Greenpeace demarca rota de material radioativo em Salvador

Notícia - 22 - out - 2008
Cerca de 5 km do trajeto percorrido todos os anos por caminhões carregados de concentrado de urânio foram pintados com símbolos nucleares

Greenpeace demarca rota de material radioativo em Salvador

Para expor os perigosdo ciclo do combustível nuclear no Brasil, 20 ativistas do Greenpeacedemarcaram, nesta madrugada (23/10), trecho da rota do transporte de yellow cake (concentrado de urânio) queatravessa Salvador, na Bahia. A demarcação foi feita ao longo de cerca de cincoquilômetros da Avenida Bonoco, principal via de acesso à capital baiana. Sinaisamarelos simbolizando radiação, com 2 metros de diâmetro, foram pintados emseqüência no asfalto até a entrada do Porto de Salvador. Placas foram afixadasno acostamento, alertando motoristas e passageiros sobre o transporte dematerial radioativo pelo local.

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O yellow cake que passa por Salvadoré resultado do processamento do urânio retirado da mina de Caetité (BA) pelaINB (Indústrias Nucleares Brasileiras). Uma vez beneficiado, o urânio segue emcomboios de caminhões até Salvador, percorrendo mais de 700 quilômetros deestradas federais e estaduais e atravessando 40 municípios e povoados.

"Estamos chamando a atenção da sociedade brasileira para os perigos do extensoe complexo ciclo da energia nuclear no Brasil. Quem mora aqui em Salvador devesaber que vive na rota de transporte de material radioativo", disse RebecaLerer, coordenadora da campanha de Energia do Greenpeace, que participou doprotesto.

Historicamente, têm ocorrido um ou dois transportes de yellow cake na Bahia porano. No último carregamento conhecido, realizado em maio de 2008, houve faltade coordenação entre o transporte terrestre e a chegada do navio que levaria as175 toneladas de material nuclear até o Canadá. A carga ficou estocada ao arlivre e em condições precárias por três dias em armazém próximo ao Porto deSalvador. De

acordo com informações obtidas pelo Greenpeace junto a fontes de Caetité, umnovo transporte estaria programado até o final desse ano.

Em oito anos de operação da INB em Caetité, já ocorreram vários episódios demultas e infrações envolvendo o transporte de yellow cake. Em 2004, a empresa foi multadaem R$ 1 milhão pelo Ibama da Bahia por fazer uma "operação casada" notransporte de urânio pela Baía de Todos os Santos, em Salvador. O naviotransportava urânio enriquecido para Resende (RJ) e parou na capital baianapara pegar 250 toneladas de yellow cake deCaetité. De acordo com o Ministério de Ciência e Tecnologia, a INB só precisa delicença do Ibama e da CNEN para o transporte de yellow cake quando o volumetotal da carga for de 375 toneladas (ou 25 carretas) por comboio.

Do porto, o yellow cake segue de navio para o Canadá, onde é convertido paragás. De lá, viaja para a Holanda, aonde é enriquecido. Retorna ao Brasil peloPorto do Rio de Janeiro e na Fábrica de Combustível Nuclear da INB em Resende(RJ), é transformado em pastilhas usadas como combustível nos reatores de Angrados Reis (RJ).

Além de Angra 3, o governo federal  prevê a construção de mais 4 a 8 usinas nucleares no país,sendo duas no Nordeste. Segundo informações veiculadas pela imprensa emsetembro de 2008, o Estado da Bahia teria se candidatado para hospedar asprimeiras plantas nucleares da região nordeste.

A atividade do Greenpeace reforça a divulgação do relatório "Ciclo do Perigo -Impactos da produção de combustível nuclear no Brasil", que na semana passadadenunciou a contaminação da água por urânio na área de influência direta da INB em Caetité. Odocumento foi encaminhado ao Ministério Público Federal e órgãos públicosexigindo uma investigação urgente, ampla e independente para determinar a fonteexata e a extensão da contaminação.

O Ministério Público Federal marcou para o dia 6 de novembro uma audiênciapública em Caetité para ouvir a população local. Uma equipe com técnicos doInstituto de Meio Ambiente (IMA), Instituto de Gestão das Águas e da Secretariade Saúde do governo da Bahia já está no município coletando amostras eanalisando a situação de saúde das pessoas que vivem no entorno da INB. O MPFbaiano anunciou também que vai reabrir um inquérito de 2000 para enfim conduziruma investigação independente sobre os impactos da mineração de urânio deCaetité.

"Quanto mais usinas nucleares, maior a demanda por combustível nuclear emaiores os impactos da mineração do urânio e a freqüência de transportes demateriais radioativos no país", diz Rebeca Lerer. "Por mais que o governo Lulase esforce para vender a tecnologia atômica como uma solução, a verdade é que ociclo da energia nuclear traz problemas como a contaminação da água em Caetitée a geração de lixo radioativo pelas usinas, envolvendo graves riscos deacidentes e altos custos financeiros. A energia nuclear é um erro do início aofim", conclui.

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