A pressão nacional e internacional às vésperas do próximo
encontro do G8 sobre as evidências do aquecimento global e o que
precisa ser feito para brecá-lo forçou a administração Bush a
hesitar. No final da semana passada, o anúncio de última hora de
uma nova iniciativa climática, dias antes do início da cúpula do
G8, indica que, pela primeira vez, o presidente Bush percebeu que
não há mais como se esquivar deste assunto.
O anúncio de Bush é uma tentativa de convencer que algo está
sendo feito. A administração norte-americana se viu forçada a
adotar essa medida depois que um documento oficial seu vazou para a
imprensa mundial. O documento revelava a oposição dos EUA a um
texto do G8 que pedia a redução das emissões pela metade até 2050
em relação aos níveis de 1990. Apesar de o governo norte-americano
ter chamado o documento de proposta alemã, não há nada de alemão
nela. É apenas a física universal do problema.
A administração Bush, em compensação, ignora os fatos
científicos evidentes e a experiência duramente adquirida nos
últimos 15 anos: medidas voluntárias não funcionam. Os dados são
claros: as emissões têm que atingir seu máximo em 10 a 15 anos e
cair drasticamente a partir disso. Do ponto de vista político, o G8
é responsável por mais de 80% da mudança climática que nós
presenciamos hoje e ainda responde por cerca de 40% das emissões
globais.
O G8 tem, portanto, o dever moral de ser o primeiro a agir, e de
forma firme. Para atingirmos uma redução de 50% das emissões, o G8
precisa cortar pelo menos 80% a 90% de suas emissões até 2050 (em
comparação a 1990). Qualquer meta diferente disso não será nem
adequada, nem justa e muito menos segura. Bush, ao contrário, quer
começar uma nova rodada de discussões que possa chegar a um acordo
sobre metas voluntárias para os grandes emissores.
Esta é apenas mais uma de uma longa séria de medidas vazias e
suas tentativas de sair pela tangente. Em 2001, quando Bush
rejeitou o Protocolo de Kyoto, ele prometeu apresentar uma
proposta, o que não foi cumprido. Em Montreal, em 2005, sua
administração esvaziou tentativas de início de negociações
completas em nível internacional, insistindo que aquele não era o
momento e propondo apenas o diálogo. Até hoje, o diálogo não levou
a lugar algum - e nem levará.
Se o presidente Bush quer ser sério sobre o aquecimento global,
ele deve apenas concordar com as metas propostas para a reunião do
G8: são as medidas corretas. O governo federal norte-americano
provavelmente voltará às negociações do regime internacional de
clima quando Bush sair da Casa Branca. Porém, para garantir um
acordo global consistente, ao qual os Estados Unidos possam
eventualmente aderir, a chanceler alemã Ângela Merkel deve dar um
passo mesmo sem Bush.
Para atingir os objetivos lógicos de sua estratégia, Merkel
também pode avançar bastante nas negociações sobre clima em
Heiligendamm. Se todos os sete países do G8 que ratificaram o
Protocolo de Kyoto determinarem cortes de suas emissões em 30% até
2020 e em 80%-90% até 2050, seria um grande passo. Os participantes
de Kyoto devem também chegar a um consenso sobre as metas de corte
de emissões para o próximo período do protocolo até no máximo
2009.
Bush, que não assinou Kyoto, está deixando o cargo em 2008 e não
deve opinar sobre o assunto. Na última cúpula do G8, em 2005, em
Gleeneagles, os governos documentaram o isolamento dos EUA com a
declaração: "Aqueles de nós que ratificaram Kyoto dão as boas
vindas a sua entrada em vigor, e vão trabalhar para que ele dê
certo e seja bem-sucedido". Frases como essa devem ser numerosas no
documento final de Heiligendamm e serão um claro sinal de
sucesso.
Merkel deve mostrar liderança decisiva em Heiligendamm. A
Alemanha deve assumir uma meta unilateral de corte de emissões,
além de influenciar os países membros de Kyoto a continuar a
negociar no âmbito das Nações Unidas e alcançarem consenso em
relação às metas no mais tardar até 2009 dentro do Protocolo de
Kyoto.
Ela poderia, por exemplo, comprometer a Alemanha a cortar 40%
até 2020 - independentemente de qualquer outro país. Essa atitude
seria condizente com a retórica de liderança da chanceler alemã.
Para ter credibilidade, Merkel teria que se opor ao programa de
construção de novas usinas a carvão, defendido pelas gigantes
alemãs do setor.
Esses são os verdadeiros parâmetros para o sucesso do G8. O que
Bush diz é apenas digressão com o propósito de atrasar o verdadeiro
progresso.