Ativistas do Greenpeace alertam para os perigos de Angra 3 durante audiência pública realizada no Rio de Janeiro.
Nos últimos tempos virou moda dizer que a solução para o
aquecimento global é promover a geração de energia por usinas
nucleares. Elas seriam, segundo seus defensores, livres de emissões
de gases do efeito estufa e assim poderiam ajudar no combate às
mudanças climáticas. Balela. As usinas atômicas podem até ser menos
poluentes do que usinas a carvão mineral ou óleo combustível, mas
Angra 3 por exemplo tem um índice de emissões indiretas de gás
carbônico (CO2) cinco vezes mais alto do que a energia solar
fotovoltáica (solar) e eólica.
Os dados constam do novo relatório do Greenpeace intitulado
Cortina de Fumaça: emissões de CO2 e outros impactos da energia
nuclear, que foi lançado nesta segunda-feira no Rio de Janeiro
durante audiência pública do processo de licenciamento ambiental de
Angra 3, realizada no Centro de Convenções Cidade Nova. Ativistas
do Greenpeace protestaram no local, com latões amarelos simulando
tonéis de lixo nuclear e uma faixa com a mensagem: "Angra 3 = lixo
nuclear".
Para calcular as emissões de CO2 de Angra 3, o Greenpeace
analisou o ciclo completo da energia nuclear no Brasil,
considerando as seguintes etapas: extração de minério de urânio,
fabricação de combustível nuclear, transporte de combustível,
construção da infra-estrutura da usina, gerenciamento de rejeitos
radioativos e descomissionamento da usina ao fim de sua vida
útil.
De acordo com o estudo, as emissões de CO2 de Angra 3 comprovam
a ineficácia da energia nuclear na mitigação das mudanças
climáticas e mostram que investir nesta opção energética é um
desvio caro e perigoso no combate ao aquecimento global. O
documento "Cortina de Fumaça" também detalha os outros impactos
ambientais da energia nuclear, especialmente o lixo radioativo,
problema que continua sem solução em todo o mundo, e o histórico
brasileiro de insegurança nuclear.
"Para reduzir sua participação nas mudanças climáticas, o Brasil
deveria investir os mais de R$ 7 bilhões necessários para construir
Angra 3 no combate aos 75% de emissões nacionais de gases do efeito
estufa provenientes do desmatamento e do uso do solo", afirma
Rebeca Lerer, coordenadora da campanha de energia do Greenpeace.
"Aliás, R$ 7 bilhões é o valor inicialmente estimado por nove ONGs
sociais e ambientais e um grupo de economistas na
proposta para zerar o desmatamento da Amazônia até 2015".
Conheça
o nosso site especial Desmatamento Zero.
Do ponto de vista energético, o engenheiro elétrico Ricardo
Baitelo, autor do estudo "Cortina de Fumaça", comenta que o Brasil
dispõe de tecnologia e fartos recursos renováveis que inviabilizam
a energia nuclear em todos os aspectos.
Para o especialista do Greenpeace, ao se considerar custos,
subsídios, longos períodos de construção, riscos de acidentes e
questões de segurança inerentes à geração nuclear, chega-se à
conclusão de que existem alternativas mais baratas, eficientes e
seguras para atender à crescente demanda por energia e proporcionar
o desenvolvimento econômico e social do país.
"Com os mais de R$ 7 bilhões previstos para Angra 3, seria
possível, por exemplo, construir um parque eólico com o dobro da
capacidade da usina nuclear, que é de apenas 1350 MW, sem gerar
lixo tóxico e sem o risco de acidentes. O governo Lula poderia
ainda buscar inspiração no Programa Nacional de Conservação de
Energia Elétrica (Procel), que com apenas 12% do investimento de
Angra 3 (ou R$ 850 milhões), economizou 5.124 MW, ou quatro vezes a
capacidade da usina nuclear", explica Baitelo.
"Passados mais de 30 anos da decisão do governo militar de
construir a terceira usina nuclear brasileira, Angra 3 é um projeto
marcado pelo atraso, pela ilegalidade, pelos altos riscos e por
objetivos militares velados", afirma Rebeca Lerer, do Greenpeace.
Para ela, a situação se agravou com as declarações feitas
recentemente pelo ministro da defesa, Nelson Jobim. Ao participar
de evento sobre segurança nacional, Jobim deixou transparecer
interesses militares por trás da recente retomada do Programa
Nuclear Brasileiro (PNB). "Pode até soar absurdo, mas o uso militar
da tecnologia nuclear parece ser uma explicação lógica para a
decisão do governo Lula de ressuscitar o PNB, começando com o
investimento bilionário de recursos públicos no dinossauro
radioativo Angra 3".
Além de expor os impactos ambientais de Angra 3, o Greenpeace
está questionando a legalidade da usina na justiça com base em
parecer escrito pelo jurista José Afonso da Silva.
Confira os detalhes aqui.
Leia também:
Comissão de Meio Ambiente da Câmara faz pressão contra Angra
3
Saiba mais:
Conheça a nossa proposta de [R]evolução Energética
Brasil está pronto para investir em energia eólica
IPCC adverte: chegou a hora de medidas enérgicas para salvar o
clima