Os casos de contaminação de plantações convencionais e orgânicas
por variedades transgênicas estão se multiplicando ano após ano na
Catalunha (Espanha), mas ainda assim há quem insista em continuar
trabalhando com agricultura ecológica, nem que seja apenas para
marcar uma posição. É o caso de July Bergé, agricultor da cidade de
Bellcaire de Urgel. Há mais de 20 anos ele pratica um cultivo
ecológico na região e, apesar das seguidas contaminações - e
prejuízos -, não pretende desistir.
"Meu pai plantava milho orgânico há 50 anos, eu planto há 20. Ou
seja, não somos nós, os agricultores orgânicos, que somos novos por
aqui. Os novos são os transgênicos", diz ele, convicto de sua
decisão.
Bergé vem reduzindo gradativamente a área de plantio devido às
seguidas contaminações por transgênicos. Há cinco anos, plantava
cerca de 40 hectares de milho ecológico. Hoje, não passa de 1,5
hectare. Segundo o agricultor, a quantidade de milho que consegue
na colheita não chega a gerar lucro, mas nem por isso pensa em
abandonar a lavoura ecológica.
"É uma plantação simbólica, para mostrar que ainda há
agricultores de milho orgânico na Catalunha", explica.
Para evitar a contaminação de sua colheita, Bergé planta cerca
de 1 mês depois de todos seus vizinhos. Com isso, acaba colhendo
cerca de 30% a menos. Ainda assim, diz que vale à pena.
"O prêmio que recebemos por adotarmos uma agricultura ecológica
acaba cobrindo os prejuízos dessa produtividade mais baixa",
garante.
Bergé afirma que 85% das sementes de milho vendidas em sua
região são transgênicas, o que revela uma contaminação
generalizada.
"A contaminação não é uma loteria, pelo contrário. Se você
planta milho transgênico do lado de milho orgânico ou convencional,
pode ter certeza de que a contaminação vai acontecer", afirma o
agricultor catalão.
Apesar da contaminação generalizada na região, nem as
autoridades nem as empresas responsáveis pelas sementes
transgênicas admitem a necessidade de uma distância mínima entre
cultivos convencionais/orgânicos e geneticamente modificados. No
entanto, diz Bergé, as empresas que vendem sementes transgênicas
determinam que elas devem ficar a 800 metros de outros cultivos de
milho, para se manterem puras.
"Ora, então porque não exigem essa mesma distância entre campos
transgênicos e convencionais? Porque as empresas insistem em dizer
que não existe contaminação e que o isolamento não é
necessário?"