Greenpeace repudia reportagem da IstoÉ sobre Amazônia

Notícia - 30 - nov - 2003
Entidade lamenta a reportagem publicada na edição no. 1783 da revista, de 03/12, sobre a Expedição do Greenpeace à Amazônia. Uma versão resumida desta carta foi encaminhada ao editor da publicação.

Para: Revista IstoÉ

At. Sr. Editor-Chefe

Senhor Editor,

Durante quase uma semana, a jornalista Darlene Menconi, da IstoÉ, esteve hospedada em nosso navio "Arctic Sunrise", que está em missão de dois meses no Pará, cedido pelo Greenpeace Internacional para a Campanha Amazônia, coordenada pelo escritório do Greenpeace em Manaus. Ela era uma das poucas jornalistas brasileiras à bordo e dividia a oportunidade e a responsabilidade de cobrir a história com um seleto grupo de jornalistas internacionais. Quando soubemos que a senhora Darlene viria, ficamos muito felizes: a presença de um veículo sério como a IstoÉ iria contribuir para mostrar aos leitores de várias partes do Brasil a realidade de uma região que a maioria do brasileiros desconhece e que parece pavimentar seu rumo para o futuro à margem da lei.

A senhora Darlene tinha uma grande pauta nas mãos. O Pará é o campeão brasileiro de assassinatos no campo, respondendo por 40% dos 1.237 trabalhadores rurais assassinados no Brasil entre 1985 e 2001, segundo a Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica. O Pará também é o campeão brasileiro de trabalho escravo, com 54.4% dos casos reportados entre 1995 e 2001 pelo Grupo Móvel do Trabalho Escravo, do governo federal. O Pará também responde, sozinho, por mais de um quinto do total das terras públicas griladas no Brasil, segundo a CPI da Grilagem. De acordo com um relatório publicado pelo Imazon em 2002, cerca de 95% da extração madeireira na Amazônia, liderada pelo Pará, ocorrem de forma predatória. A grande maioria, além de predatória, também é ilegal. E para completar o quadro lamentável e absurdo, o Pará também é o estado campeão do desmatamento ilegal, tendo posto abaixo e queimado 523.700 hectares em 2001, dos quais apenas 5.342 (1%!) ha estavam autorizados pelo Ibama. Por trás de todos estes crimes estão a disputa pela terra e pelos recursos naturais do Pará, uma injustiça social histórica e uma também histórica ausência de governo nos rincões do Brasil.

As vítimas imediatas desse processo criminoso de expoliação e dessa lógica de lei da selva são os milhões de brasileiros que vivem na Amazônia e que vêm seus recursos florestais, sua história, sua cultura e sua dignidade serem destroçadas por uma elite inescrupulosa que não apenas detém os meios econômicos mas também o poder político. Basta lembrar que as três cidades mencionadas na reportagem da IstoÉ "Levante na Selva", escrita pela senhora Darlene (Medicilândia, Altamira e Porto de Moz) têm prefeitos madeireiros. Prefeitos que deveriam cumprir a lei mas que em vez disso se associam a madeireiros e fazendeiros que acuam funcionários do Ibama e mantêm como reféns soldados do Exército e agentes da Polícia Federal, fecham cidades e cortam linhas telefônicas para forçar o governo federal a "negociar", a lhes

dar mais terra, a legalizar áreas griladas, a forçar o Ibama interromper sua missão. E que pretendem expulsar o Greenpeace da região - exatamente porque estamos denunciando seus crimes e apoiando suas vítimas.

A IstoÉ, pensávamos, iria tirar do anonimado a luta das comunidades de Porto de Moz pela criação da reserva extrativista "Verde para Sempre", em fase final de análise pelo governo federal. Os ribeirinhos de Porto de Moz estão convencidos de que a reserva é a única forma que eles têm de assegurar a posse de suas terras tradicionais e de suas florestas, invadidas nos últimos anos por mais de 50 empresas madeireiras, capitaneadas pelo próprio prefeito da cidade. A invasão das terras das comunidades, segundo relatório da ONU e depoimentos dos ribeirinhos, é feita muitas vezes com o uso de violência. Armas pesadas em mãos de madeireiros e capatazes já foram apreendidas, vários líderes comunitários estão ameaçados de morte. Praticamente toda a madeira roubada dessa região é destinada à exportação. Todas as áreas de

extração pelos madeireiros são terras griladas, todos os projetos até agora fiscalizados pelo Ibama - que faz um competente trabalho na região - mostram ilegalidades enormes e, segundo a própria IstoÉ, serão suspensos.

A senhora Darlene, pensávamos, poderia transmitir a seus leitores, através da luta das comunidades de uma região remota do Pará por suas terras e florestas, a realidade e o drama da Amazônia. Poderia, como dizia o escritor russo Dostoiewski, falar de uma aldeia para atingir a universalidade. De quebra, poderia mostrar como age o Greenpeace - uma entidade ambientalista que está onde os problemas acontecem, que é realmente ativista e que é financiada por três milhões de pessoas em todo o mundo para fazer exatamente isso: enfrentar de peito aberto os inimigos do meio ambiente e da paz, apoiar comunidades locais, sensibilizar a opinião pública e levar governos, empresas e consumidores a agir.

