O calhambeque nuclear estacionado pelo Greenpeace nesta
terça-feira em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, era
ultrapassado no modelo, inseguro na condução, poluente e
desnecessário. É possível imaginar alguém em sã consciência
oferecendo uma fortuna por ele? Pois o governo brasileiro pode
gastar bilhões de reais em algo muito parecido: a usina nuclear de
Angra 3. 
No protesto contra a possível construção de um terceiro reator
atômico no Brasil, o Greenpeace protocolou no Palácio uma carta de
repúdio da sociedade civil em relação às intenções do governo de
reativar o programa nuclear brasileiro. A carta é assinada por 19
entidades e ONGs.
O motorista do veículo utilizado na ação, uma brasília amarela
com 'latas de lixo nuclear' grudadas no teto, tentou apresentar a
conta da aventura nuclear para o presidente da República, mas foi
impedido.
Estão nessa tenebrosa contabilidade os R$ 7,4 bilhões a serem
gastos em seis anos para a construção de Angra 3, R$ 1,64 bilhão já
gastos na compra de material para a usina, mais os custos
inestimáveis de segurança, do lixo nuclear e danos ambientais.
O motorista do calhambeque atômico foi detido e levado para a
delegacia. O carro foi rebocado e chegou a ser testado por técnicos
da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) com medidores
geigers para verificar se não havia radioatividade.
Estava prevista para o Palácio do Planalto uma reunião do
Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que tinha em pauta
a construção de Angra 3. O encontro no entanto foi adiado para o
dia 4 de abril. A sociedade civil continuará monitorando a
discussão, tão cara ao desenvolvimento sustentável brasileiro.
"O programa nuclear brasileiro, que data da época da ditadura
militar, é ultrapassado e caro", afirma Guilherme Leonardi, da
campanha de energia do Greenpeace. "Apesar de Angra 3 não constar
de seu programa, se aprová-la, o governo Lula corre o risco de
entrar para a história como aquele que ressuscitou a injustificada
e cara aventura nuclear brasileira. Uma credencial nada
popular".
O CNPE é composto por nove ministros, um representante dos
Estados e do Distrito Federal, um representante da univeridade
brasileira e um representante da sociedade civil, que ainda não foi
nomeado. Os ministros da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, e de
Minas e Energia, Silas Rondeau, já declararam publicamente seu
apoio à obra.
Caso seja aprovada pelo CNPE, a decisão sobre a construção de
Angra 3 passa para as mãos do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva.
De todas as opções de geração de energia existente atualmente, a
nuclear é a mais cara. Com os R$ 7,4 bilhões previstos para
construir Angra 3, é possível criar um parque de turbinas eólicas
com o dobro da potência prevista para essa nova usina nuclear
(1.350 mW), gerar 32 vezes mais empregos e não produzir lixo
radioativo ou representar risco de acidentes graves.
Existe consenso entre especialistas que a forma mais barata de
gerar energia é criando programas de incentivos para a economia de
energia. Um exemplo concreto dos benefícios de se investir em
eficiência energética é o Programa Nacional de Conservação de
Energia Elétrica (Procel) do governo federal. Ao longo de 20 anos,
e com recursos da ordem de R$ 850 milhões, o Procel conseguiu
economizar o equivalente à capacidade de geração de uma usina de
5124 MW, ou quase quatro vezes o potencial de Angra 3.
No início de fevereiro, o Greenpeace lançou o relatório [R]evolução Energética em parceria com
a Poli/USP. O estudo, que projeta cenários energéticos até 2050,
mostra que o Brasil pode diversificar sua matriz energética e gerar
88% de sua eletricidade a partir de fontes renováveis de energia,
tais como biomassa, hídrica, eólica e solar. Aliado à medidas de
uso racional da energia, o relatório mostra que seria viável
eliminar as usinas nucleares e a carvão da matriz elétrica
nacional, colocando o Brasil na vanguarda do desenvolvimento limpo
e da segurança energética.
O argumento de que a energia nuclear é uma saída para combater o
aquecimento global é o clássico caso de se "trocar o roto pelo
esfarrapado", diz Leonardi.
"Expandir o uso da energia nuclear para combater o aquecimento
global aumentaria significativamente os riscos à saúde e ao
ecossistema, já que o risco de acidentes cresce proporcionalmente à
quantidade de usinas. Os problemas com lixo nuclear e a
proliferação de armas atômicas também seriam multiplicados, já que
mais usinas gerariam mais resíduos e matéria-prima para a
fabricação de bombas", explica Leonardi. "Além disso, seriam
necessários investimentos vultuosos em toda a cadeia tecnológica da
indústria nuclear, da mineração ao enriquecimento e processamento
de urânio, além de reatores. Tais pesquisas levam décadas e a
urgência do aquecimento global exige medidas imediatas de redução
de emissões de gases estufa".
Em março do ano passado, a Câmara dos Deputados aprovou
relatório apontando vários problemas graves na área de segurança
nuclear no Brasil, como a contraditória duplicidade de funções da
Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), que ao mesmo tempo
incentiva e fiscaliza o setor. Outros problemas apontados foram
falhas no plano de emergência das instalações nucleares;
inexistência de fiscais e de normas de fiscalização e punição para
irregularidades; tratamento improvisado para o lixo nuclear; e a
falta de acesso público à informação.