Energia nuclear livre de emissões de CO2? Muito pelo contrário

Notícia - 25 - nov - 2007
Relatório "Cortina de Fumaça: Emissões de CO2 e outros impactos da energia nuclear", do Greenpeace, desmente a tese de que usinas atômicas são 'limpas' e contribuem no combate ao aquecimento global.

Ativistas do Greenpeace alertam para os perigos de Angra 3 durante audiência pública realizada no Rio de Janeiro.

Nos últimos tempos virou moda dizer que a solução para o aquecimento global é promover a geração de energia por usinas nucleares. Elas seriam, segundo seus defensores, livres de emissões de gases do efeito estufa e assim poderiam ajudar no combate às mudanças climáticas. Balela. As usinas atômicas podem até ser menos poluentes do que usinas a carvão mineral ou óleo combustível, mas Angra 3 por exemplo tem um índice de emissões indiretas de gás carbônico (CO2) cinco vezes mais alto do que a energia solar fotovoltáica (solar) e eólica.

Os dados constam do novo relatório do Greenpeace intitulado Cortina de Fumaça: emissões de CO2 e outros impactos da energia nuclear, que foi lançado nesta segunda-feira no Rio de Janeiro durante audiência pública do processo de licenciamento ambiental de Angra 3, realizada no Centro de Convenções Cidade Nova. Ativistas do Greenpeace protestaram no local, com latões amarelos simulando tonéis de lixo nuclear e uma faixa com a mensagem: "Angra 3 = lixo nuclear".

Para calcular as emissões de CO2 de Angra 3, o Greenpeace analisou o ciclo completo da energia nuclear no Brasil, considerando as seguintes etapas: extração de minério de urânio, fabricação de combustível nuclear, transporte de combustível, construção da infra-estrutura da usina, gerenciamento de rejeitos radioativos e descomissionamento da usina ao fim de sua vida útil.

De acordo com o estudo, as emissões de CO2 de Angra 3 comprovam a ineficácia da energia nuclear na mitigação das mudanças climáticas e mostram que investir nesta opção energética é um desvio caro e perigoso no combate ao aquecimento global. O documento "Cortina de Fumaça" também detalha os outros impactos ambientais da energia nuclear, especialmente o lixo radioativo, problema que continua sem solução em todo o mundo, e o histórico brasileiro de insegurança nuclear.

"Para reduzir sua participação nas mudanças climáticas, o Brasil deveria investir os mais de R$ 7 bilhões necessários para construir Angra 3 no combate aos 75% de emissões nacionais de gases do efeito estufa provenientes do desmatamento e do uso do solo", afirma Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia do Greenpeace. "Aliás, R$ 7 bilhões é o valor inicialmente estimado por nove ONGs sociais e ambientais e um grupo de economistas na proposta para zerar o desmatamento da Amazônia até 2015".

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Do ponto de vista energético, o engenheiro elétrico Ricardo Baitelo, autor do estudo "Cortina de Fumaça", comenta que o Brasil dispõe de tecnologia e fartos recursos renováveis que inviabilizam a energia nuclear em todos os aspectos.

Para o especialista do Greenpeace, ao se considerar custos, subsídios, longos períodos de construção, riscos de acidentes e questões de segurança inerentes à geração nuclear, chega-se à conclusão de que existem alternativas mais baratas, eficientes e seguras para atender à crescente demanda por energia e proporcionar o desenvolvimento econômico e social do país.

"Com os mais de R$ 7 bilhões previstos para Angra 3, seria possível, por exemplo, construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear, que é de apenas 1350 MW, sem gerar lixo tóxico e sem o risco de acidentes. O governo Lula poderia ainda buscar inspiração no Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), que com apenas 12% do investimento de Angra 3 (ou R$ 850 milhões), economizou 5.124 MW, ou quatro vezes a capacidade da usina nuclear", explica Baitelo.

"Passados mais de 30 anos da decisão do governo militar de construir a terceira usina nuclear brasileira, Angra 3 é um projeto marcado pelo atraso, pela ilegalidade, pelos altos riscos e por objetivos militares velados", afirma Rebeca Lerer, do Greenpeace. Para ela, a situação se agravou com as declarações feitas recentemente pelo ministro da defesa, Nelson Jobim. Ao participar de evento sobre segurança nacional, Jobim deixou transparecer interesses militares por trás da recente retomada do Programa Nuclear Brasileiro (PNB). "Pode até soar absurdo, mas o uso militar da tecnologia nuclear parece ser uma explicação lógica para a decisão do governo Lula de ressuscitar o PNB, começando com o investimento bilionário de recursos públicos no dinossauro radioativo Angra 3".

Além de expor os impactos ambientais de Angra 3, o Greenpeace está questionando a legalidade da usina na justiça com base em parecer escrito pelo jurista José Afonso da Silva. Confira os detalhes aqui.

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