Greenpeace protesta no Rio de Janeiro contra poluição tóxica causada pela Shell em Paulínia

Notícia - 21 - mai - 2001

O Greenpeace protestou hoje em frente à sede da Shell Química, no Rio de Janeiro, contra a poluição tóxica causada pela empresa nas águas subterrâneas e no solo das chácaras vizinhas a uma fábrica da empresa instalada em Paulínia, interior de São Paulo, que pode estar comprometendo o rio Atibaia.

Ativistas da organização e 40 moradores do bairro atingido, trouxeram alimentos, 35 garrafões de água e dois barris de terra retirados da área contaminada para entregar à presidência da Shell. Os ativistas montaram uma mesa de debates em frente ao edifício da empresa para discutir com a direção desta a limpeza da área afetada pelos agrotóxicos.

A Shell produziu os agrotóxicos organoclorados endrin, aldrin e dieldrin em Paulínia de 1975 a 1985, quando estes foram proibidos pelo Ministério da Saúde. Nestes dez anos foram registrados oficialmente três vazamentos das substâncias. Como parte do processo de venda da fábrica à Cyanamid, em 1995, a Shell divulgou a contaminação do solo da fábrica através de uma auto-denúncia ao Ministério Público. Até hoje nenhuma medida eficiente de descontaminação da área foi adotada.

"Não queremos mais ficar em um lugar onde não podemos comer as frutas, beber a água e morar com tranqüilidade. Eu quero ver a Shell ser responsabilizada por envenenar minha terra e causar sofrimento a esta comunidade. Quero ser indenizado. Quero justiça", disse Paulo Bonaldi, representante da comunidade de Paulínia.

"A conduta irresponsável da empresa marcou a condução deste caso e, agora, ao invés de descontaminar a área, a Shell propôs à Cetesb a incineração do solo, transferindo o problema de lugar e gerando dioxinas, o mais tóxicos dos produtos químicos" diz Karen Suassuna, da Campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A empresa tem a obrigação de não mais gerar poluição tóxica e de limpar completamente as áreas afetadas, utilizando, para isso, tecnologias que não gerem mais contaminação" completa Suassuna.

Os manifestantes ofereceram a água das chácaras contaminadas ao vice-presidente da Shell no Brasil, Sr. Gilbert Landsberg, que se recusou a beber, tendo somente molhado os lábios. Numa clara mostra de desprezo pelos contaminados, Landsberg afirmou que a Shell não vai atender à demanda dos moradores de retirá-los da área. Em relação à exigência feita pelo Greenpeace de não incinerar os resíduos e o solo contaminado, Landsberg deu uma resposta evasiva, dizendo que a Shell fará o que a Cetesb mandar.

No dia 08 de fevereiro passado, a Shell admitiu publicamente que a contaminação havia ultrapassado os limites da fábrica, atingindo o lençol freático das chácaras vizinhas ao Rio Atibaia, um dos mais principais afluentes do Rio Piracicaba, que abastece cidades da região, como Sumaré e Americana. Desde o início de fevereiro, a empresa tem fornecido água potável para a comunidade e comprado as hortaliças produzidas pelos chacareiros, que foram vendidas na região por muitos anos. A contaminação em alguns pontos, segundo dados da própria Shell, atingem valores 16 vezes maiores do que o permitido por lei na água (1).

Cerca de 200 moradores da comunidade estão sendo submetidos a exames clínicos e de sangue, realizados pelo CEATOX (Centro de Toxicologia) da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP), em Botucatu. Segundo o médico Igor Vaselieff, da UNESP, cerca de 70% das pessoas que já passaram pelas consultas apresentam sintomas clínicos da presença destes contaminantes em seus organismos (2).

Os drins, juntamente com as dioxinas, fazem parte da lista de 12 POPs (3) que estão sendo banidos pela Convenção de POPs da Organização das Nações Unidas (ONU). Mais de 130 países participam da assinatura do acordo internacional, hoje e amanhã, em Estocolmo, Suécia. O tratado visa a eliminação completa da lista inicial de poluentes orgânicos persistentes em uma geração (25 anos). O dossiê da Shell estará sendo apresentado à delegação holandesa em Estocolmo, exigindo que este governo questione a atuação da empresa no Brasil.

O Brasil vai assinar a Convenção, mas com ressalvas. O país quer um prazo de 5 anos para a eliminação de heptacloro, poluente persistente utilizado até hoje por uma única empresa brasileira para o tratamento de madeira. "A assinatura da Convenção é um passo fundamental para que estes produtos não sejam mais produzidos e eliminados do planeta. A ressalva brasileira é inaceitável. O governo está colocando os interesses de uma única empresa acima da saúde da população e da qualidade do meio ambiente" diz Suassuna.

(1) A Portaria N.º 36/1990 estabelece padrão máximo de 0,03 ppb (partes por bilhão) de dieldrin para água potável.

(2) O aldrin, dieldrin e endrin, também conhecidos como "Drins", são agrotóxicos banidos na maior parte do planeta. Eles causam danos ao meio ambiente e foram classificados como Poluentes Orgânicos Persistentes (POPs) pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). A exposição aos Drins foi relacionada a uma ampla gama de efeitos no meio ambiente e na saúde, incluindo disfunções de aprendizado e interrupção dos sistemas nervoso central e hormonal. Uma preocupação particular diz respeito aos efeitos em crianças e no desenvolvimento de fetos.

(3) Os "12 Sujos", como são conhecidos os Poluentes Orgânicos Persistentes a serem eliminados pela Convenção POPs, são: dioxinas, furanos, PCBs, hexaclorobenzeno, mirex, heptacloro, DDT, dieldrin, clordano, toxafeno, aldrin e endrin. Veja o briefing sobre a Convenção de Estocolmo.

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