Caso Bayer: duro de engolir

Notícia - 22 - mai - 2001
Greenpeace exige em protesto no Rio de Janeiro que governo estadual acabe com a poluição tóxica em Belford Roxo

O Greenpeace exigiu hoje da Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro ações concretas para impedir que a Bayer continue lançando poluição tóxica em Belford Roxo na baixada fluminense. Ativistas levaram uma aspirina gigante para o Palácio Guanabara, sede do governo do estado, com a inscrição "Bayer: chega de poluição".

Em janeiro deste ano, a organização ambientalista denunciou que o incinerador de resíduos da Bayer em Belford Roxo (1) polui a região com PCBs (ascarel) (2), poluente orgânico persistente (POP) altamente tóxico. Na época, o presidente da FEEMA, Axel Grael, afirmou que os dados oficiais disponíveis eram compatíveis com a denúncia feita pelo Greenpeace e que a Bayer era uma de suas prioridades. O presidente da FEEMA afirmou também que estava negociando um ajustamento de conduta com a empresa para até o início de março de 2001. Por solicitação do Ministério Público estadual, o sr. Grael prometeu disponibilizar todas as informações disponíveis sobre a empresa. Quatro meses depois, nada foi feito e a Bayer continua incinerando resíduos tóxicos perigosos, enquanto alternativas seguras de eliminação de POPs existem ao redor do mundo (3).

Os ativistas do Greenpeace foram recebidos pelo secretário estadual de Meio Ambiente, André Corrêa, e pelo presidente da FEEMA, Axel Grael. As autoridades não conseguiram explicar a falta de ações concretas e prometeram entregar hoje às 14 horas para o Greenpeace todas as informações solicitadas. O Secretário afirmou também que a empresa terá que se ajustar ou então será fechada.

"É inadmissível que o órgão público responsável pela qualidade ambiental sonegue informações e proteja os interesses de uma empresa. Ficaremos de olho para saber se a Bayer será ou não obrigada a respeitar o meio ambiente", diz Karen Suassuna, da campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace.

O ascarel (4), proibido no Brasil desde 1981, é uma das substâncias tóxicas listada na Convenção POPs da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais de 130 países assinam hoje em Estocolmo a Convenção de POPs, acordo internacional que visa banir do planeta "os 12 sujos" (5) no período de uma geração (25 anos). "A assinatura da Convenção POPs é um grande passo em direção a um futuro sem poluição tóxica. Todos os cidadãos têm o direito de viver em um ambiente saudável e livre de contaminantes", conclui Suassuna.

(1) Em janeiro, vinte ativistas do Greenpeace invadiram e escalaram o incinerador da Bayer, em Belford Roxo, para denunciar a contaminação do meio ambiente por ascarel. Todos os ativistas foram detidos. O Greenpeace demandou da empresa que interrompesse a queima de POPs e a prestação deste serviço a terceiros, além de um cronograma para o fechamento do incinerador. O protesto fez parte da Expedição das Américas - viagem de cinco meses pelo continente americano para denunciar casos de contaminação por POPs.

(2) Para se defender das denúncias do Greenpeace, a Bayer afirma nunca ter produzido ascarel em sua fábrica de Belford Roxo. No entanto, os dados apresentados pela organização ambientalista têm como base as emissões de resíduos tóxicos do processo de incineração. A Bayer tem licença da FEEMA para queimar ascarel e presta este serviço a terceiros.

(3) Tecnologias alternativas à incineração para eliminação de POPs, como a redução química em fase gasosa, já foram utilizadas na descontaminação de DDTs, PCBs e hexaclorobenzenos em Kwinana, na Austrália. A mesma tecnologia foi utilizada pela General Motors do Canadá para a eliminação de PCBs, pelas Forças Armadas norte-americanas para a destruição de armas químicas contendo POPs, e pelo Japão para a eliminação de PCBs e dioxinas. Outra tecnologia limpa é a decloração catalisada por base, já autorizada para uso nos EUA, Austrália, México, Japão e Espanha para a eliminação de DDTs, PCBs, dioxinas e furanos.

(4) A exposição aos PCBs, ou ascarel, foi relacionada a uma ampla gama de efeitos à saúde humana, destacando-se prejuízos ao sistema nervoso central, danos ao rim, hepatotoxicidade, alterações dos níveis de hormônio, do sistema reprodutivo e indução de aborto em fases iniciais de gravidez, entre outros.

(5) Os "12 Sujos", como são conhecidos, são: dioxinas, furanos, PCBs, hexaclorobenzeno, mirex, heptacloro, DDT, dieldrin, clordano, toxafeno, aldrin e endrin. A Convenção POPs deverá ser assinada ainda hoje, em Estocolmo, Suécia, por mais de cem países, tendo como objetivo a eliminação global destas substâncias.

(6) Confira o relatório completo sobre a contaminação em Belford Roxo/RJ causada pela Bayer.

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