Novas pesquisas lançadas hoje mostram que a poeira
coletada em casas ao redor da Europa contém quantidades
significativas de substâncias químicas perigosas, algumas ligadas,
inclusive, ao câncer. O relatório Consumindo Substâncias Químicas
("Consuming Chemicals") (1), do Greenpeace, revela que algumas
casas são contaminadas por substâncias químicas que ficam
escondidas em utensílios domésticos utilizados diariamente pelos
consumidores, como tecidos, televisões, cosméticos e
brinquedos.
Em uma conferência de imprensa realizada em Bruxelas, na
Bélgica, a Associação Européia de Saúde Pública (EPHA), e a
Organização de Consumidores Europeus (BEUC) uniram-se ao Greenpeace
para pedir novas leis a fim de proteger os cidadãos dos perigos
dessas substâncias químicas escondidas. Com uma revisão da política
européia para substâncias químicas prestes a acontecer (2), as
organizações pediram que a Comissão Européia não deixe escapar a
oportunidade de propor medidas severas para substituir essas
substâncias perigosas por alternativas mais seguras.
"Esse relatório revela o fato de que a contaminação química
generalizada está dentro de nossas próprias casas, escritórios e em
nossas rotinas diárias. As pessoas suspeitam da poluição dos carros
e fábricas, mas não imaginavam que seus objetos domésticos e
costumeiros sejam tóxicos", disse John Butcher, coordenador da
campanha contra substâncias tóxicas no Brasil. "Apenas quando as
empresas forem obrigadas legalmente a substituir as substâncias
tóxicas por alternativas mais seguras é que nós poderemos livrar
nosso meio ambiente, nossas casas e nossas vidas dessas substâncias
químicas que nos ameaçam".
As amostras de poeira foram coletadas pelo Greenpeace em casas
no Reino Unido, França, Espanha, Dinamarca, Suécia e Finlândia, e
foram analisadas por laboratórios independentes (3). As análises
revelaram quantidades significativas de:
- alcalinofenóis, hormônios disruptores usados em cosméticos e
outros produtos de higiene pessoal;
- ésterftalatos, que são prejudiciais ao sistema reprodutivo e
são usados principalmente para tornar o PVC maleável, encontrado em
brinquedos, interiores de carros e cabos. Também é usado em
perfumes e cosméticas, tintas, adesivos e vedadores;
- substâncias químicas bromadas, que interferem nos hormônios,
usados como substâncias que retardam a propagação do fogo;
- parafinas cloradas, que podem causar câncer, usadas em tintas,
plásticos e borrachas;
- compostos orgânicos a base de cobre, usados como
estabilizadores em plásticos (especialmente em PVC) e como
tratamento contra mofo e poeira (ácaros) em alguns carpetes e pisos
de PVC. Essas substâncias são tóxicas para o sistema
imunológico.
Os fabricantes alegam que as substâncias químicas estão
incorporadas nos produtos e não representam risco. No entanto, o
relatório do Greenpeace revela que isso não é verdade: as
substâncias perigosas podem contaminar nossas casas, onde podemos
inspirar a poeira e as substâncias químicas que ela contiver. Nós
também corremos o risco de ingerir as substâncias tóxicas ao
ingerir comida contaminada ou, no caso das crianças, ao levar os
brinquedos à boca. Outras substâncias podem ser absorvidas
diretamente pela pele.
"Nós estamos cercados por substâncias químicas, as quais nós nem
sequer sabemos que existem, mas cujos impactos em nossa saúde podem
ser extremamente sérios, especialmente em longos períodos de
tempo", disse Tamsin Rose, Secretária Geral do EPHA. "O perigo para
nossas crianças é ainda maior, porque organismos em desenvolvimento
são mais vulneráveis a agentes contaminantes. A Comissão Européia
precisa aproveitar essa oportunidade de ouro para garantir que
substâncias químicas perigosas sejam eliminadas do mercado
europeu".
A atual revisão da política européia para substâncias químicas
foi iniciada pela Comissão em fevereiro de 2001, em resposta à
crescente preocupação sobre a eficácia da legislação existente.
"A atual política européia para substâncias químicas permite a
presença de substâncias tóxicas em alguns produtos e não em outros,
mas precisamos criar uma política mais consistente", acrescentou
Stefan Craenen, assistente político da BEUC. "Os consumidores não
tem que ficar se preocupando com a segurança de um `coquetel` de
substâncias químicas em produtos que vão desde rímeis a brinquedos.
Substâncias químicas perigosas não devem estar em produto nenhum -
e o princípio da substituição deve, portanto, fazer parte na nova
legislação sobre substâncias químicas".
(1) O relatório "Consuming chemicals: Hazardous chemicals in
house dust as an indicator of chemical exposure in the home" está
disponível para download em: www.greenpeace.org.uk/toxics.htm
(2) A União Européia propôs novas leis que farão com que as
substâncias químicas mais perigosas - que são as substâncias
estudadas no relatório do Greenpeace - sejam identificadas. Uma
"autorização" será necessária para que essas substâncias continuem
sendo produzidas. O Greenpeace apoia essa iniciativa, mas entende
que é preciso ir além. Uma segunda medida necessária é a deixar
claro que, quando existir uma alternativa viável e mais segura, a
"autorização" não será dada. Se uma alternativa viável e mais
segura não existir e a substância química em questão tiver uma
função importante na sociedade, a produção pode continuar apenas
por um período limitado de tempo, enquanto uma alternativa viável é
desenvolvida. Esse é o princípio da substituição que o Greenpeace
pede e espera que a Comissão Européia incorpore na legislação
européia.
(3) A poeira foi coletada de 100 residências voluntárias no
Reino Unido e comparada com um pequeno número de amostras de outros
países (03 na Finlândia, 03 na Dinamarca, 02 na Suécia, 01 na
França e 01 na Espanha). As amostras foram analisadas em
laboratórios no Reino Unido, na Holanda e na Alemanha para cada um
dos cinco grupos de substâncias químicas tóxicas listadas acima. Em
média, cada 01g de poeira continha 0,5mg (01 parte em 2000) dos
cinco grupos de substâncias tóxicas especificamente quantificados.
A identificação de uma diversidade de outras substâncias químicas
produzidas pelo homem na análise qualitativa indica que a
contaminação total de objetos domésticos por substâncias químicas
pode ser substancialmente maior.