Greenpeace bloqueia escritório norte-americano da Dow com água contaminada de Bhopal

Notícia - 10 - mar - 2003
Ativistas exigem que a gigante química descontamine a cidade da Índia

Ativistas do Greenpeace e da Campanha Internacional por Justiça em Bhopal (ICJB, na sigla em inglês) entregaram hoje 900 litros de água contaminada de Bhopal ao escritório texano da Dow Química em Houston, no Texas. Os barris com a água contaminada coletada nas proximidades do pior acidente industrial da história foram usados para bloquear a entrada da empresa enquanto os ativistas demandavam que a empresa assuma sua responsabilidade pela descontaminação de Bhopal e retire duas ações judiciais contra os sobreviventes da tragédia.

A Dow Química, hoje dona da Union Carbide e de seus passivos ambientais e sociais, tem não só se recusado a aceitar sua responsabilidade sobre este passivo, como também procurado na justiça compensação financeira dos sobreviventes que protestam contra o comportamento da empresa. (1)

"Nossa mensagem é simples", disse Casey Harrell, ativista do Greenpeace nos EUA. "A Dow precisa descontaminar Bhopal já e assumir responsabilidade integral pelos danos ambientais e à saúde humana causados naquela cidade da Índia. Até que o faça, a transnacional não poderá ser considerada uma empresa socialmente responsável".

Na noite de 02 de dezembro de 1984, um vazamento do gás letal methyl isocianato proveniente da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide instalada em Bhopal, iniciou uma tragédia que matou mais de 8.000 pessoas nos três primeiros dias.

Depois do vazamento, a Union Carbide abandonou a planta e o país, deixando para trás centenas de toneladas de compostos químicos tóxicos que vêm contaminando o solo e o lençol freático. Desde a catástrofe, mais de 20 mil pessoas já morreram e outras 150 mil necessitam de cuidados médicos constantes. Em 2001, a Dow Química comprou a Union Carbide, e desde lá tem se recusado a aceitar suas responsabilidades como herdeira do passivo ambiental e social gerado pelo desastre. Esta recusa contrasta totalmente com a aceitação da responsabilidade pelos passivos da controlada Union Carbide nos EUA, onde recentemente a Dow separou US$ 2,2 bilhões de seus lucros para fazer frente a passivo relativo à produção de amianto no Texas.

"Nós já devolvemos parte do lixo tóxico de Bhopal para a Dow na Índia, na Holanda, na Tailândia e na Suíça. Agora estamos trazendo parte deste problema para a Dow nos Estados Unidos", disse Champa Devi, Secretária da BGPMSKS, uma das maiores organizações de sobreviventes da tragédia. "A relutância apresentada pela Dow até agora em descontaminar e assumir a responsabilidade pelas suas pendências sociais em Bhopal está envenenando diariamente centenas de pessoas e agravando o sofrimento dos sobreviventes e de seus filhos".

No Brasil, o Greenpeace promoveu uma ação no dia 16 de janeiro deste ano para a sede latino-americana da Dow pressionar por justiça em Bhopal. Durante a ação, uma carta foi entregue à diretoria da multinacional para a América Latina com as demandas da Campanha Internacional por Justiça em Bhopal, da qual o Greenpeace faz parte. Ainda durante esse ano, o Greenpeace Brasil promoveu duas exposições fotográficas sobre o crime corporativo de Bhopal, com fotos do renomado fotógrafo indiano Raghu Rai: uma durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e outra em fevereiro, na cidade de São Paulo, no Centro Universitário Belas Artes.

O Greenpeace e a ICJB demandam da Dow que assuma responsabilidade sobre o passivo sócio-ambiental em Bhopal, que descontamine a planta industrial e as vizinhanças afetadas, que abra aos sobreviventes o relatório com a composição completa do gás tóxico liberado no dia da tragédia, que forneça água limpa para a comunidade vizinha à área do acidente, que pague pelo tratamento de saúde de longo prazo para os afetados e que os compense financeiramente. A Campanha também demanda a criação de legislação internacional que assegure que transnacionais como a Dow sejam responsabilizadas pela poluição e acidentes que causem em qualquer país do mundo.

 Notas:

(1) A Dow entrou com duas ações na justiça da Índia contra os sobreviventes da tragédia por ocasião de protestos pacíficos realizados em Bombaim nos aniversários de 17 e 18 anos do desastre. Em todo o mundo, simpatizantes dos sobreviventes de Bhopal estão neste momento protestando contra esta tentativa da empresa de impedir o direito de opinião e protesto fazendo um "sit-in" virtual no website de propaganda da empresa: www.bhopal.com/.

(2) O Greenpeace atua nesta campanha como membro da Campanha Internacional por Justiça em Bhopal (ICJB - International Campaign for Justice in Bhopal), coalizão de indivíduos e ONGs que atua na Índia e em vários outros países do mundo por justiça para os sobreviventes da tragédia e suas famílias.

(3) Veja mais informações sobre o acidente de Bhopal em www.greenpeace.org.br/bhopal e www.bhopal.net para mais informação.

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