A Bertin S. A. anunciou que não comprará mais gado de fazendas
com desmatamentos ocorridos a partir de 22 de junho de 2009. A
empresa também se comprometeu a tirar de sua lista de fornecedores
propriedades rurais envolvidas com trabalho escravo, violência
agrária, grilagem de terras e invasão de Terras Indígenas e Áreas
Protegidas. A Bertin é a maior exportadora de couro do mundo e a
segunda maior fornecedora de carne do Brasil para o mercado
mundial.
A decisão da Bertin coloca dois pesos pesados da indústria
deprocessamento bovino no país engajados na luta pelo fim do
desmatamentona Amazônia. O outro é o Marfrig, quarto maior
frigorífico brasileiro, que logo após o lançamento do relatório do
Greenpeace 'A Farra do Boi na Amazônia', assumiu os mesmos
compromissos. A Marfrig, por sinal, no seu último relatório
trimestral aos acionistas, incluiu uma auditagem independente
comprovando que ela está seguindo à risca a nova política. "A
decisão da Marfrig abriu a porteira para a modernização da pecuária
brasileira", disse Paulo Adario, diretor da campanha Amazônia do
Greenpeace.
A Bertin decidiu aderir ao compromisso com o fim do desmatamento
na Amazônia provocado pela pecuária depois de uma longa reunião com
representantes do Greenpeace. O encontro serviu para que a Bertin
sanasse suas dúvidas sobre a visão do Greenpeace em relação ao
papel que os frigoríficos podem desempenhar no combate à derrubada
da floresta. "Pelo porte dessas duas empresas, esse compromisso
tende a ter impacto real sobre a taxa anual de destruição da
Amazônia, contribuindo para o fim do desmatamento até 2015. Vamos
acompanhar a implementação das propostas para assegurar o seu
sucesso", disse Adario.
A Bertin garantiu que num prazo de seis meses estará apta a
cumprir o que foi acordado com o Greenpeace. Durante os próximos
180 dias, a empresa prometeu implantar um sistema para rastrear o
gado das fazendas de engorda, responsáveis pelo fornecimento direto
para o abate. Quanto ao resto da cadeia produtiva, as fazendas de
cria de bezerros e recria de garrotes, a Bertin acredita que em
dois anos terá capacidade de rastreá-las, estendendo o controle
sobre o gado que chega até suas plantas.
"A responsabilidade ambiental é cada vez mais relevante para que
uma empresa como a nossa consiga manter, e ampliar, seus espaços
nos mercados interno e externo de produtos bovinos", disse Fernando
Bertin, presidente da Bertin. "Nós hoje estamos dando um passo
fundamental e em seis meses, seremos capazes de rastrear nossos
fornecedores diretos para assegurar sua adesão à esta
política".
As adesões da Marfrig e da Bertin ao compromisso com o
desmatamento zero deixaram isolado o maior frigorífico do Brasil, o
JBS-Friboi. Ao contrário de seus dois concorrentes, que após a
publicação do relatório do Greenpeace sobre o papel da pecuária no
desmatamento na Amazônia, ouviram o clamor do público e decidiram
fazer parte de um compromisso para limpar suas cadeias de
fornecedores, a JBS-Friboi continua se comportando como se nada
estivesse acontecendo
O Greenpeace e a Bertin, semelhante ao acordo celebrado com o
Marfrig, também concordaram em trabalhar junto aos governos
estaduais e federal, outras ONGs e produtores rurais no sentido de
mobilizá-los para implementar a política de desmatamento zero para
a Amazônia. A Bertin assinou, há pouco mais de um mês, um Termo de
Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal e o
governo do Pará. A diferença entre o TAC e o anúncio de hoje está
na decisão de excluir de sua lista de fornecedores qualquer fazenda
flagrada com desmatamentos recentes, independente de serem legais
ou ilegais.
Segundo o Greenpeace, o governo federal e os estados têm de
fazer sua parte e acelerar o processo de cadastramento e
monitoramento das fazendas, ajudando o setor privado a cumprir com
suas responsabilidades corporativas. "Isso é vital para que o
Brasil possa demonstrar, na reunião da conferência de mudanças
climáticas da ONU em Copenhaguem, em dezembro, que o país está em
condições de zerar o desmatamento em poucos anos, assumindo papel
de vanguarda da luta contra o aquecimento global", disse
Adario.
Assim como na moratória da soja, no caso da pecuária é também o
mercado que está dando mostras de preocupação com o desmatamento na
Amazônia e buscando meios de evitá-lo. O presidente Lula e seu
governo, por enquanto, permanecem alheios à essa discussão tão
importante para o futuro do clima do planeta. "Queremos que o
presidente Lula vá a Copenhaguem comprometido com o desmatamento
zero, porque isso vai respaldar suas cobranças para que os países
desenvolvidos façam cortes profundos em suas próprias emissões e
contribuam financeiramente para ajudar os países pobres a
descarbonizarem suas economias", reiterou Adario.