Numa decisão controversa, o Departamento de Agricultura dos
Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) concedeu no último dia 24
de novembro aprovação comercial para uma variedade de arroz
transgênico, o LL601, desenvolvida pela Bayer CropScience. A
aprovação foi dada apenas três meses após ter sido anunciado que o
produto havia contaminado estoques e exportações americanas de
arroz. O Greenpeace condenou a decisão, por considerar que ela
serve apenas para legalizar uma variedade ilegal e para dar
proteção jurídica à Bayer nos inúmeros processos judiciais que a
empresa enfrenta por causa da contaminação ocasionada por seu
produto.
"A tática usada pela Bayer para fugir dos processos judiciais é
muito similar à que foi usada pela Monsanto aqui no Brasil para
aprovar a sua soja transgênica", disse Gabriela Vuolo, da campanha
de engenharia genética do Greenpeace Brasil. "Depois de ter um fato
consumado de contaminação, a empresa recorreu ao governo, que
priorizou os interesses da multinacional, e ignorou completamente
os agricultores que vem sofrendo perdas enormes por causa da
contaminação".
Pelo menos cinco processos multimilionários foram iniciados por
cerca de 300 fazendeiros americanos contra a Bayer. Eles tentam
proteger suas plantações de arroz da contaminação provocada pelo
produto transgênico. Além disso, a maior empresa do mundo em
processamento de arroz, a Ebro Puleva - que controla 30% do mercado
americano de arroz - parou de importar arroz dos EUA e pode também
entrar com uma ação legal contra a Bayer pelo mesmo motivo.
A Bayer encerrou há cinco anos as atividades dos campos
experimentais de arroz LL601 nos EUA, e até o momento não se sabe
como esses campos provocaram uma contaminação de escala global nos
estoques de arroz. Até agora, essa variedade ilegal e sem aprovação
foi encontrada em pelo menos 24 países. Na semana passada, foi
divulgada a contaminação de diversos países da África. A União
Européia, Japão e Rússia, entre outros, já impuseram restrições às
importações de arroz dos Estados Unidos, e os dados sobre as
exportações americanas revelam que as vendas do país estão em um
preocupante declínio.
Grandes exportadores de arroz dizem
'não' aos transgênicos
Também na semana passada, produtores de arroz da Tailândia e
Vietnã, os maiores exportadores do mundo, anunciaram estarem
comprometidos em não cultivar variedades transgênicas em suas
plantações. Os dois países são responsáveis por mais da metade de
todo o arroz comercializado no mercado mundial atualmente e a
decisão desses países colocará muita pressão em outras nações
produtoras de arroz para que elas também se comprometam a manter um
estoque livre de transgênicos.
"Esse anúncio dos maiores exportadores de arroz aconteceu depois
de várias reações contra a indústria de transgênicos, e serve de
resposta aos recentes escândalos de contaminação causada por arroz
transgênico ilegal", afirmou Jeremy Tager do Greenpeace
Internacional.
O Brasil é o 9º produtor mundial de arroz, colhendo cerca de 12
milhões de toneladas por ano. No entanto, essa produção corresponde
a apenas 87% da demanda nacional, obrigando o país a importar mais
de 800 mil toneladas por ano. Além disso, a Bayer já solicitou
autorização para a comercialização de uma variedade de arroz
Liberty Link no Brasil, mas ainda está aguardando o parecer da
CTNBio.
Confira aqui o relatório do Greenpeace sobre arroz que
aponta alternativas à engenharia genética