O Greenpeace denunciou hoje a utilização de soja transgênica na
fabricação das duas marcas líderes de óleo de cozinha no Brasil.
Cerca de 20 ativistas representando o consumidor brasileiro e
empurrando 20 carrinhos de supermercado cheios de latas de óleos
Soya, fabricado pela Bunge, e Liza, fabricado pela Cargill,
desceram a rampa do Congresso e se posicionaram próximos à entrada
da Câmara dos Deputados enquanto a denúncia era entregue aos
parlamentares.
O Greenpeace entregou um dossiê de denúncia e uma
carta(clique aqui e veja a íntegra) ao
Ministério da Justiça e aos deputados Fernando Gabeira (PV-RJ) e
João Alfredo (PSOL-CE), da Comissão de Meio Ambiente da Câmara,
reivindicando o cumprimento da lei que determina a rotulagem dos
produtos fabricados com matéria-prima transgênica. O material do
dossiê traz amostras de soja, documentos e um vídeo (assista aqui) com declarações de
caminhoneiros e imagens da realização de testes. As evidências
entregues ao governo comprovam que a soja transgênica está sendo
usada pela Bunge e pela Cargill na fabricação de diversos produtos,
como os óleos Soya, Liza, Primor e Olívia, e que não há qualquer
rotulagem dos produtos oferecidos ao consumidor.
"Essa denúncia do Greenpeace é muito séria e procedente, uma vez
que o Brasil está respondendo de forma inadequada à Lei de
Rotulagem. Todo o mundo diz que é a favor, mas ninguém se mexe para
fazer a fiscalização", afirmou o deputado Fernando Gabeira, ao
receber o dossiê das mãos de Gabriela Couto, da campanha de
engenharia genética do Greenpeace. "As duas multinacionais usam
matéria-prima transgênica, mas os brasileiros não ficam sabendo
porque nem a empresa nem o governo estão cumprindo as leis que
garantem a informação ao consumidor", disse Gabriela.
O dossiê também foi encaminhado à Comissão de Meio Ambiente,
Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle do Senado e aos
ministérios de Meio Ambiente, da Saúde e da Agricultura. O
Ministério Público Federal e as Comissões de Meio Ambiente, Defesa
do Consumidor e Agricultura da Câmara dos Deputados e a Associação
Nacional de PROCONs receberam cópias do dossiê com as
denúncias.
"O Greenpeace demanda que os órgãos governamentais cumpram suas
obrigações e a lei. É fundamental que o consumidor seja informado
sobre o que está comprando para poder exercer o seu direito de
escolha. Isso está garantido pelo Código de Defesa do Consumidor e
precisa ser respeitado", declarou Gabriela. "Quanto aos óleos Soya
e Liza, que são transgênicos mas estão sendo vendidos sem o devido
rótulo, o Greenpeace exige que sejam retirados das prateleiras dos
supermercados, já que estão em situação ilegal".
TESTES
Em julho de 2005, o Greenpeace coletou amostras de soja de
diversos caminhões e realizou testes de fita Trait/SDI, que
detectam transgênicos. O resultado foi positivo em todas as
fábricas investigadas, com exceção da unidade da Bunge em Campo
Grande/MS, que fabrica produtos para exportação e é certificada
pela empresa SGS. As demais amostras, que apontaram a presença de
transgênicos, foram coletadas nas fábricas de processamento de soja
da Bunge m Ourinhos/SP e Dourados/MS, e na fábrica da Cargil em
Três Lagoas/MS.
"A Bunge tem lugar que aceita e tem lugar que não
aceita transgênicos. Em Campo Grande, não aceita transgênicos. Tem
que ir pra Dourados", confirmou E.S.J., caminhoneiro que estava
descarregando soja transgênica na unidade da Bunge em
Ourinhos/SP.
De acordo com o Decreto de Rotulagem 4.680/03, em vigor desde
abril de 2004, todos os produtos fabricados com mais de 1% de
transgênicos devem trazer essa informação no rótulo. No entanto, as
empresas fabricantes de óleo alegam que o processo de fabricação
"purifica" a soja transgênica, e se recusam, assim, a rotular seus
produtos.
"O óleo fabricado com soja transgênica tem componentes químicos
diferentes do óleo feito com a soja convencional. Ele pode não
conter o DNA no produto final, mas mesmo assim tem alterações
químicas que o tornam diferente do óleo da soja não transgênica",
disse o Prof. Nagib Nassar, geneticista da Universidade de Brasília
(UnB).
"A Bunge e a Cargill têm que cumprir a lei. As empresas podem
até optar por continuar usando matéria-prima transgênica e rotular
seus produtos, mas correm o risco de perder mercado, uma vez que
mais de 74% dos brasileiros não querem comer transgênicos", afirmou
Gabriela, com base na Pesquisa ISER/ julho 2004. "O mais coerente é
que elas deixem de usar a soja transgênica para fabricar os óleos
de cozinha que os brasileiros usam todos os dias, e passem a
oferecer o mesmo padrão que têm para o mercado externo".
Atualmente, a Bunge é responsável por 25% de toda a soja
esmagada no Brasil e possui duas linhas de produtos: uma não
transgênica, voltada para clientes do mercado externo, que exigem
controle efetivo para evitar a contaminação. A outra linha, sem
qualquer garantia e controle, é vendida no mercado interno. "Se as
empresas podem oferecer produtos sem transgênicos para o mercado
externo, também podem fazer isso para os consumidores brasileiros",
concluiu Gabriela.