Flores e som de cítara marcaram um protesto diferente que
envolveu 25 ativistas da organização ambientalista Greenpeace,
representantes da ACPO (Associação de Combate aos POPs) e
pescadores da UNIPESQ (União dos Pescadores de Conceiçãozinha, no
Guarujá). Os manifestantes fizeram uma cerimônia em solidariedade
às mais de 100 mil vítimas de Bhopal, em frente a sede brasileira
da empresa Dow Química, em São Paulo.
Os ativistas cobriram a entrada principal da empresa com flores
coloridas, simbolizando as vítimas de um dos maiores acidentes
químicos da história. Uma placa de metal foi fixada na entrada
principal da empresa lembrando o número de pessoas afetadas e com
uma pergunta: " Dow, até quando? " Uma apresentação de cítara,
instrumento musical tradicional indiano, foi realizada pelo músico
Luciano Sallun e teve como público parte dos funcionários da
empresa.
A organização ambientalista Greenpeace enviou ontem, dia sete de
maio (1), cartas aos principais executivos da Dow Química no mundo,
para que se pronunciassem favoravelmente ao processo de
descontaminação e promovessem a justiça para as vítimas de Bhopal,
durante a Reunião Geral de Acionistas (AGM) que será realizada
amanhã na cidade Midland, no Michigan, sede mundial da empresa nos
Estados Unidos. Protestos em solidariedade às vítimas estão
acontecendo na sede regional européia, na Suíça, e na sede
asiática, em Hong Kong.
Na madrugada de 03 de
dezembro de 1984, mais de 500 mil pessoas foram expostas a um
coquetel de gases letais que vazaram da fábrica de agrotóxicos da
Union Carbide (hoje pertencente à Dow Química) em Bhopal, na Índia.
Mais de 7,5 mil pessoas morreram na noite do desastre. De acordo
com a rede AaCcTt (2) e comunidades locais, hoje, o número de
vítimas fatais ultrapassa os 20 mil. São contabilizados em mais de
100 mil o número de pessoas da região que sofrerem com os efeitos
da exposição crônica aos gases, manifestados em doenças pulmonares,
coronárias, neurológicas e nos olhos, além de provocarem sérios
distúrbios nos sistemas imunológico, hormonal e reprodutivo. A
população necessita constantemente de atendimento médico, que é
inexistente. Segundo dados oficiais, a cada mês que passa, mais um
sobrevivente do desastre morre por doenças relacionadas à
exposição.
Logo após o acidente, a Union Carbide abandonou a fábrica,
deixando para trás toneladas de lixo tóxico. Assim, nos últimos 17
anos, o lençol freático que abastece a cidade vem sendo
contaminado. Dessa forma, a comunidade, sem escolha, vê-se obrigada
a consumir esta água todos os dias, ingerindo um coquetel de
substâncias tóxicas, que inclui clorobenzeno, clorofórmio,
tricloroetano e tetracloreto de carbono. Em 1999, uma pesquisa do
Greenpeace revelou níveis de contaminação muito acima dos padrões
para água potável aceitos pela EPA-US (do inglês, Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos). Os níveis de tetracloreto
de carbono são 682 vezes superiores aos permitidos pela agência
norte-americana; os de clorobenzeno, 11 vezes; os de tricloroetano,
50 vezes; e os níveis de clorofórmio superaram em 20 vezes os
padrões dos Estados Unidos.
Em fevereiro de 2001, a Union
Carbide foi incorporada pela multinacional americana Dow Chemicals.
A transação comercial envolveu cerca de US$ 9,3 bilhões, criando a
segunda maior companhia química do mundo. "O fato de a Dow ter
comprado a Union Carbide não mudou em nada a necessidade de
descontaminar Bhopal e de garantir o tratamento médico aos
sobreviventes. De acordo com a legislação norte americana, à qual a
sede internacional da Dow está sujeita, a mudança de dono não
retira da indústria a responsabilidade pelo passivo ambiental
adquirido. É inadmissível que a Dow adote um padrão de conduta
dentro dos Estados Unidos e outro fora." diz Karen Suassuna,
coordenadora da campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "Os
acionistas da Dow devem se questionar se é ético uma empresa
dispender tanto esforço para construir uma imagem pública e ao
mesmo tempo demostrar tanto descaso com o sofrimento imposto à
população".
O protesto, que contou com o apoio de organizações brasileiras
formadas por vítimas de contaminação, também serve para lembrar às
autoridades nacionais e ao setor industrial que casos semelhantes
ao de Bhopal também acontecem aqui. Assim como as vítimas indianas,
brasileiros também sofrem com a contaminação ambiental e danos a
sua saúde causados por contaminantes químicos oriundos de processos
industriais. Empresas como a belga Solvay, a gigante Shell, de
capital britânico e holandês, a francesa Rhodia, dentre outras, são
responsáveis por boa parte da herança tóxica brasileira (3). "Minha
vida hoje depende de medicamentos e é por isso que estou aqui,
prestando minha solidariedade àqueles que já se foram e aos que
como eu se tornaram para sempre vítimas de uma ação irresponsável
da indústria química" diz Márcio Pedroso, contaminado por mercúrio
e membro da organização brasileira ACPO (Associação de Combate aos
POP's) com sede em Santos, no estado de São Paulo.
Em janeiro de 1998, o Greenpeace denunciou a contaminação por
tetracloreto de carbono e clorofórmio encontrados nos efluentes da
planta da Dow, localizada no Guarujá , no estado de São Paulo. A
postura da companhia foi negar a possibilidade de dano ambiental.
Mesmo após dois anos da denuncia, a Dow recusa-se a pronunciar-se
publicamente sobre o assunto. "Os peixes sumiram, a água está
contaminada, não tenho mais de onde tirar meus sustento como
pescador, Hoje luto por um futuro melhor para meus filhos, não
quero dar a eles a vida que tive, vendo a minha maior riqueza, o
estuário do Guarujá, ser destruído pela poluição". Newton Rafael
Gonçalves é pescador caiçara, secretário geral da UNIPESQ e morador
a mais de 44 anos do síto Conceiçãozinha, fundado em 1898 e
localizado ao lado da planta da Dow Química no Guarujá, litoral do
estado de São Paulo.
A forma com a qual a Dow lida com a tragédia de Bhopal está
servindo como modelo de negligência para os demais "casos Bhopal"
espalhados ao redor do mundo. Até agora a Dow não conseguiu ser um
exemplo positivo e seu descaso em assumir a responsabilidade é um
modelo para aqueles que pensam que as vítimas desse tipo de herança
química podem ser abandonadas a sua própria sorte.
(2) AaCcTt: Bhopal (Ação contra Crimes Corporativos e Terrorismo
Tóxico: Bhopal) é uma aliança internacional para promover a Justiça
em Bhopal e um futuro livre da contaminação tóxica. A coalizão
inclui organizações de sobreviventes da tragédia de Bhopal como a
Gas Peedit Nirasharit Morcha (Bhopal), a Gas Peedit Mahila
Stationary Karmachari Sangh (Bhopal), além do Grupo para Informação
e Ação, da Campanha Nacional para Justiça em Bhopal (Mumbai), da A
Outra Midia (Nova Delhi), CorpWatch e do Greenpeace.
(3) Informações e relatórios técnicos sobre casos de
contaminação ambiental podem ser encontrados no site da campanha de
tóxicos do Greenpeace Brasil ou no hotsite da Agência Estado, no ar
desde o dia três de maio:
www.estadao.com.br/ext/ciencia/zonasderisco