Ao afirmar, durante a Cúpula entre Brasil e União Européia em
Estocolmo, na Suécia, que "nem que fosse careca o Brasil pode
assumir uma meta de desmatamento zero, porque sempre vai haver
alguém que vai cortar alguma coisa".
A afirmação do presidente contraria o entendimento de
importantes setores da economia nacional - como o do agronegócio,
representado pela indústria da soja e os maiores frigoríficos do
país - que já incorporaram o esforço de acabar com o desmatamento
em suas cadeias de produção.
O desmatamento zero busca assegurar a conservação da floresta
amazônica devido à sua crucial importância na manutenção do
equilíbrio climático, da conservação da biodiversidade e na
preservação do modo de vida de milhões de pessoas que dependem dela
para sobreviver. Uma política de desmatamento zero não impede que
árvores sejam cortadas, desde que de forma sustentável.
Ao contrário do que imagina o presidente, o desmatamento zero
pretende acabar com o corte raso e a degradação de grandes
extensões de mata e deve preocupar igualmente carecas e cabeludos.
Aliás, quanto menos cabelo, mais cuidado deve ser dado a ele. O
objetivo de uma política de desmatamento zero é dar corpo a uma
gestão cuidadosa da floresta que ainda existe, com o
estabelecimento de todo o remanescente como reserva florestal
nacional, com exceção das propriedades particulares e em casos que
envolvam populações tradicionais e indígenas.
A meta de obter uma redução de 80% do desmatamento até 2020, com
relação à média do corte registrado entre 1996 e 2005, prometida
pelo presidente no mês passado, é insuficiente. À luz da atual
crise climática global, permitir a derrubada de 20% de mata em
relação à média do período significa muito mais do que "ter sempre
alguém cortando alguma coisa". O presidente precisa botar seus
assessores para fazer contas. Estima-se que em cada quilômetro
quadrado da floresta amazônica, existam entre 45 mil e 55 mil
árvores com mais de dez centímetros de diâmetro*.
A lógica presidencial, que admite que o Brasil continue
derrubando cerca de 3.900 km2 de suas matas em 2020, significa que
o país perderá, apenas neste ano, entre 175 milhões e 215 milhões
de árvores. Isto está longe de ser um pauzinho qualquer. A
diferença entre a proposta do Greenpeace e de outras organizações -
Instituto Socioambiental, Instituto Centro de Vida, Instituto de
Pesquisa Ambiental da Amazônia, The Nature Conservancy, Conservação
Internacional, Amigos da Terra, Imazon e WWF-Brasil - de zerar o
desmatamento em 2015 e a de Lula, de permitir 20% de desmatamento
em 2020, equivale aceitar que nesse intervalo de cinco anos o
Brasil perderá entre 800 milhões e 1 bilhão de árvores na Amazônia.
Francamente, é um número inaceitável. Como por sinal parecia ser
inaceitável para o próprio Lula há alguns meses.
Em junho desse ano, em Alta Floresta (MT), Lula disse que "se
houve um momento em que a gente podia desmatar, agora desmatar joga
contra a gente e vai nos prejudicar no futuro. Hoje, em vez de
dizer que não pode cortar árvore, nós temos de incentivar e pagar
para as pessoas plantarem árvores", afirmou. Além de ser a forma
mais barata e rápida de combater as mudanças climáticas, zerar o
desmatamento é fundamental para o desenvolvimento econômico do país
no longo prazo, já que as chuvas produzidas na Amazônia são
importantes para a geração de energia, a produção de alimentos e o
abastecimento de água nas regiões Centro-oeste, Sul e Sudeste do
Brasil.
Ter como meta resguardar o que ainda nos resta de matas é buscar
um futuro melhor para as gerações de brasileiros que virão. O
Greenpeace se coloca à disposição do presidente para esclarecer
quaisquer dúvidas que ele tenha sobre o conceito de desmatamento
zero, a fim de construir um Brasil mais sustentável, justo e de
fato inserido no esforço global contra as mudanças do clima. E,
apenas para ajudá-lo na sua reflexão sobre esse futuro, não custa
lembrar que o Brasil já perdeu 700 mil quilômetros quadrados de
floresta amazônica nas últimas quatro décadas. Nesse espaço de
tempo e de área, entre 33 bilhões e 41 bilhões de árvores viraram
fumaça, ajudando a transformar o Brasil no quarto maior emissor
mundial de gases que provocam o aquecimento global.