Greenpeace preparou um "banner humano" para pedir aos países do G8 mais ação para barrar o aquecimento global
Conforme previsto, a cúpula do G8 não foi além do óbvio. Na
análise do Greenpeace, o término da reunião na Alemanha foi marcado
pela falta de metas concretas dos sete países mais ricos do mundo e
a Rússia para combater o aquecimento global.
A afirmação da cúpula sobre a necessidade de uma "redução
substancial" da emissão dos gases de efeito estufa foi considerada
redundante e vazia pelo Greenpeace, especialmente após a divulgação
do relatório do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças
Climáticas) no início deste ano. "Os últimos 15 anos nos ensinaram
que compromissos voluntários simplesmente não funcionam, daí a
importância das metas para o desenvolvimento de ações urgentes.
Declarações vazias não ajudarão em nada", lamenta Marcelo Furtado,
diretor de campanhas do Greenpeace no Brasil.
Mais uma vez, os Estados Unidos retalharam qualquer acordo
efetivo de redução de emissões de gases do efeito estufa. Nem o
consenso científico sobre a necessidade de cortar em 50% as
emissões até 2050, mantendo a elevação da temperatura abaixo dos
2°C dos níveis pré-industriais, foi suficiente para levar os
grandes líderes mundiais à ação concreta.
"O documento final da cúpula apenas diz que medidas de redução
devem ser 'consideradas seriamente', enquanto os líderes do G8
deveriam apresentar metas claras e definir as negociações do
período pós-2012 do Protocolo de Kyoto", avalia Furtado.
EUA: ainda o grande vilão
De acordo com John Coequyt, analista de política energética do
Greenpeace nos Estados Unidos, "a obstrução dos EUA resultou em uma
falha do G8 em estabelecer uma meta global para redução de gases de
efeito estufa. É mais uma oportunidade perdida que reforça a
necessidade e a urgência de uma resposta de peso do Congresso
Americano", afirma. "Ao menos, foi reafirmado que as Nações Unidas
é o fórum de discussão apropriado no combate às mudanças
climáticas, e não o processo de fachada anunciado pelo Presidente
George W. Bush na última semana". O fato é que os demais países do
G8 devem caminhar independentemente da resistência americana, pois
o tempo para agir está se esgotando.
Brasil e G5
A posição do G5 (Brasil, China, Índia, México e África do Sul),
publicada ontem no documento oficial da reunião, também foi
frustrante, na avaliação do Greenpeace. Ações reais contra as
mudanças climáticas deram lugar a um conjunto de recomendações
genéricas no sentido de estabelecer o "diálogo" e "compartilhar
conhecimento".
O G8 indica a necessidade de contribuir com os países em
desenvolvimento, principalmente com relação ao combate ao
desmatamento. No documento, o Brasil solicita apoio financeiro ao
G8 para acabar com o desmatamento, porém, em nível nacional, o
governo federal ainda não assumiu claramente o compromisso de zerar
o desmatamento, priorizou a proteção dos recursos naturais ou
comprometeu-se com a implementação de uma Política Nacional de
Mudanças Climáticas.
"O fato é que a agenda de Lula na reunião do G8 era a venda de
etanol. Sabemos que os biocombustíveis são parte da solução das
mudanças climáticas, mas isso não quer dizer que o Brasil será uma
Arábia Saudita verde como gosta de promover o presidente. Não vemos
uma estratégia definida do governo brasileiro quando o assunto é a
garantia da produção de alimentos e a conservação de nossas
florestas, o que pode tornar a produção do etanol parte do
problema", afirma Furtado.
Para o Greenpeace, o Brasil e os demais países do G5 deveriam
estar discutindo como fazer sua própria revolução energética, qual
a maneira mais rápida e efetiva de se transferir tecnologia e
investimentos necessários para o estabelecimento de mercados
nacionais de energias renováveis.
"O Brasil poderia e deveria liderar esse movimento
internacional, principalmente a discussão sobre clima e florestas.
Em vez disso, o governo continua lançando mão de argumentos
desgastados, como o de não assumir metas, já que a responsabilidade
histórica é mínima. Definitivamente não é o que a sociedade
brasileira espera dos tomadores de decisão, especialmente por conta
do pouco tempo que temos para agir", conclui Furtado.
A China, com todos os seus problemas, vem demonstrando maior
habilidade do que o Brasil no desenvolvimento de estratégias, como
o lançamento de sua Política Nacional de Mudanças Climáticas no
último dia 4.
Ações na Alemanha
O Greenpeace realizou uma série de ações durante a cúpula do G8,
exigindo ação dos países participantes para barrar o aquecimento
global. Às vésperas da reunião, mais de 600 pessoas formaram um
banner humano com os dizeres "G8: Aja agora!". No dia 7, a bordo de
barcos, 24 ativistas carregaram a mesma mensagem para a frente do
hotel onde acontecia o encontro. A polícia reagiu, ferindo alguns
ativistas. E nesta sexta-feira, a bordo de um balão, o Greenpeace
levou o pedido "G8: Aja agora!" aos céus. Helicópteros da polícia
alemã cercaram o balão e obrigaram os ativistas a pousar.