Gigante da indústria química européia continua contaminando a América Latina

Notícia - 10 - dez - 2000
Greenpeace divulga novos resultados que mostram que a Solvay continua liberando Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) na Argentina

O Greenpeace devolveu, hoje, parte do lixo tóxico coletado em uma área contaminada da Argentina para a fabricante belga de PVC, Solvay (1). Vinte ativistas do Greenpeace e cerca de 100 moradores da comunidade local retornaram as substâncias tóxicas à Solvay, exigindo o fim da poluição na América Latina. Depois, um feto de quatro metros foi inflado sobre os portões da fábrica, para lembrar aos produtores de POPs o prejuízo causado ao meio ambiente e à saúde humana pela liberação destes perigosos poluentes.

"Estamos aqui, em solidariedade à comunidade de Ingeniero White, em Bahia Blanca, Argentina, enviando uma clara mensagem à Solvay: CHEGA DE POLUIÇÃO!", disse Marcelo Furtado, do Greenpeace. "As substâncias liberadas pela indústria contaminam o meio ambiente, nossos filhos e as gerações futuras", completou.

Ao mesmo tempo, o Greenpeace divulgou novas informações de que a Solvay continua contaminando, com substâncias tóxicas, a água e o solo nos arredores de sua fábrica, em Bahia Blanca, Argentina (2). Os resultados das análises mostram que a fábrica tem eliminado metais pesados no meio ambiente, além de indicar a presença de um dos POPs condenados ao banimento global pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), realizado em Joanesburgo, África do Sul.(3)

"Ontem, mais de 120 governos concordaram com a eliminação de uma lista inicial de 12 POPs, que provocam graves prejuízos à saúde humana e ao meio ambiente", disse Furtado. "A decisão tomada em Joanesburgo, África do Sul, marca o início de uma nova era na política mundial sobre poluição tóxica. Indústrias como a Solvay devem agora tomar medidas no sentido de eliminar estes perigosos poluentes do planeta", completou.

O tratado internacional vai ser baseado no Princípio de Precaução, que encoraja a tomada de ações para proteger a saúde humana e do planeta contra prejuízos potenciais dos POPs. O documento também prevê um comprometimento global para assistir financeiramente os países em desenvolvimento na eliminação dos POPs.

A Expedição das Américas do Greenpeace, a bordo do MV Artic Sunrise, estará percorrendo a região pelos próximos quatro meses, destacando os impactos provocados pela poluição tóxica ao meio ambiente e à saúde humana, além de demandar dos governos e indústrias a descontaminação de áreas no Brasil, México e Argentina. (4)

(1) Em 1999, o Greenpeace denunciou que o lixo tóxico da fábrica brasileira da Solvay foi misturado à polpa de laranja exportada para a Europa para alimentação de animais. Esta polpa de laranja levou à contaminação do leite por dioxinas, que podem causar câncer em humanos. O escândalo forçou a companhia a assinar um acordo legal para descontaminar a área e o leito do rio. Um ano depois, e nenhuma descontaminação foi feita. Em agosto, a fábrica da Solvay, em Bahia Blanca, Argentina, foi temporariamente fechada, depois que uma enorme quantidade de gás clorado vazou para o meio ambiente.

(2) Em 1996 e 1998, o Greenpeace recolheu amostras para análises nos arredores da fábrica, publicando evidências de suas práticas poluidoras. O resultado de hoje indica que, apesar da pressão pública e das reivindicações legais, a Solvay continua liberando POPs, incluindo o HCB (hexaclorobenzeno), e metais pesados como o mercúrio. O resultado de hoje também indica a presença de cloreto de vinila, o principal componente na eliminação do plástico PVC. Os POPs levam muito tempo para se degradarem no meio ambiente, acumulando-se nos tecidos gordurosos e sendo transmitidos de mãe para filho, através da placenta ou do leite materno.

(3) O tratado internacional visa o banimento da produção e uso de novos POPs, assim como a eliminação dos POPs existentes. Os "Doze Sujos" - lista inicial de 12 Poluentes Orgânicos Persistentes - incluem agrotóxicos e PCBs, usados como isolante em transformadores elétricos, assim como os indesejados sub-produtos, como as dioxinas que podem causar câncer nos seres humanos. Os governos também concordaram que, para eliminar as dioxinas, haverá a necessidade de substituir materiais, produtos e processos de produção por alternativas que não liberem as dioxinas. As dioxinas são liberadas durante a incineração de lixo tóxico e pelas indústrias que usam o cloro em seu processo de produção, como a fabricaç ão de plástico PVC. As fábricas de PVC e de cloro produzem grandes quantidades de lixo tóxico, contendo mercúrio e um grande número de organoclorados, incluindo as dioxinas. O mercúrio é um metal extremamente tóxico. É bioacumulativo e, na forma orgânica, pode causar danos permanentes no sistema nervoso, rins e no desenvolvimento do feto. O HCB pode prejudicar o desenvolvimento fetal, os sistemas nervoso e imunológico, fígado e rins. O cloreto de vinila é conhecido por causar câncer em humanos e pode causar danos no sistema imunológico, fígado e tireóide.

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