O pior acidente industrial do mundo está sendo relembrado desde
ontem, 20 anos depois do vazamento de gás tóxico em Bhopal, que
causou mortes e sérios danos à saúde de milhares de pessoas na
cidade indiana. O Greenpeace e a Campanha Internacional por Justiça
em Bhopal (www.bhopal.net) exigem que a Dow Química, responsável
pela catástrofe, pague pelo tratamento médico dos sobreviventes do
acidente, dê fim aos enormes estoques de veneno abandonados em sua
antiga fábrica de pesticidas desde o desastre, e limpe a água
subterrânea contaminada. Exigem também a criação de uma legislação
internacional sobre responsabilidade corporativa, para garantir que
desastres como o de Bhopal nunca mais aconteçam.
"As pessoas em Bhopal ainda sofrem porque a Dow Química se
recusa a assumir a responsabilidade pelo seu bem-estar ou pelo lixo
tóxico que até hoje contamina o solo e a água no local", disse
Vinuta Gopal, do Greenpeace na Índia. "Bhopal nos remete ao perigo
da era química, dos duplos padrões por parte das grandes empresas e
da falta de responsabilização das corporações multinacionais".
Em um mundo cada vez mais globalizado, é necessário que as
corporações como a Dow utilizem padrões consistentes em todo o
mundo, assumindo as responsabilidade por suas operações. "Se o
desastre de Bhopal tivesse acontecido na Europa ou nos EUA, o local
teria sido limpo e as pessoas teriam sido indenizadas", disse o
diretor-executivo do Greenpeace Internacional, Gerd Leipold, que
participa de um seminário sobre Bhopal e responsabilidade
corporativa em Bruxelas hoje.
No Brasil, o Greenpeace também exige que a responsabilidade
corporativa faça parte da atuação das grandes empresas. Casos
gravíssimos de contaminação, como o da Shell Química em Paulínia,
da Rhodia em Cubatão ou da Solvay em Santo André (SP) seguem, após
muitos anos, sem solução. A belga Solvay, por exemplo, possui um
depósito a céu aberto com mais de um milhão de toneladas de cal
contaminada com dioxinas (resíduos da fabricação do PVC), uma das
maiores concentrações de POPs (poluentes orgânicos persistentes) da
América Latina.
20 MIL MORTOS
Em Bhopal, na noite do dia 2 para o dia 3 de dezembro de 1984,
40 toneladas de gases letais vazaram de uma fábrica de pesticidas
da Union Carbide, hoje pertencente à Dow Química. No desastre, 20
mil pessoas foram mortas. Além disso, ao menos 150 mil sofrem hoje
de doenças crônicas resultantes do vazamento, e 20 mil permanecem
sob o risco de serem envenenados pelo lixo tóxico deixado no local,
que inclui vários tipos de poluentes orgânicos persistentes (POPs)
e metais pesados, como mercúrio, de acordo com estudos científicos
do Greenpeace realizados em 1999, 2002 e 2004. Os sobreviventes e
suas crianças ainda sofrem de problemas de saúde como câncer ou
tuberculose, ou defeitos de nascimento.
Nesta quinta (02/12), o governo indiano anunciou que pretende
realizar uma pesquisa sobre a contaminação em Bhopal, como um
"primeiro passo" para a limpeza do local. O Greenpeace recebe bem a
medida, porém alerta que o povo de Bhopal necessita de ação
urgentemente, como por exemplo o fornecimento de água limpa para os
sobreviventes - e não de mais estudos. "Depois de 20 anos, esse é o
primeiro passo mais lento da história", disse Vinuta Gopal. "A
falta de responsabilidade corporativa tem sido o maior obstáculo
nas últimas duas décadas para a limpeza de Bhopal, assim como a
vontade política para sua realização. A Dow Química precisa pagar a
conta", disse.