Fazenda com desmatamento ilegal no Mato Grosso.
Na última semana de agosto, a ONG Amigos da Terra junto ao
Imazon e Greenpeace organizaram um evento em São Paulo para
discutir as soluções para a pecuária na Amazônia. Roberto Smeraldi,
diretor executivo da Amigos da Terra, faz uma avaliação do evento e
reflete a importância de colocar ONGs, bancos, supermercados,
frigoríficos e fazendas na mesa de negociações. Leia abaixo a
entrevista na íntegra.
Depois desses dois dias de troca de
informações e discussões, o que mais chamou sua atenção no
evento?
Pela primeira vez, todos os principais bancos, supermercados,
frigoríficos, várias associações de produtores, a academia, USP,
Esalq participaram juntos da mesma discussão. E o destaque desse
evento foi a exatamente essa diversidade, que surgiu porque nós, as
ONGs, tivemos a coragem de convocar todo mundo para esse debate e
porque o outro lado teve coragem de vir. Essa diversidade a meu ver
foi devido ao fato de o Greenpeace, com o relatório A Farra do Boi
na Amazônia, ter mantido aquecido o tema na mídia e isso com
certeza fez com que esse convite fosse atendido pelo setor. O
timing dessa convocação deve ter soado interessante para eles.
Talvez se tivéssemos proposto o evento em um outro momento, não
tivéssemos tido o mesmo sucesso.
Além dos dois dias de discussão,
também fazia parte do evento uma viagem de campo ao Acre para
visitar algumas fazendas sustentáveis. Depois de ir até lá e
conhecer a iniciativa, a pecuária realmente pode ser feita de outra
forma na floresta?
A viagem de campo foi surpreendente. As fazendas estão lá e são
sustentáveis. Você começa a perceber o tamanho do disparate
econômico que a pecuária implica. Você começa a ver e a entender o
que o setor está perdendo, a quantidade dos empregos gerados. A
pecuária tradicional gera 1 emprego a cada 400 ha, nas fazendas
mais sustentáveis essa proporção é de 1 para cada 80 ha e com todos
os trabalhadores registrados na CLT. Nos 70 milhões de ha de
pastagens poderia ser empregada toda a população regional. Uma
outra diferença entre uma fazenda convencional e uma sustentável é
que o animal chega para o abate com metade da idade, emitindo a
metade de metano por quilograma de carne consumido. Em termos
ambientais, a diferença também é gritante, a reserva legal respeita
a legislação ambiental, a quantidade de bois por ha é maior e o
índice de produtividade é 3 vezes maior do que o de uma fazenda
normal em que o índice é de 0,9 cabeça por ha. Todas as fazendas
têm APP e cumprem com a regulação fundiária e ambiental.
Ao participar do evento, conversar com
os atores e saber o que cada um pensa, qual foi a sua avaliação da
iniciativa?
Duas coisas devem ser destacadas e aprendidas. Eu esperaria que
muitas propostas que a gente faz tivessem resistência dentro do
setor, dizendo que as ONGs pedem demais, por exemplo. Mas, ao
contrário, todos acharam bem relevante o que a gente estava
pedindo. Ninguém questionava os fatos. Foi interessante observar
que o Greenpeace posicionou a discussão em uma nova fase. Nos dias
logo após o lançamento do relatório, lia-se na imprensa que todo
mundo queria processar o Greenpeace porque as constatações do
relatório eram mentirosas. Eu imaginaria ouvir esse discurso no
evento, mas parece que ele morreu. Todo mundo assumiu que o
Greenpeace fala a verdade. Não há mais questionamento nem os dados
do Greenpeace, nem aos do Imazon, nem aos dos Amigos da Terra.
Ninguém questiona o desmatamento zero. Eles diziam: isso é bom,
mas quem vai bancar? Os embates ficaram dentro do setor econômico,
entre pecuaristas, frigoríficos e os supermercados. A percepção foi
que esse é um setor que precisa de articulação entre os elos. É a
primeira vez que todos eles sentaram a mesa para discutir a
pecuária sobre a perspectiva ambiental. A reunião foi o início de
uma discussão sobre a negociação ao longo da cadeia sobre quem
paga a conta e quem vai ficar com os benefícios.
Durante as conversas, você identificou
uma diferença de postura entre as empresas multinacionais e as
brasileiras?
As empresas de cadeias de compra tendem a ter uma postura
parecida em termos de conteúdo, mas há diferenças com relação aos
prazos. Os de fora querem resolver rápido os problemas e os
brasileiros tendem a complicar, dizer que as coisas são lentas.
Qual é o papel da sociedade civil na resolução de problemas
ambientais?
A sociedade civil está indo além do que seria nossa atribuição e
ambição. Estamos nos tornando e proporcionando uma articulação
dentro de setores produtivos. Esse envolvimento das ONGs com as
empresas e o governo é um risco e uma oportunidade. Ela pode tanto
nos levar a cuidar de coisas que a gente não pode cuidar quanto
aumentar nossa efetividade na mudança. Nosso desafio é equilibrar
as tendências.
Como o tema de mudanças climáticas foi
abordado no evento e qual é a percepção dos participantes sobre o
papel deles nesse tema?
O pano de fundo de todas as discussões esteve amarrado em uma
possibilidade de cenário de redução das emissões do Brasil. Isso
foi explicado sob o aspecto do desmatamento zero. Temos que zerar o
desmatamento se quisermos reduzir nossas emissões.
Quais são os próximos passos para que
as soluções no setor pecuário realmente aconteçam?
O novo desafio é a implementação da mudança de postura do setor.
Já que agora a negação a existência do problema acabou, a
negociação dentro do setor a partir de agora não vai ser fácil. O
setor financeiro vai ter que começar a olhar para o setor como todo
e não para atores específicos e isolados. Agora nós temos que
aprofundar alguns temas e gerar novos dados que nos ajudem a
delinear um caminho. Em novembro teremos alguns dados novos , uma
análise detalhada e transparente do que é o quê dentro do setor,
quanto de Co2 vem do desmatamento, quanto é o metano do boi. É
necessária uma visão mais clara do que cada um pode ganhar nesse
segmento. Qual é o peso do desmatamento zero sobre as emissões do
setor? Além disso, precisamos aprofundar a relação desses dados com
as políticas públicas, principalmente o zoneamento ecológico
econômico e a questão do licenciamento ambiental das propriedades
rurais.