O Greenpeace expôs hoje o papel do McDonald's,
maior cadeia de fast food do mundo, na destruição da Amazônia (1).
O relatório Comendo a Amazônia (2), publicado hoje pelo Greenpeace
Internacional, revela como a demanda mundial por soja produzida na
Amazônia alimenta a destruição da maior floresta tropical do mundo,
incentivando o desmatamento, grilagem de terras e violência contra
as comunidades. A investigação mostra como a soja amazônica vai
parar nas prateleiras de supermercados e redes de fast foods da
Europa.
Como resposta, dezenas de frangos de dois metros de altura
invadiram várias lanchonetes do McDonald's na Inglaterra e se
acorrentaram às cadeiras. Durante a noite, centenas de voluntários
do Greenpeace panfletaram as ruas do país, distribuindo folhetos
com uma ilustração do Ronald McDonald segurando uma motosserra. Na
Alemanha, ativistas também se reuniram em frente à sede européia do
departamento de assuntos ambientais do McDonald's e exigiram que a
rede de fast foods pare de destruir a Amazônia.
O relatório Comendo a Amazônia é resultado de uma investigação
sigilosa realizada durante um ano, nas regiões de produção e
consumo de soja, baseada em análise de imagens de satélites,
sobrevôos, análise de dados do governo e pesquisas em campo.
O documento revela o papel de três multinacionais
norte-americanas de commodities agrícolas - ADM (Archier Daniels
Midland), Bunge e Cargill - na invasão da Amazônia, impulsionando o
desmatamento ilegal - muitas vezes, feito com trabalho escravo, a
grilagem de terras públicas e a violência contra comunidades
locais. ADM, Bunge e Cargill controlam a maior parte do mercado de
soja na Europa (3).
"Estamos destruindo a maior floresta tropical do
planeta para dar lugar à soja - uma espécie exótica, que será
transformada em ração para alimentar gado e frango na Europa",
disse Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia, do
Greenpeace. "Depois, este gado e este frango será vendido no Mc
Donald's mais próximo e você pode estar comendo um pedaço da
Amazônia".
A Cargill construiu ilegalmente seu porto às margens do rio
Tapajós, em Santarém, no Pará, de onde exporta soja para seu
terminal em Liverpool, na Inglaterra. De lá, a soja vai até a
produtora de alimentos Sun Valley, também de propriedade da Cargill
que, por sua vez, utiliza a soja para alimentar frangos para
produzir McNuggets, distribuídos para as lanchonetes do McDonald's
em toda a Europa.
Relatório recente da revista científica Nature, de 23 de março
de 2006, alerta para o fato de que 40% da Amazônia serão perdidos
até 2050 se a fronteira agrícola continua se expandindo no mesmo
ritmo, representando uma ameaça à biodiversidade e agravando o
quadro de mudanças climáticas. Algumas fazendas cultivam soja
transgênica na Amazônia.
"Este crime começa na Amazônia e se estende por toda a indústria
de alimentos da Europa. Redes de supermercados e de fast foods,
como o Mc Donald's, devem se certificar que não estão usando soja
produzida na Amazônia em seus produtos se não quiserem ser
cúmplices de crimes ambientais e sociais, como trabalho escravo e
outros abusos aos direitos humanos", disse Gavin Edwards,
coordenador da campanha de Florestas do Greenpeace
Internacional.
NOTAS:
(1) O Greenpeace têm evidências que confirmam que:
- A soja cultivada na Amazônia é exportada através do porto de
Santarém para a Europa, juntamente com soja produzida em outras
regiões do País. De março de 2005 a fevereiro de 2006, a Cargill
exportou mais de 220 mil toneladas de soja brasileira de Santarém
para Liverpool, na Inglaterra;
- O Greenpeace monitorou a soja de Santarém desde a unidade da
Cargill em Liverpool até a fábrica de ração animal, onde os frangos
são transformados em Chicken McNuggets e outros produtos pela Sun
Valley. Um antigo funcionário da Sun Valley disse ao Greenpeace que
25% da ração dos frangos vem da unidade da Cargill em
Liverpool;
- A Sun Valley abastece o McDonald's com carne de frango em toda
a Europa;
- Através de unidades separadas do McDonald's em Wolverhampton e
Orleans, na França, a Sun Valley é a maior fornecedora de aves do
McDonald's na Europa, produzindo metade de todos os produtos de
frango utilizados pela rede de fast-foods em toda a Europa.
- Em uma reunião realizada na semana passada entre o Greenpeace
da Inglaterra e o McDonald's, a companhia não negou que seus
frangos sejam alimentados com soja produzida na Amazônia. O
Greenpeace questionou o McDonald's pela primeira vez sobre a ração
utilizada para alimentar seus frangos há três meses.
(2) O relatório "Comendo a Amazônia" está disponível em
português (
http://www.greenpeace.org.br/amazonia/pdf/report-eating up the
amazon PORT FINAL.pdf ou em inglês ( http://www.greenpeace.org.br/amazonia/
pdf/amazonsoya.pdf)
Há também a opção de um sumário executivo em português, que pode
ser lido em:
http://www.greenpeace.org.br/amazonia
/comendoamz_sumexec.pdf
(3) Cargill, ADM e Bungecontrolam 60% da produção de soja no
Brasil e mais de três quartos da indústria de processamento na
Europa fornecem farelo e óleo de soja para alimentar animais.
(4) Revista Nature, 23 de março de 2006.