Uma corrente humana formada
por 12 ativistas do Greenpeace fechou, na manhã de hoje, a
principal entrada da Gerdau Riograndense, instalada em Sapucaia do
Sul, região metropolitana de Porto Alegre (RS). Ao mesmo tempo,
outro time de ativistas bloqueava, no Rio dos Sinos, a saída de
efluentes líquidos da empresa. O objetivo: obter compromisso da
empresa de não mais contaminar o meio ambiente com Poluentes
Orgânicos Persistentes (POPs). De acordo com relatório científico
divulgado pela entidade ambientalista, a Gerdau contamina o meio
ambiente com ascarel (PCB), uma das substâncias químicas mais
tóxicas de que se tem notícia (1).
A denúncia do Greenpeace veio a tona ontem em reunião com
representantes do governo estadual e da FIERGS (Federação das
Industrias do Estado do Rio Grande do Sul). Mais de três horas após
o inicio, os ativistas continuam acorrentados aos portões da
Gerdau.
"O ascarel é um Poluente Orgânico Persistente (POP) e causa
efeitos nocivos na natureza e na saúde da população", explica Karen
Suassuna, da Campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A
Gerdau, maior recicladora de ferro da América Latina, tem condições
de adotar os mais modernos padrões ambientais existentes. Além de
negar a poluição que causa, a Gerdau comporta-se de maneira
irresponsável ao se recusar a usar tecnologias limpas de
produção".
O Greenpeace considera insuficiente a resposta da Gerdau, dada
às dez horas da manhã de hoje. "Alegar razões de mercado para
cumprir padrões ambientais elevados nos Estados Unidos, enquanto
mantém padrões ambientais mais baixos no Brasil, é considerar a
saúde dos cidadãos brasileiros menos importante que a saúde dos
cidadãos americanos", afirma Roberto Kishinami, diretor executivo
do Greenpeace no Brasil.
Uma das amostras contaminadas foi coletada no forro do telhado
da casa de um morador do Bairro Fortuna, vizinho as instalações da
empresa em Sapucaia. Mesmo em baixíssimas concentrações no
organismo, o ascarel pode causar problemas como má formação fetal,
disruptura hormonal e falhas nos sistemas reprodutor e imunológico.
"A população está sendo exposta a graves riscos de saúde. Não só as
crianças correm perigo, mas os bebês que ainda estão por nascer, já
que esse tipo de contaminante pode passar de mãe para filho através
da placenta", diz Suassuna.
A contaminação por POPs não pode ser barrada por filtros ou
outros métodos tradicionais de controle de poluição. Por isso, o
Greenpeace demanda a eliminação na fonte de tais substâncias, de
acordo com o Protocolo POPs (2), tratado internacional que visa,
inicialmente, a erradicação de 12 destas substâncias. O documento
será assinado em maio próximo na cidade de Estocolmo.
O protesto de hoje é parte da etapa brasileira da Expedição das
Américas, que teve início no dia 3 com a chegada do navio MV Artic
Sunrise a Porto Alegre. A viagem é parte de uma campanha mundial
contra a poluição industrial. No Brasil, o navio fará escalas em
Santos(SP) e no Rio de Janeiro(RJ), de onde segue para o México e
Estados Unidos.
(1) O ascarel está proibido no Brasil desde 1981. As amostras
coletadas na planta da Gerdau em Sapucaia do Sul, região
metropolitana de Porto Alegre, apresentaram ascarel tipo Arocloro
1254, substância extremamente tóxica. Na poeira emitida pela
empresa, foram identificados 162 compostos poluentes. Foram
detectadas também altas concentrações de metais pesados como
cádmio, mercúrio e zinco. O teor de chumbo encontrado é 20 vezes
maior do que a ocorrência natural deste metal.
(2) O Protocolo visa, inicialmente, a eliminação de 12
substâncias químicas conhecidas como Poluentes Orgânicos
Persistentes, ou POPs. Os POPs são as substâncias mais perigosas já
produzidas pelo homem, porque são bioacumulativas e persistem por
muito tempo no meio ambiente. A exposição aos POPs já foi
relacionada a uma ampla gama de efeitos na saúde, como câncer,
disfunções do sistema hormonal e reprodutor, endometriose e efeitos
no desenvolvimento de crianças e fetos. O Protocolo POPs será
assinado em Estocolmo, em maio deste ano. O texto do documento foi
acordado em Joanesburgo, África do Sul, durante a reunião do
Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA), em
dezembro de 2000, na presença de 122 países. A eliminação do PCB,
ou ascarel, está prevista no Protocolo POPs.