Ativistas do Greenpeace e da Campanha Internacional por Justiça
em Bhopal (ICJB, na sigla em inglês) entregaram hoje 900 litros de
água contaminada de Bhopal ao escritório texano da Dow Química em
Houston, no Texas. Os barris com a água contaminada coletada nas
proximidades do pior acidente industrial da história foram usados
para bloquear a entrada da empresa enquanto os ativistas demandavam
que a empresa assuma sua responsabilidade pela descontaminação de
Bhopal e retire duas ações judiciais contra os sobreviventes da
tragédia.
A Dow Química, hoje dona da Union Carbide e de seus passivos
ambientais e sociais, tem não só se recusado a aceitar sua
responsabilidade sobre este passivo, como também procurado na
justiça compensação financeira dos sobreviventes que protestam
contra o comportamento da empresa. (1)
"Nossa mensagem é simples", disse Casey Harrell, ativista do
Greenpeace nos EUA. "A Dow precisa descontaminar Bhopal já e
assumir responsabilidade integral pelos danos ambientais e à saúde
humana causados naquela cidade da Índia. Até que o faça, a
transnacional não poderá ser considerada uma empresa socialmente
responsável".
Na noite de 02 de dezembro de 1984, um vazamento do gás letal
methyl isocianato proveniente da fábrica de agrotóxicos da Union
Carbide instalada em Bhopal, iniciou uma tragédia que matou mais de
8.000 pessoas nos três primeiros dias.
Depois do vazamento, a Union Carbide abandonou a planta e o
país, deixando para trás centenas de toneladas de compostos
químicos tóxicos que vêm contaminando o solo e o lençol freático.
Desde a catástrofe, mais de 20 mil pessoas já morreram e outras 150
mil necessitam de cuidados médicos constantes. Em 2001, a Dow
Química comprou a Union Carbide, e desde lá tem se recusado a
aceitar suas responsabilidades como herdeira do passivo ambiental e
social gerado pelo desastre. Esta recusa contrasta totalmente com a
aceitação da responsabilidade pelos passivos da controlada Union
Carbide nos EUA, onde recentemente a Dow separou US$ 2,2 bilhões de
seus lucros para fazer frente a passivo relativo à produção de
amianto no Texas.
"Nós já devolvemos parte do lixo tóxico de Bhopal para a Dow na
Índia, na Holanda, na Tailândia e na Suíça. Agora estamos trazendo
parte deste problema para a Dow nos Estados Unidos", disse Champa
Devi, Secretária da BGPMSKS, uma das maiores organizações de
sobreviventes da tragédia. "A relutância apresentada pela Dow até
agora em descontaminar e assumir a responsabilidade pelas suas
pendências sociais em Bhopal está envenenando diariamente centenas
de pessoas e agravando o sofrimento dos sobreviventes e de seus
filhos".
No Brasil, o Greenpeace promoveu uma ação
no dia 16 de janeiro deste ano para a sede latino-americana da
Dow pressionar por justiça em Bhopal. Durante a ação, uma carta foi
entregue à diretoria da multinacional para a América Latina com as
demandas da Campanha Internacional por Justiça em Bhopal, da qual o
Greenpeace faz parte. Ainda durante esse ano, o Greenpeace Brasil
promoveu duas exposições fotográficas sobre o crime corporativo de
Bhopal, com fotos do renomado fotógrafo indiano Raghu Rai: uma
durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre, e outra em
fevereiro, na cidade de São Paulo, no Centro Universitário Belas
Artes.
O Greenpeace e a ICJB demandam da Dow que assuma
responsabilidade sobre o passivo sócio-ambiental em Bhopal, que
descontamine a planta industrial e as vizinhanças afetadas, que
abra aos sobreviventes o relatório com a composição completa do gás
tóxico liberado no dia da tragédia, que forneça água limpa para a
comunidade vizinha à área do acidente, que pague pelo tratamento de
saúde de longo prazo para os afetados e que os compense
financeiramente. A Campanha também demanda a criação de legislação
internacional que assegure que transnacionais como a Dow sejam
responsabilizadas pela poluição e acidentes que causem em qualquer
país do mundo.
Notas:
(1) A Dow entrou com duas ações na justiça da Índia contra os
sobreviventes da tragédia por ocasião de protestos pacíficos
realizados em Bombaim nos aniversários de 17 e 18 anos do desastre.
Em todo o mundo, simpatizantes dos sobreviventes de Bhopal estão
neste momento protestando contra esta tentativa da empresa de
impedir o direito de opinião e protesto fazendo um "sit-in" virtual
no website de propaganda da empresa: www.bhopal.com/.
(2) O Greenpeace atua nesta campanha como membro da Campanha
Internacional por Justiça em Bhopal (ICJB - International Campaign
for Justice in Bhopal), coalizão de indivíduos e ONGs que atua na
Índia e em vários outros países do mundo por justiça para os
sobreviventes da tragédia e suas famílias.
(3) Veja mais informações sobre o acidente de Bhopal em www.greenpeace.org.br/bhopal
e www.bhopal.net para mais
informação.