Greenpeace bloqueia siderúrgica gaúcha em protesto contra poluição tóxica

Notícia - 4 - jan - 2001

Uma corrente humana formada por 12 ativistas do Greenpeace fechou, na manhã de hoje, a principal entrada da Gerdau Riograndense, instalada em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre (RS). Ao mesmo tempo, outro time de ativistas bloqueava, no Rio dos Sinos, a saída de efluentes líquidos da empresa. O objetivo: obter compromisso da empresa de não mais contaminar o meio ambiente com Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs). De acordo com relatório científico divulgado pela entidade ambientalista, a Gerdau contamina o meio ambiente com ascarel (PCB), uma das substâncias químicas mais tóxicas de que se tem notícia (1).

A denúncia do Greenpeace veio a tona ontem em reunião com representantes do governo estadual e da FIERGS (Federação das Industrias do Estado do Rio Grande do Sul). Mais de três horas após o inicio, os ativistas continuam acorrentados aos portões da Gerdau.

"O ascarel é um Poluente Orgânico Persistente (POP) e causa efeitos nocivos na natureza e na saúde da população", explica Karen Suassuna, da Campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A Gerdau, maior recicladora de ferro da América Latina, tem condições de adotar os mais modernos padrões ambientais existentes. Além de negar a poluição que causa, a Gerdau comporta-se de maneira irresponsável ao se recusar a usar tecnologias limpas de produção".

O Greenpeace considera insuficiente a resposta da Gerdau, dada às dez horas da manhã de hoje. "Alegar razões de mercado para cumprir padrões ambientais elevados nos Estados Unidos, enquanto mantém padrões ambientais mais baixos no Brasil, é considerar a saúde dos cidadãos brasileiros menos importante que a saúde dos cidadãos americanos", afirma Roberto Kishinami, diretor executivo do Greenpeace no Brasil.

Uma das amostras contaminadas foi coletada no forro do telhado da casa de um morador do Bairro Fortuna, vizinho as instalações da empresa em Sapucaia. Mesmo em baixíssimas concentrações no organismo, o ascarel pode causar problemas como má formação fetal, disruptura hormonal e falhas nos sistemas reprodutor e imunológico. "A população está sendo exposta a graves riscos de saúde. Não só as crianças correm perigo, mas os bebês que ainda estão por nascer, já que esse tipo de contaminante pode passar de mãe para filho através da placenta", diz Suassuna.

A contaminação por POPs não pode ser barrada por filtros ou outros métodos tradicionais de controle de poluição. Por isso, o Greenpeace demanda a eliminação na fonte de tais substâncias, de acordo com o Protocolo POPs (2), tratado internacional que visa, inicialmente, a erradicação de 12 destas substâncias. O documento será assinado em maio próximo na cidade de Estocolmo.

O protesto de hoje é parte da etapa brasileira da Expedição das Américas, que teve início no dia 3 com a chegada do navio MV Artic Sunrise a Porto Alegre. A viagem é parte de uma campanha mundial contra a poluição industrial. No Brasil, o navio fará escalas em Santos(SP) e no Rio de Janeiro(RJ), de onde segue para o México e Estados Unidos.

(1) O ascarel está proibido no Brasil desde 1981. As amostras coletadas na planta da Gerdau em Sapucaia do Sul, região metropolitana de Porto Alegre, apresentaram ascarel tipo Arocloro 1254, substância extremamente tóxica. Na poeira emitida pela empresa, foram identificados 162 compostos poluentes. Foram detectadas também altas concentrações de metais pesados como cádmio, mercúrio e zinco. O teor de chumbo encontrado é 20 vezes maior do que a ocorrência natural deste metal.

(2) O Protocolo visa, inicialmente, a eliminação de 12 substâncias químicas conhecidas como Poluentes Orgânicos Persistentes, ou POPs. Os POPs são as substâncias mais perigosas já produzidas pelo homem, porque são bioacumulativas e persistem por muito tempo no meio ambiente. A exposição aos POPs já foi relacionada a uma ampla gama de efeitos na saúde, como câncer, disfunções do sistema hormonal e reprodutor, endometriose e efeitos no desenvolvimento de crianças e fetos. O Protocolo POPs será assinado em Estocolmo, em maio deste ano. O texto do documento foi acordado em Joanesburgo, África do Sul, durante a reunião do Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), em dezembro de 2000, na presença de 122 países. A eliminação do PCB, ou ascarel, está prevista no Protocolo POPs.

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