Greenpeace condena a nota do governo FHC favorável a transgênicos

Notícia - 6 - jul - 2000
Para a entidade ambientalista posição é contrária aos reais interesses do país

O Greenpeace condenou hoje a nota assinada por seis ministros, na qual o Executivo federal se posiciona a favor da produção de transgênicos no país antes que pesquisas científicas idôneas provem que essas plantas não oferecem danos à saúde e ao meio ambiente.

A entidade ambientalista lembrou que todas as pesquisas assegurando que os transgênicos não trazem impactos negativos foram feitas pelas próprias empresas multinacionais que desenvolveram as sementes transgênicas, como a Monsanto e a Novartis.

Para o Greenpeace, a nota do Executivo favorece apenas as empresas multinacionais, que têm interesse direto na comercialização dos transgênicos, e não leva em conta o risco potencial para a saúde da população e a integridade do meio ambiente. A posição do governo federal também compromete a lucratividade futura da agricultura brasileira, já que pode levar o país a perder a vantagem comparativa por ser o único exportador mundial de grãos não transgênicos, demandados pelo mercado europeu.

"A nota do Governo Executivo teve pelo menos uma virtude: o governo assume, agora, sua posição pró-transgênicos, em vez de escondê-la atrás do linguajar técnico científico da Comissão Técnica de Biossegurança (CTN-Bio)", diz Marijane Lisboa, Consulta Política do Greenpeace. "A Comissão funciona a portas fechadas, em total sigilo, emitindo seus pareceres sem prestar a mínima satisfação à sociedade. Não podemos levar a sério decisões tomadas dessa forma, nas quais boa parte dos votos são emitidos pelas próprias empresas multinacionais e pela Embrapa, empresa brasileira associada contratualmente à Monsanto." (1)

Quanto à suspensão da liminar judicial que proibia o desembarque da carga de 38 mil toneladas de milho da Argentina, em Recife, o Greenpeace alerta os consumidores de frangos para o fato de que ainda não há estudos conclusivos descartando danos à saúde em decorrência do consumo de carne de animais alimentados com ração transgênica. A entidade ambientalista alerta que os produtores de frangos brasileiros, que exportem para a Europa, terão dificuldades em colocar seus produtos naquele mercado, caso permitam que seus frangos sejam alimentados com milho transgênico. (2)

"O Ministério da Agricultura está criando uma tempestade em um copo d`água, acenando com a morte de milhões de frangos, caso não seja liberada a importação de milho transgênico", diz Marijane Lisboa. "Além da inversão do que seria a prioridade natural - primeiro a saúde humana, depois a dos frangos - o ministro poderia já estar negociando a importação de milho argentino não transgênico, pois mais de 80% da produção argentina é convencional, bastando, para tal, certificá-la." (3)

(1) A CTN-Bio é constituída por representantes de diversos ministérios e órgãos públicos, oito cientistas escolhidos pelo Ministro de Ciência e Tecnologia e dois representantes das empresas de biotecnologia e Itamaraty. Não há divulgação pública dos votos de seus membros.

(2) O Juiz Federal da 6a.Vara, Dr. Antônio de Souza Prudente publicou sentença sobre a Ação Civil movida pelo IDEC e a Greenpeace, através da qual a CTN-Bio ficou impedida de dar qualquer parecer técnico conclusivo sobre a liberação no meio ambiente de plantas transgênicas antes da realização de Estudo de Impacto Ambiental. Também pela mesma sentença, a CTN-Bio não poderia emitir parecer técnico conclusivo sobre alimentos transgênicos antes de elaborar normas para a avaliação da segurança dos alimentos, tarefa que teria de ser concluída nos próximos 90 dias. Mesmo ciente da sentença judicial, a Comissão emitiu "parecer técnico conclusivo" de que o milho transgênico seria indicado para ração animal. Na 3ª feira passada, o juiz substituto da 6ªa Vara Federal de Brasília, Dr. Carlos Eduardo Castro, acatou liminar considerando nulo o "parecer técnico conclusivo da CTN-Bio, por essa haver desrespeitado ordem judicial". Ontem, 5ª feira, o presidente do Tribunal Regional da 1ª Região, Tourinho Neto, indeferiu recurso da União contra a sentença do juiz Antônio Prudente. Ainda no fim do dia de ontem, o Presidente do Tribunal Regional Federal - 5a seção, José Maria Lucena, suspendeu a liminar judicial que proibia o desembarque da carga de 38 mil toneladas de milho da Argentina.

(3) Na Europa, criadores de animais para corte, supermercados e restaurantes já estão usando um sistema de certificação para carnes sem transgênicos. Alguns deles têm comprado soja no Brasil, como o Carrefour, para garantir que a soja não seja transgênica e outros têm trocado a soja por outros cereais convencionais. Além do mais, grandes companhias internacionais de comércio de grãos, com a ADM e a Cargill, exportam o milho não transgênico dos EUA para a Europa, depois de segregá-lo e certificá-lo. A rejeição dos consumidores europeus aos alimentos transgênicos foi responsável pela redução da área de plantio de milho transgênico, nos EUA, de 33% para 25%, segundo dados recentemente divulgados pelo Departamento de Agricultura americano.

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