Greenpeace critica decisão da justiça que autoriza exportação de mogno ilegal

Notícia - 17 - jan - 2002

Três madeireiras do sul do Pará ganharam na Justiça Federal o direito de continuar a exportar o mogno, madeira considerada nobre. A decisão desconsiderou as recentes apreensões de grandes volumes da madeira pela Polícia Federal e pelo Ibama durante operação realizada entre outubro e dezembro do ano passado, na região conhecida como Terra do Meio (PA) (1). Também ignorou o relatório técnico do Ibama, que comprova que 70% do mogno é de origem ilegal. A madeira, segundo o documento, era extraído de terras indígenas nos municípios de Redenção, Tucumã, Ourilândia do Norte e São Félix do Xingu (2).

A liminar, concedida pelo juiz substituto da 1ª Vara Federal de Belém, Francisco de Assis Garcês Castro Júnior, beneficia a Eidai do Brasil, Cotia Indústria e Comércio Ltda e Jatobá Comércio e Exportação Ltda (3).

A diretora da área técnica do Ibama em Belém, Nilma Macedo, afirmou que o órgão vai recorrer contra a decisão de Garcês. "Vamos cumprir a decisão da Justiça, mas estamos nos preparando para recorrer" , assegurou. O Ministério Público Federal também vai pedir que o juiz reconsidere a sua decisão.

A decisão também triplicou subitamente o volume das cotas estabelecidas pelo governo federal para exportação de madeira, que saltou de 1,2 mil metros cúbicos para 3,7 mil.

"Não é a primeira vez que o Ibama identifica e apreende madeira ilegal que, em seguida, é liberada por algum juiz, favorecendo os interesses econômicos dos madeireiros e prejudicando a preservação do meio ambiente", diz Nilo D´Avila, da campanha da Amazônia do Greenpeace.

O estoque de madeira a ser comercializado, segundo o juiz, é o que estava acumulado no pátio das empresas antes da vigência da Instrução Normativa 17, baixada pelo presidente do Ibama, Hamilton Nobre Casara. Esta portaria, que entrou em vigor em 19 de outubro do ano passado, suspende o transporte, o beneficiamento e a comercialização de mogno por tempo indeterminado. A autoridade judicial entendeu que a norma não poderia alcançar situações consolidadas antes de sua vigência como, por exemplo, contratos de comercialização fechados antes do início da vigência do ato normativo.

Ao fundamentar a concessão da liminar, o juiz Francisco Garcês argumentou que o Ibama, na condição de entidade autárquica criada para executar a política nacional de controle do meio ambiente, detém, como qualquer entidade pública, poder de polícia para exercer suas atribuições, mas isso não pode contrariar limites impostos pela Constituição Federal. No entanto, para o Greenpeace, o arumento do juiz Garcês é contraditório. "De acordo com a Lei máxima do país, a retirada de madeira em áreas indígenas é estritamente proibida. Sabe-se que a madeira em questão é comprovadamente oriunda de territórios indígenas e, portanto, de origem ilegal e destrutiva", diz D´Avila.

Uma comprovação da origem ilegal desse mogno é o protesto realizado por 30 índios kayapós, ontem pela manhã (17/01), em Redenção (PA), contra a falta de pagamento pela autorização para a extração de mogno em suas terras. O alvo da manifestação foi o madeireiro Osmar Ferreira, um dos "reis do mogno" na Amazônia, identificado pelo relatório do Greenpeace "Parceiros no Crime" (4). O outro madeireiro que domina o setor é Moisés Carvalho, proprietário da Madeireira Jatobá, uma das beneficiadas pela liminar do juiz substituto. Os índios alegam que desde meados do ano passado não recebem qualquer pagamento para permitir a retirada de madeira de sua reserva.

A maior parte do mogno comercialmente viável que resta na Amazônia está concentrado na Terra do Meio e nas reservas indígenas que a cercam. O mogno está cada vez mais raro e, apesar de um índio receber apenas R$ 50 para permitir a derrubada de uma árvore da espécie, a cotação do metro cúbico no mercado internacional supera US$ 1,6 mil. O alto valor faz do mogno a porta de entrada para a destruição da Amazônia.

"A exploração ilegal de mogno em áreas indígenas é uma atividade que só beneficia as grandes empresas madeireiras", afirma D´Ávila. "A retirada de madeira de terras indígenas é estritamente proibida por lei. Nem que os madeireiros pagassem bilhões de dólares aos índios, esta madeira poderia ser retirada, pois representa prejuízo para o meio ambiente e contraria a Constituição Federal".

(1) Entre setembro e outubro, o Greenpeace denunciou ilegalidades envolvendo a indústria do mogno e exploração ilegal de madeira em terras indígenas na Amazônia. O relatório "Parceiros no Crime", que foi entregue para o Ministério Público e autoridades ambientais brasileiras, revela a existência de uma máfia do mogno e suas ligações com o comércio internacional de madeira. Baseado em informações fornecidas pelo Greenpeace, o governo brasileiro realizou uma fiscalização em áreas de exploração ilegal, planos de manejo e serrarias na região conhecida como Terra do Meio (PA). Em uma operação conjunta com a organização ambientalista, o Ibama apreendeu o maior volume de mogno ilegal da história do Brasil: mais de 7 mil metros cúbicos de mogno ilegal.

(2) A exploração de madeira em territórios indígenas, de acordo com a legislação brasileira, é estritamente proibida e ilegal.

(3) As madeireiras Marajoara, Selecta, Peracchi e Mirante também ingressaram na Justiça e, apesar de não serem citadas na liminar do juiz substituto, acabaram por obter o direito de exportar o mogno acumulado em seus pátios. De acordo com o Ibama-PA, a Marajoara e a Mirante já embarcaram, cada uma, 1,2 mil metros cúbicos de madeira para o exterior. Pela decisão do juiz Garcês, cada empresa tem o direito de exportar até 3,7 mil metros cúbicos de madeira. No total, são mais de 20 mil metros cúbicos da madeira, avaliados em cerca de R$ 50 milhões, que podem ser exportados.

(4) Veja íntegra do relatório "Parceiros no Crime"

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