Paulo Adario às margens do Rio Juruena com Atainaene escoltado por PMs.
O Greenpeace e a organização indigenista Opan (Operação Amazônia
Nativa) pediram hoje ao Ministério Público Federal a apuração dos
graves incidentes ocorridos há dois dias em Juína, no Mato Grosso,
que resultaram na expulsão, por fazendeiros, de um grupo de
representantes da Opan, ativistas do Greenpeace e dois jornalistas
franceses. Entre os ambientalistas estava o coordenador do
Greenpeace na Amazônia, Paulo Adario.
Veja as imagens:
Cópias de duas horas de imagens em vídeo documentando ameaças,
ofensas e o processo de expulsão do grupo foram entregues agora à
tarde ao Procurador Federal da República em Mato Grosso, Mário
Lúcio Avelar. Pela manhã, Adario fez um pronunciamento sobre o
assunto durante reunião especial do Conselho Nacional de Meio
Ambiente (Conama) que se realiza em Cuiabá, e pediu providências
das autoridades estaduais e federais. Ontem, durante a abertura da
reunião, o governador Blairo Maggi anunciou que irá pedir a
presença do Exército para enfrentar a grilagem e garantir a ordem
no noroeste do estado, onde está Juína. O governo do estado havia
sido informado no dia anterior que o Greenpeace, a Opan e
jornalistas estavam praticamente mantidos como reféns num hotel da
cidade, cercados por quase uma centena de fazendeiros.
"Ao mesmo tempo em que o governo celebra e assume o mérito pela
queda das taxas de desmatamento na Amazônia, o episódio em Juína
mostra que sua presença ou é rala ou ainda está muito longe daqui",
disse Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia do
Greenpeace, que fazia parte do grupo. "É inaceitável que
fazendeiros, com o apoio de autoridades locais, cerceiem a
liberdade que todo cidadão tem de ir e vir e revoguem a Lei de
Imprensa, cassando o direito de jornalistas exercerem sua profissão
com segurança".
O grupo do Greenpeace, da Opan e os jornalistas franceses foram
expulsos por fazendeiros na segunda-feira pela manhã (20/08),
depois de ser mantido durante toda a noite sob vigilância em um
hotel da cidade. O grupo de nove pessoas estava de passagem por
Juína e seguia em direção à terra indígena Enawene-Nawe. O objetivo
da viagem era documentar áreas recém-desmatadas, além de mostrar a
convivência de um povo indígena que vive de agricultura e pesca com
a floresta e seu papel em preservar a biodiversidade.
No final da tarde de domingo, fazendeiros abordaram integrantes
das duas organizações no hotel onde estavam hospedados, querendo
saber quem eram e o que estavam fazendo em Juína. A área onde está
localizada a terra indígena está em disputa entre os Enawene Nawe e
os fazendeiros e expressa o conflito da expansão agrícola sobre
áreas protegidas e territórios de povos indígenas.
Os índios reivindicam a reintegração de parte do território
tradicional que teria ficado de fora da demarcação e que contém uma
área de pesca cerimonial, fundamental nos rituais sagrados dos
Enawene. Os fazendeiros, por sua vez, alegam que a terra é deles e
estão dispostos a lutar para mantê-las. Eles se mostraram muito
irritados quando souberam que jornalistas integravam o grupo que
estava no hotel.
Na manhã seguinte, o local foi cercado por dezenas de
fazendeiros e o presidente da Câmara Municipal, vereador Francisco
Pedroso, o Chicão (DEM), que exigiam esclarecimento sobre os
objetivos dos visitantes. O grupo foi levado à Câmara Municipal,
onde uma sessão especial foi rapidamente organizada. Estavam
presentes o prefeito da cidade, Hilton Campos (PR), o presidente da
Câmara, o presidente da OAB, o presidente da Associação dos
Produtores Rurais da região do Rio Preto(Aprurp), Aderval Bento,
vários vereadores e mais de 50 fazendeiros. E também a polícia.
Durante seis horas, os fazendeiros e repetiram que a entrada do
grupo na terra Enawene Nawe não seria permitida e que seria
"perigoso" insistir na viagem. Esmurrando a mesa, o prefeito de
Juína, Hilton Campos, afirmou que não iria permitir a ida do grupo
para o Rio Preto, sendo aplaudido fervorosamente pelos colegas
fazendeiros.
Para evitar maiores conflitos, a viagem foi cancelada. O grupo,
então, se dirigiu ao local de encontro com os Enawene, uma ponte
sobre o Rio Preto, a 60 km de distância, para dar a eles
combustível e comida para a volta. A viagem foi feita sob escolta
policial, para garantir a segurança dos jornalistas, da Opan e do
Greenpeace. Mas nem isso evitou que os fazendeiros, que
acompanharam a viagem de ida e volta em 8 oito caminhonetes
lotadas, continuassem intimidando e ameaçando o grupo. O grupo se
refugiou no hotel de onde não pôde sair nem para comer. Uma viatura
da Polícia Militar ficou na área, para impedir qualquer tentativa
de invasão, mas não conseguiu impedir que um fotógrafo fosse
agredido. Os fazendeiros fizeram uma vigília na frente do hotel
durante toda a noite.
De manhã cedo, 30 caminhonetes lotadas de fazendeiros, com
faróis acessos a buzinando sem parar, insultando e ameaçando o
grupo, escoltaram o grupo, que estava protegido por duas viaturas
policiais, até o aeroporto.Foram advertidos a decolar
imediatamente, ou o avião seria queimado. No momento, todos se
encontram em segurança em Cuiabá.