O governo federal anunciou nesta sexta em Brasília uma ótima
notícia para os brasileiros - e para o clima do planeta, que se
beneficia dos serviços ambientais desempenhados pelas florestas: a
taxa de desmatamento na Amazônia entre o segundo semestre do ano
passado e o primeiro de 2007 deve ser de cerca de 9,6 mil km2, a
mais baixa desde que o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais
(Inpe) começou, em 1988, a monitorar a destruição da cobertura
florestal da Amazônia. Essa previsão é baseada em dados corrigidos
do sistema Deter e Prodes, do Inpe, e tem uma margem de erro de
10%, segundo o governo.
A má notícia que vai além dos números do Inpe: os fatores
econômicos que contribuíram para a queda no desmatamento estão
voltando a mostrar suas garras: o preço da soja voltou a subir às
vésperas da safra que começa a ser plantada em setembro, o preço da
carne aumentou, grandes áreas da Amazônia já estão isentas de febre
aftosa e o anunciado boom dos agrocombustíveis começa a fazer
pressão sobre as terras disponíveis na região. A conseqüência já se
faz sentir: o número de queimadas desde junho está aumentando em
relação ao ano passado.
.Além da estimativa, o governo divulgou também ontem o dado
corrigido do Inpe/Prodes para o período agosto de 2005 a julho de
2006, que foi de 14.039 km2, uma queda de 25,3% em relação ao
período anterior. A estimativa divulgada em outubro do ano passado,
um mês antes das eleições presidenciais, era de 13.100 km2, com uma
margem de erro - agora confirmada - de 10%. O dado confirmado
significa uma queda de 49% em dois anos, desde os fatídicos 27.429
km2 de 2003/2004, a segunda maior taxa da história. O recorde anual
continua com o governo FHC, de 29.059 km2 verificados no período
agosto de 1994-agosto de 1995. Mas o primeiro mandato do governo
Lula foi recorde de desmatamento acumulado: mais de 70 mil km2.
"Ainda que os dados do Inpe para 2006-2007 sejam provisórios,
eles são muito estimulantes, já que mostram que o desmatamento
inverteu a tendência histórica de alta e apontam para uma queda
pelo terceiro ano consecutivo", disse Paulo Adário, coordenador da
campanha Amazônia, do Greenpeace.
Vários fatores podem ter contribuído para esta queda, entre elas
algumas medidas de responsabilidade do governo, como a criação de
milhões de hectares de áreas protegidas e um aumento na
fiscalização do Ibama - que fez 151 operações de porte na floresta
em 2006, contra 64 em 2005. Influenciaram também fatores
relacionados ao mercado como a queda de preço das commodities
agropecuárias e supervalorização do real em relação ao dólar.
Outras razões estão ligadas à maior mobilização da sociedade
contra o desmatamento, tais como a campanha movida pelo Greenpeace
e organizações sociais de Santarém contra a expansão da soja na
Amazônia. A campanha, que recebeu o apoio de grandes ONGs atuantes
na Amazônia, levou a indústria da soja - principal commodity do
país - a adotar uma moratória para novos desmatamentos em julho de
2006. O papel positivo da moratória foi reconhecido durante a
apresentação dos dados do desmatamento, pelo ministro da
Agricultura Reinhold Stephanes.
A queda no desmatamento na Amazônia pelo terceiro ano
consecutivo demonstra claramente que medidas de governança, quando
aliadas a vetores econômicos, atuam em benefício da floresta
amazônica, e em conseqüência, do clima do planeta. A emissão de
gases de efeito estufa resultantes do desmatamento e de queimadas
na Amazônia é o principal fator para fazer do Brasil o quarto maior
emissor de gases que provocam o aquecimento global.
"O governo deve aproveitar o momento favorável para aprofundar o
programa de combate ao desmatamento e fortalecer as medidas
estruturantes que permitam, num futuro razoável, acabar com a
destruição da floresta amazônica. A hora é agora, quando o governo
federal está fortalecido," disse Paulo Adário. "Para isso, é
preciso um claro compromisso com metas anuais de redução do
desmatamento - e por conseqüência, de emissões de gases estufa -
que possam mobilizar os vários setores da sociedade brasileira -
indústria, agronegócio, bancos financiadores de atividades
econômicas, sociedade civil, estados e municípios a juntar esforços
ao governo federal", completou Adário.