Centrais nucleares da Areva.
Às vésperas da reunião anual geral da Areva, maior empresa
nuclear do mundo, o Greenpeace alerta governantes e investidores
que pretendem construir usinas nucleares de que os novos reatores
da estatal francesa prejudicam o setor energético e as
finanças.
Ao contrário do que divulga a Areva, a construção dos dois
Reatores Pressurizados Europeus, (EPR, na sigla em inglês) na
França e na Finlândia, tem apresentado sérios problemas. O reator
de Olkiluoto 3, na Finlândia, que começou a ser construído em 2005,
já está com o cronograma atrasado em dois anos e os acumula mais de
US$ 1,5 bilhão em prejuízos. A obra também está marcada por
problemas técnicos. A base do reator foi construída com concreto de
má qualidade que produziu um contentor fraco. Além disso, as soldas
e os componentes do reator são de baixa qualidade. Estas falhas na
construção implicam riscos potenciais na segurança (1).
Parceiros no projeto finlândes, as empresas Siemens e Areva,
estão sendo acusados de perdas econômicas e os custos adicionais
serão cobrados dos seus clientes como a distribuidora TVO, apesar
de terem definido um contrato de preço fixo. Há cerca de duas
semanas, a Siemens reconheceu "perdas significativas" com o projeto
de Olkiluoto 3 (2 - linkar com info nota blog). Como resultado dos
atrasos para o início de funcionamento do novo reator e da falha em
conseguir investimentos alternativos em energias renováveis ou
economia de energia, o governo finlandês está enfrentando problemas
para atingir suas metas de redução de emissão de gases de efeito
estufa e garantir suprimento energético para os próximos anos.
Evidências recentes confirmaram que o EPR em fase de instalação
na França enfrenta dificuldades similares. Desde que a construção
começou em Flamanville, na Normandia, em dezembro do ano passado, a
agência de segurança nuclear francesa tem revelado uma série de
problemas, como por exemplo, o uso de concreto de qualidade
inadequada, trama de ferro mal disposta na base, soldas produzidas
por fornecedor sem qualificação, controle de qualidade ineficaz ou
inexistente, variações não autorizadas do projeto aprovado e falta
de habilidade para corrigir os erros de forma satisfatória (2).
"O EPR da Areva está se revelando o mesmo pesadelo nuclear de
sempre e quem vai pagar a conta são os consumidores de
eletricidade", disse Yannick Rousselet, coordenador da campanha de
energia do Greenpeace da França.
A Areva, que tem 87% das suas operações controladas pelo governo
francês, tem como prioridade a entrega dos dois projetos EPR na
França e na Finlândia (3). A empresa também está em franca campanha
para vender sua tecnologia e por isso vem promovendo ativamente a
energia nuclear internacionalmente.
No caso do Brasil, a construção da usina nuclear Angra 3,
autorizada pelo governo Lula em junho de 2007, deverá envolver
diretamente a Areva nos 30% de financiamento externo do projeto. A
estatal francesa também participou da substituição de uma turbina
geradora de vapor da usina Angra 1, que aconteceu em março deste
ano. "O interesse da Areva, e, portanto, do governo francês nos
programas nucleares de países em desenvolvimento como o Brasil é
tanto político quanto econômico", afirma Rebeca Lerer, da campanha
de energia do Greenpeace no Brasil. "Qualquer governo que fechar
negócio com a Areva vai, de fato, criar uma dependência tecnológica
e comercial do estado francês que é provedor de assistência
técnica, além de fabricar combustível nuclear".
Para o Greenpeace, apostar em energia nuclear é um erro para os
governantes que se comprometeram em reduzir emissões de gases de
efeito estufa. Os altos custos e a falta de tempo, além dos riscos
inerentes de segurança e a inexistência de solução definitiva para
o lixo radioativo, são os principais obstáculos para que ocorra uma
renascença da energia nuclear, ao contrário do que prega a Areva.
Com o objetivo comercial de vender seus projetos nucleares ao redor
do mundo, a Areva e o governo francês estão participando de um jogo
caro e perigoso que desvia a atenção das soluções energéticas
viáveis e renováveis que já estão disponíveis aqui e agora",
completa Rebeca Lerer
Na Espanha
Enquanto alguns países insistem em investir em energia nuclear,
outros sofrem com a falta de segurança destas instalações. No
último dia 5 de abril, o Greenpeace denunciou um vazamento de
material radiativo ocorrido durante uma troca de combustível
realizada em novembro de 2007 na usina nuclear de Asco I,
localizada em Terragona, nordeste da Espanha. A população só foi
oficialmente informada sobre o acidente após a denúncia do
Greenpeace. Mais de 800 pessoas foram examinadas em busca de
indícios de contaminação radioativa.
Para saber mais:
[1] Greenpeace briefing " Fact sheet: Olkiluoto
3", March 2008
[2] ASN letters dated January 25, February 19 and
March 12, 2008, ASN website
[3] Areva Business and Strategy Overview, Corporate
Presentation, December 2007