O governo federal anunciou ontem que,
entre agosto de 2005 e julho de 2006, o Brasil teria perdido 10.930
km2 de florestas, uma queda de 11% em relação ao período anterior.
Para o Greenpeace, este dado não é confiável por estar baseado
somente em dados do sistema Deter (Detecção de Desmatamento em
Tempo Real), do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais),
que identifica apenas desmatamentos maiores que 25 hectares. O
sistema Deter não foi criado para apontar índices de área desmatada
e sim mostrar em tempo real onde estariam acontecendo desmatamentos
para subsidiar operações de fiscalização.
"Até meados de agosto, os dados do Deter mostravam uma taxa de
13.973 mil km2 para o período 2005-2006, maior que a taxa do
período anterior. Os dados usados por nós foram baseados em três
índices fornecidos pelo próprio Inpe: área de desmatamento
consolidado, de floresta queimada e com indícios de perturbação,
geralmente início de desmatamento. O governo publicou um número
menor porque considerou somente o valor de desmatamento consolidado
e não considerou os outros dois índices, daí a diferença", disse
Andrew Murchie, coordenador do Laboratório de Geoprocessamento do
Greenpeace.
"A função do Deter não é calcular taxas de desmatamento, pois
ele gera incorreções e, conseqüentemente, especulações nos índices
de área desmatada. Esperamos que o governo consiga analisar e
publicar os dados do sistema Prodes pelo menos até o final deste
ano, pois este é o sistema ideal para saber o quanto de floresta
perdemos desta vez", avaliou Murchie.
Para se ter uma idéia, segundo o Deter, para o período anterior
(2004-2005), a taxa teria sido de 12.883 mil km2, quando o
resultado real do desmatamento na Amazônia foi 18.790 km2, de
acordo com o sistema Prodes (Monitoramento do Desmatamento na
Amazônia Legal, do Inpe), criado para este fim.
"A redução no desmatamento entre 2004-2005 é promissora, mas o
problema está longe de ser resolvido. Neste período, a economia não
foi favorável a dois produtos que têm papel importante no avanço da
destruição da floresta: o gado e a soja. Por isso, houve uma
retração na abertura de novas áreas para estabelecimento das
fazendas", disse Marcelo Marquesini, da campanha da Amazônia do
Greenpeace. "Um índice entre 16 a 18 mil km2 por ano é muito alto,
não é motivo de comemoração e muito menos aceitável para qualquer
país comprometido com seu patrimônio natural", complementou.
Um fato que chama atenção é que alguns municípios famosos
campeões de desmatamento como Porto Velho (RO), São Félix do Xingu
(PA) e Altamira (PA) continuam aparecendo no pódio, indicando que
os vetores do desmatamento nestas regiões continuam ativos sem
sofrer com as medidas governamentais.
Durante o mês de agosto foram registrados 91.575 focos de calor
na Amazônia, dos quais 2.954 localizavam-se em unidades de
conservação e 5.544 em terras indígenas. O Pará foi recordista, com
33.139 focos, sendo 1.801 em Unidades de Conservação (UCs) e 1.925
em Terras Indígenas. Outros Estados, como Mato Grosso, Maranhão e
Rondônia, também vêm apresentando grande incidência de incêndios e
queimadas. Isso não é motivo de alegria.