Era para ele ser um biólogo, mas o destino não quis assim: com
uma câmera na mão e um olhar privilegiado sobre meio ambiente,
Daniel Beltrá se transformou em um dos fotógrafos de natureza mais
conceituados do mundo. Natural de Madri, na Espanha, Beltrá vive em
Seattle, nos Estados Unidos, mas passa mais da metade do ano
viajando captando imagens do planeta.
A seguir, leia entrevista realizada com Daniel Beltrá, que desde
2001 já realizou diversos trabalhos com o Greenpeace na
Amazônia.
Em 2006, você foi agraciado com o primeiro World Press Photo, por sua foto de um barco encalhado na Amazônia por conta da seca que assolou a região no final de 2005. Em 2007, você foi novamente premiado por uma imagem de um campo de soja, também na Amazônia. E acaba de receber um terceiro prêmio. Fale um pouco sobre ele.
O Pictures Of the Year International (POYi) é um prêmio dado a
um conjunto de trabalho fotográfico sobre questões ambientais, de
natureza ou de ciência. É concedido pela Universidade de Missouri,
que possui o curso de jornalismo maior reputação nos Estados
Unidos. O painel de júri é composto por editores de revistas
extremamente conceituadas, como GEO e Magnum, renomados professores
e fotógrafos. O processo de julgamento é muito interessante, pois é
aberto ao público - jornalistas, estudantes e público em geral
podem observar as discussões, embora não possam participar. Como
vencedor de um dos quatro principais prêmios e por ser a primeira
vez que o prêmio Global Vision é concedido, fui convidado para
fazer uma apresentação do meu trabalho na Amazônia na cerimônia de
entrega da premiação. Estou muito feliz!
Conte um pouco de seu interesse por temas ambientais. Quando começou? Quais suas principais preocupações?
Desde quando eu era criança, eu sempre me interessei por
natureza. Fotografia era minha segunda paixão - ganhei minha
primeira máquina fotográfica aos 12 anos de idade. Quando estava
estudando biologia pela Universidade de Madri, eu consegui um
emprego como fotógrafo na EFE - agência espanhola de notícias. Uma
coisa levou à outra e, logo, eu estava documentando problemas
ambientais.
Desde quando e como você se envolveu com a Amazônia?
Minha primeira viagem ao Brasil aconteceu em 2001 e, desde
então, sempre volto para realizar trabalhos pela campanha da
Amazônia, do Greenpeace. Eu me sinto muito sortudo de poder fazer
parte de um time de pessoas dedicadas, que trabalham para proteger
a maior floresta tropical do planeta. É uma campanha muito querida
para mim e acredito que pode ser crucial para nosso futuro. Já
perdemos mais de 17% da floresta. É tempo de agir.
Como um prêmio como esse pode ajudar na campanha pela preservação da Amazônia?
A fotografia é uma ferramenta extremamente poderosa para expor
os crimes ambientais. A floresta Amazônica representa mais da
metade das florestas tropicais remanescentes no planeta e abriga a
maior biodiversidade do planeta. Cerca de um quinto da água doce
disponível no mundo também está aí. O delicado equilíbrio climático
que a floresta ajuda a sustentar está começando a ser estudado
agora pelos cientistas. Mais de 17% da floresta Amazônica já foi
destruída por madeireiros, grileiros e fazendeiros ilegais. As
queimadas continuam lançando enormes quantidades de dióxido de
carbono na atmosfera. O Brasil é o quarto maior emissor de gases do
efeito estufa do mundo, sendo que aproximadamente 75% vêm da queima
e desmatamentos na Amazônia, agravando o aquecimento global.
Qual é o sentimento que você tem ao tirar uma foto de um crime ambiental como esses registrados na Amazônia? A fotografia é uma boa ferramenta para mudar o estado das coisas?
Tem um ditado que diz: "ver para crer". As pessoas se dão conta
do problema quando o visualizam. A imagem fotográfica fica retida
na memória por muito mais tempo do que as imagens em movimento. Eu
acredito que as imagens certas podem motivar as pessoas a agirem.
Quando eu testemunho uma agressão ao meio ambiente, primeiro eu me
sinto frustrado, mas tento reverter essa energia negativa em algo
positivo. Eu quero dar o melhor de mim para tentar proteger essa
floresta maravilhosa. Sou um otimista por natureza e acredito que
ainda há tempo para agir e reverter esse processo de
destruição.
Muitas de suas fotos são tomadas aéreas. É a melhor forma de mostrar o que acontece?
Ao fazer tomadas aéreas tem-se uma perspectiva mais dramática do
problema. Além disso, a Amazônia é enorme, do tamanho da Europa.
Durante a seca que assolou a região em 2005, muitos rios ficaram
com a navegação comprometida e voar era a única alternativa.
Qual a foto da floresta que você ainda não fez – e gostaria de fazer?
Eu adoraria fotografar uma linda área de floresta primária, cuja
legenda se leria: "O governo brasileiro concorda e implementa o
plano para zerar o desmatamento na Amazônia".