Lamentavelmente, a senhora Darlene sequer menciona a reserva Verde para Sempre - o coração da reportagem, o centro da pauta que veio cobrir e que trouxe o Greenpeace a Porto de Moz. Sequer dá voz aos verdadeiros personagens da história: os líderes comunitários que, ao lutar por Porto de Moz, lutam pela Amazônia e que nos convidaram a dar apoio à sua luta. Tampouco narra as várias reuniões de que participamos e que envolveram centenas de ribeirinhos de praticamente todas as comunidades que vivem ao longo dos três principais rios que cortam a reserva Verde para Sempre. Ela sequer viu o sorriso das crianças e as palavras de esperança e agradecimento de mulheres que se sentem pela primeira vez apoiadas em sua luta; e não assistiu a missa do padre Grimário sob a copa de uma mangueira e a vigilância armada de soldados da PM. A senhora Darlene preferiu dar voz aos madeireiros e apurar pelo telefone fatos que não presenciou, como a invasão de nosso navio, que não foi feita por "proprietários e trabalhadores rurais", como cita, mas por madeireiros e funcionários municipais arregimentados pela prefeitura de Porto de Moz, com combustível e bebida pagos por madeireiros. Mas não ouviu o procurador Federal Felício Pontes, que veio a Porto de Moz para dizer a pequenos madeireiros e autoridades locais que a criação da reserva é vital para eliminar a grilagem e impedir que a disputa pela terra e pelas florestas da região termine em tragédia.

A senhora Darlene parece não ter visto as toras escondidas no mato, o duro trabalho do Ibama vistoriando cada 'plano de manejo'. Também não parece ter visto nosso permanente esforço de mapeamento da exploração ilegal, de esclarecimento sobre os prós e contras da reserva ou até mesmo as centenas de pessoas que nossa médica de bordo está atendendo desde que o navio do Greenpeace chegou aqui - gente que finalmente pôde ter acesso a tratamento e a remédios, a grande maioria com problemas típicos de abandono e pobreza tais com verminoses e infecções, além de casos de malária e outras doenças.

A senhora Darlene não viu nada disso. E não parece ter vindo aqui para ver, mas para bisbilhotar armários em busca de camisinhas e geladeiras em busca de cerveja. Ela fala em seu artigo de noites românticas regadas a álcool. Não sei que noites testemunhou. Não sei tampouco qual é o salário da senhora Darlene na IstoÉ - provavelmente maior do que os R$ 3.500 que menciona como sendo salário de nosso piloto - que segundo ela "é maior do que a média do mercado" (sugiro que ela consulte o mercado de pilotos de avião e helicóptero aqui na Amazônia. Vai ter uma surpresa.). Mas sei que a senhora Darlene não reclamou da hospedagem gratuita em nosso navio, nem dos vôos que em nosso avião e nosso helicóptero, ou das viagens de barco que permitiriam que ela desempenhasse a função pela qual é paga pela IstoÉ. A senhora Darlene diz que somos "xiitas" porque reciclamos o lixo. Ela esperava o quê? Que não praticássemos o que defendemos?

É jornalisticamente lamentável que a senhora Darlene tenha perdido a oportunidade de informar os leitores da IstoÉ sobre o drama paraense exemplificado em Porto de Moz, com todas as tintas e a riqueza de assuntos que um seu colega de profissão, italiano, que com ela dividiu espaços em nosso navio, acaba de descrever em longa reportagem no jornal La Republica.

Ela preferiu um outro tipo de jornalismo onde o que conta são as latas de cerveja na geladeira. Mas se esse fato era tão relevante no texto, a senhora Darlene até nisso apurou mal a coisa: não mencionou que cervejas e refrigerantes são religiosamente pagos por cada um dos tripulantes e passageiros, pois o Greenpeace e nossos sócios não cobrem esses gastos. Não era nem tão difícil descobrir: a lista com os nomes fica na própria geladeira.

É uma pena - para os leitores da IstoÉ, para nós do Greenpeace, para os comunitários de Porto de Moz e de outras regiões da Amazônia -, que o texto produzido pela senhora Darlene fique melhor numa revista de futricas e não em uma revista séria e de informação como a IstoÉ.

A senhora Darlene informa que a bordo do Arctic Sunrise, navio de bandeira holandesa, se fala inglês para exemplificar que somos todos "gringos" - e dá voz a madeireiros que reclamam de "intervenção internacional". É verdade: em nosso navio fala-se inglês, e também português, espanhol, alemão, italiano, holandês... já que a tripulação do Sunrise, e os vários jornalistas à bordo, vieram de diferentes países para poder mostrar a seus concidadãos que esses países consomem madeira ilegal e criminosa e também têm responsabilidade na destruição da Amazônia. A força do Greenpeace reside exatamente nisso: ser capaz de atuar em escala internacional para mostrar que os problemas ambientais não são locais, mas globais. Nessa luta, somos atacados por madeireiros brasileiros, americanos, canadenses, russos, europeus, asiáticos, e por outros poderosos inimigos da vida na Terra. Temos orgulho disso, como temos orgulho de continuar a acreditar que o planeta é nossa casa e que pessoas de diferentes nacionalidades compõem uma única espécie, a dos seres humanos, todas com um destino comum: o de garantir um futuro pacífico e um meio ambiente suficientemente equilibrado para que a vida na Terra possa continuar a ser viável e a valer a pena. Temos orgulho de poder contar, graças a doações de nossos milhões de sócios, com equipamentos como o navio Arctic Sunrise, que ajudam a mostrar aos brasileiros e ao mundo o que a senhora Darlene perdeu a chance de ver.

Paulo Adário

Coordenador da Campanha Amazônia

Greenpeace

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