Estudantes assistem a discursos na COP15: falar é bom, fazer seria ainda melhor
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Lula defendeu que os países ricos cortem suas emissões em 40% e reiterou a necessidade de que se comprometam com mecanismos de financiamento para a mitigação e adaptação ao aquecimento global nos países pobres. Sobre o comprometimento do Brasil, Lula repetiu as metas de redução e as ações que já são conhecidas e consideradas, no geral, pouco ambiciosas para o país.
A relativa timidez da posição brasileira em relação aos seus cortes de emissão e a falta de novidades fizeram com que o discurso de Lula tivesse pouquíssimo impacto na convenção. Para quem tinha alguma esperança de que ele, como Al Gore na COP de Bali, em 2007, fizesse um discurso capaz de quebrar os impasses na reunião, foi uma decepção. "Lula perdeu essa oportunidade", diz Paulo Adario, diretor da Campanha Amazônia do Greenpeace. "Ele falou tudo certo. Mas sem emoção. E suas ambições mais radicais se restringiram aos cortes dos países ricos. E esta convenção está precisando que algo de dramático aconteça para que ela possa vir a dar certo. Não foi com o Lula."
O presidente disse que a mudança do clima é um dos problemas mais graves que enfrenta a humanidade. Sobre os cortes de emissão dos países ricos, preferiu enfatizar a necessidade de que eles busquem o patamar mais alto, de 40% até 2020, o que está não só em linha com as recomendações científicas, mas também é uma demanda popular entre os países em desenvolvimento.
Com relação às metas de redução de 80% das atuais emissões globais de CO2 até 2050, Lula novamente não entrou em choque com as recomendações da ciência. No entanto, apontou "que esta ambição será vazia sem compromissos de curto e médio prazo". Ao enumerá-los, Lula novamente não disse nada de errado. Mas também não fez nenhuma proposta ousada, capaz de atrair o interesse da convenção.
Lula disse também que o Protocolo de Kyoto deve ser mantido como referência para os cortes de emissões dos países desenvolvidos, mas aproveitou para lembrar que as nações em desenvolvimento precisam fazer sua parte, sem no entanto esclarecer como. O presidente também não se esqueceu de tocar na necessidade da criação de um fundo de financiamento para que os países pobres possam enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Porém, não disse se o Brasil pretende contribuir com ele, deixando no ar a suspeita de que o país não quer abrir o bolso para terceiros.
"Lula perdeu aí uma oportunidade de mudar o balanço político da reunião", diz Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace. "Ele poderia muito bem ter proposto a participação brasileira nesse fundo, ainda que com uma quantia simbólica, para confrontar a tibieza dos países ricos em relação a esse assunto." Furtado, no entanto, lembra que a ênfase dada por Lula em seu discurso de que mecanismos de mercado são insuficientes para combater o aquecimento global é relevante. "A mensagem é importante porque é preciso resistir à ideia que o mercado será a panacéia que resolverá a questão das mudanças climáticas", diz ele.
Quando tocou no Brasil e suas obrigações sobre aquecimento global, mais uma vez não disse nada que já não tivesse sido dito. Falou da meta de redução voluntária proposta por seu governo, de 36,5% a 38,9% até 2020 e pintou o Brasil, na questão energética, como um país revolucionário, com quase metade de sua matriz energética gerada a partir de fontes renováveis. Lula não falou muito sobre a Amazônia. Fez uma frase de efeito, dizendo que ela é patrimônio de quem a habita, esquecendo-se do resto dos brasileiros. Reverberando o que Dilma Roussef havia dito, Lula afirmou que o programa de redução de emissões brasileiras vai custar 16 bilhões de dólares por ano ao longo dos próximos dez anos.
"Infelizmente o presidente não esclareceu se vai querer dividir essa nossa conta com os países ricos ou se o Brasil assumirá este custo financeiro sozinho", diz Sergio leitão, diretor de Campanhas do Greenpeace. "Dinheiro para tanto, o Brasil tem. Afinal, só este ano o BNDES, que financia a produção e obras de infra-estrutura, emprestou mais de 200 bilhões. Portanto, o volume de dinheiro que Lula diz que o país vai precisar para enfrentar as mudanças climáticas não é assustador."
Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace no Brasil, avalia o discurso de Lula como bom, mas sem vibração e sem propostas realmente diferentes que pudessem ajudar a mudar os rumos desta convenção. Em Bali, há dois anos, certamente o discurso de Lula rivalizaria com o de Gore. Feito agora, em, Copenhague, ele foi correto, mas burocrático, incapaz de mudar os rumos da convenção.