Apontado pelo crítico literário Harold Bloom como o maior
romancista vivo, José Saramago fez na última sexta-feira no Brasil
o lançamento mundial de seu novo livro, "As Intermitências da
Morte", que fala sobre uma história de amor entre um violoncelista
obcecado pela suíte no. 6 de Bach e a morte, personalizada na
figura de uma mulher sedutora. Em entrevista exclusiva ao
Greenpeace, o autor contou por que decidiu aderir à campanha de
proteção às florestas primárias do mundo e como pediu a suas
editoras que lançassem sua nova obra em papel certificado. Para
Saramago, único autor de língua portuguesa vencedor do Prêmio Nobel
de Literatura, se várias editoras e autores aderirem à campanha do
Greenpeace, isso poderia ser o princípio de uma pequena revolução
para salvar as florestas do planeta. O escritor falou ainda sobre
os problemas ambientais e a crise política no Brasil, afirmando que
o último referendo feito no País foi um sinal de que o governo
brasileiro está sem rumo. "A quem ocorreu essa idéia absurda?" E
ironizou: "Vamos agora referendar tudo. Amanhã, se o governo
decidir fazer um novo referendo para decidir se deve defender ou
não a Amazônia, espero que o povo brasileiro vote 100% a favor.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista com o
escritor:
Por que o senhor decidiu aderir à campanha do
Greenpeace e pedir a suas editoras para que lançassem seu livro em
papel certificado?
Confesso que nunca tinha pensado nisso antes . Eu estava
interessado no que estava se passando no mundo neste particular,
mas nunca tinha pensado em fazer algo a respeito. Então o pessoal
do Greenpeace da Espanha procurou a mim e a minha mulher e me deram
toda a documentação a respeito. Daí me dei conta da urgência de
fazer alguma coisa. A partir desse momento decidi que meu próximo
livro seria lançado de forma sustentável, utilizando papel
certificado. E isso aconteceu tanto na edição portuguesa, quanto na
brasileira (Companhia das Letras), nas espanholas (que irão para
toda a América Latina) e na catalã. Provavelmente, as próximas
edições a serem traduzidas, a alemã e a francesa, também terão um
papel que respeite o meio ambiente. E os editores de Portugal e do
Brasil foram tão receptivos à idéia que já acertamos que todas as
reedições de meus livros anteriores também serão feitos com papel
certificado.
O senhor espera que seu exemplo seja
copiado por outros autores?
Espero que esse tipo de atitude se espalhe e, se editores e
autores pensarem que essa é uma boa solução para a defesa do meio
ambiente, isto pode ser o princípio de uma pequena revolução para
salvar a vida do planeta.
Como o senhor vê hoje a crise
ambiental que atinge o planeta?
Bom, a Amazônia vive hoje uma tragédia ambiental com a seca, e
há uma grande preocupação com as tragédias como os furacões e
inundações em todos os continentes. Deve-se pensar que o planeta é
um planeta vivo, que já passou por períodos de secas, glaciações e
está sujeito a essas catástrofes ambientais. Mas deve-se
diferenciar as ações climáticas naturais daquelas causadas pelo
homem. Por exemplo, o que está a acontecer na Amazônia por causa do
corte de árvores. 17% da Amazônia já desapareceu. Se isso chegar a
30%, todo o regime de chuvas e umidade se modificará, com
conseqüências drásticas para o planeta. O que realmente me preocupa
é que a Amazônia não tem dono, ou não deveria ter. É tudo do
Estado. Mas o que está acontecendo é uma total impotência do
governo para controlar o processo de grilagem e invasão de terra
públicas na Amazônia. A Amazônia está no Brasil e vocês são
brasileiros. Então resolvam o caso.
O senhor sempre teve muita preocupação com as
questões sociais. O que deve ser priorizado, a produção de
alimentos ou a preservação ambiental?
O ideal é que não haja nenhuma prioridade. A única solução é
garantir a produção de alimentos sem afetar a preservação
ambiental. Porque, se não, ou acabamos por morrer de fome, ou o
planeta se torna inabitável, e terminamos por morrer também. E as
duas opções são péssimas.
O que o senhor acha dos transgênicos?Não tenho muita
informação sobre isso. O importante é que as pessoas entendidas no
assunto passem informações objetivas e claras e não manipuladas
para que não tomemos partido levianamente só porque lemos um artigo
que diz que os transgênicos são bons ou ruins. Temos que estar
informados. Quando dizemos que vivemos em uma sociedade da
informação, isso não significa grande coisa. Significaria muito
mais se vivêssemos em uma sociedade de pessoas informadas.
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