Notícia - 3 - jun - 2009
Na noite de quarta-feira, o Senado votou a Medida Provisória 458, aprovando-a tal e qual
veio da Câmara.
Por detrás desse número, o Congresso brasileiro, com o apoio explícito do governo, legalizou a grilagem, privatizando de uma só vez 67 milhões de hectares de terras públicas. Na longa sessão do Senado em que foi votada a MP, se digladiaram dois Brasis. O da Senadora Katia Abreu, relatora da medida e presidente da Confederação nacional de Agricultura, e o da Senadora Marina Silva.
Katia Abreu, num discurso que precisa ser visto, lido e
deglutido, defendeu sem a menor vergonha a legalização das invasões
de terras públicas. Disse que o que acontece hoje na Amazônia foi o
que
aconteceu em São Paulo séculos atrás. Em São Paulo era tudo
terra
pública, que foi domada, ocupada, titulada. "Porque na
Amazônia não pode
ocorrer o mesmo?", perguntou.
Marina falou do
Brasil que não pode ser repetir, do
Brasil que precisa se
reinventar, que não pode escorar seu processo de
desenvolvimento
nos erros do passado. Ela apelou aos senadores que a
ajudassem a
rejeitar a MP, para que não tivesse que puxar o
movimento pelo seu
veto, constrangendo publicamente o Presidente Lula.
Em jogo,
estavam extensões de terra equivalentes a 30 vezes o tamanho de
Sergipe.
E aí?
E aí a impressão que se tem é que ninguém, a não ser uns
poucos, como Marina, ainda parecem se importar com a sorte do meio
ambiente no Brasil. Os sinais da degradação estão por toda a parte.
A aprovação da MP foi apenas mais um dos golpes que vem sendo
desfechados nos últimos anos contra os recursos naturais do país.
Às vezes eles se traduzem em ações como o desmatamento da Amazônia,
a retomada do programa nuclear e a construção da Usina de Angra III
e a decisão do governo de recriar o Ministério da Pesca, cujo único
objetivo parece ser o de aumentar a produção pesqueira, mesmo
diante das indicações que nossos mares, há muito, não estão mais
para peixes.
Outras vezes, os golpes se traduzem pela parálise do governo.
Como no caso de eventos climáticos extremos. Sua incidência tem
crescido no Brasil, como mostram as enchentes em Santa Catarina e
no Nordeste, e a seca que assolou recentemente o Rio Grande do Sul.
Brasília, no entanto, segue como se tudo isso fosse apenas
problemas que precisam ser combatidos com a defesa civil. Ao
contrário dos governos de outros países, o nosso hesita em acordar
para a crise do clima e se comprometer a acabar com o desmatamento,
ou com a criação de áreas marinhas protegidas, para reduzir as
emissões de CO2 e, ao mesmo tempo, mitigar seus efeitos.
É aflitivo ver que a sociedade parece anestesiada diante dessa
situação. A sensação é que não há quem se incomode mais com a
devastação e a degradação e o fato de que o Brasil, um país que um
dia foi lindo e rico em recursos naturais, está embicando para se
transformar num país exaurido e feio. O Greenpeace, no entanto, se
recusa a capitular. E acredita que há muita gente que não quer
fugir dessa luta. Precisamos mostrar a nossa cara e reagir,
protestando junto ao governo e aos formadores de opinião através da
internet mas, sobretudo, nas ruas.