou a construção de Brasília, a adoção de políticas agressivas de desenvolvimento e o pesado investimento em obras de infra-estrutura, criou uma dinâmica econômica que propiciou a abertura de extensas áreas de Cerrado à expansão da agricultura. Isso fez com que o bioma passasse a ser visto como um dos celeiros nacionais, o que pode ser traduzido em números espantosos: na região Centro-Oeste se produz hoje 50% da soja do país - 13% de toda a soja produzida no planeta, contra 6% produzidos no início dos anos 70. O Cerrado responde também por 20% de toda a produção nacional de milho, 15% de arroz e 11% de feijão.

Entretanto, a expansão do agronegócio, que agora inclusive avança na direção da Amazônia, deu-se a um custo devastador. Hoje, segundo dados da Embrapa, restam menos de 5% de áreas de Cerrado com extensão de mais de 2.000 hectares, isto é, dos chamados fragmentos com possibilidade de sobrevivência e capacidade de reprodução das cadeias genéticas características do bioma. A destruição criminosa do Cerrado afeta também diretamente os seus recursos hídricos - berço de nossas águas, hoje ameaçadas pelo assoreamento em razão da erosão causada pela agricultura intensiva e pelo uso indiscriminado da irrigação.

A preservação do que resta do Cerrado passa pela adoção de medidas urgentes, tais como a criação de unidades de conservação de proteção integral e a efetiva implantação das unidades já criadas - para evitar a rotineira e cansativa repetição dos desastres que acometem, por exemplo, o Parque Nacional das Emas, em Goiás. O Parque foi vítima este ano mais uma vez de um grande incêndio recentemente noticiado pela mídia, o qual poderia ter sido evitado caso o seu Plano de Manejo tivesse sido elaborado e executado, como há muito devido.

Também se impõe o combate ao desmatamento e à queima descontrolada de madeira para a produção de carvão, esta última especialmente em Minas Gerais, onde, segundo dados da Funatura, mais de 40 siderúrgicas consomem 75% do carvão vegetal produzido no país. A produção descontrolada de carvão vegetal é responsável por imensa perda de biodiversidade, além de contribuir para o aumento das emissões de gases de efeito estufa, com sensíveis impactos sobre as mudanças climáticas que hoje abalam o planeta.

Proteger o Cerrado é ainda proteger a sua imensa diversidade sócio-cultural, representada pela presença de 42 povos indígenas, além de comunidades quilombolas e outras populações tradicionais que constituem o retrato mais autêntico dessa imensa região. É o caso, por exemplo, do caipira, cujas fortes tradições culturais, marcadas pela religiosidade e pela música, representam uma porção da alma do Cerrado - e do Brasil, com a moda de viola, as folias do Divino Espírito Santo e dos Santos Reis.

O governo federal poderá aproveitar a realização da Conferência das Partes da Convenção da Diversidade Biológica, que terá lugar em Curitiba (PR), em março de 2006, para assumir um compromisso formal com o bioma. Espera-se que o governo possa apresentar um programa de proteção e recuperação do Cerrado, com medidas efetivas que saiam do discurso para a prática.

Mudar este quadro de destruição depende ainda de toda a sociedade brasileira, que precisa lançar um olhar mais generoso e enxergar a beleza das plantas, dos bichos e das gentes que vivem no Cerrado. Pensemos no que diz o poeta Nicolas Behr: "Nem tudo que é torto é errado. Veja as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado".

Sergio Leitão

Advogado, Diretor de Políticas Públicas do Greenpeace e Coordenador do Grupo de Trabalho sobre Sociodiversidade do Fórum Brasileiro de Organizações e Movimentos Sociais.

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