Cerca de mil pessoas participaram,
na manhã deste domingo, da Marcha Pela Floresta em Pé, em Santarém,
em defesa da produção familiar e contra a monocultura de soja,
organizada pelo Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais,
Grupo de Trabalho Amazônico, Frente em Defesa da Amazônia e
Greenpeace. A marcha ocorre dois dias após produtores rurais e
funcionários da Cargill terem agredido ativistas do Greenpeace que
faziam um protesto pacífico contra o porto ilegal da multinacional,
instalado há três anos na cidade. Quatro ativistas ficaram
feridos.
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As mais de 30 organizações participantes da marcha prepararam
uma carta para ser enviada ao presidente Lula, apontando a
contradição existente entre o apoio dado por seu governo ao
agronegócio e sua intenção de proteger o meio ambiente. A carta,
assinada também por outras ONGs e movimentos sociais de todo o
País, solicita recursos para a produção familiar, assentamentos
agroextrativistas, implementação das reservas florestais
comunitárias e manejo adequado de recursos naturais para geração de
renda, na proporção daqueles hoje destinados aos grandes produtores
rurais. Na manifestação estiveram presentes ribeirinhos, canoeiros,
quilombolas, mulheres, jovens, estudantes, trabalhadores rurais e
diversos outros grupos.
A soja é hoje uma das causas principais do desmatamento na
Amazônia. Cerca de 1,2 milhão de hectare de floresta já foi
destruído para o cultivo de grãos de soja. Os produtores de soja
também estão envolvidos em atividades ilegais como grilagem de
terras e exploração de trabalho escravo. "A agricultura familiar
gera dez vezes mais empregos que as grandes fazendas e ainda cria
maior oportunidade de desenvolvimento para as comunidades locais",
disse Tatiana Carvalho, da campanha do Greenpeace na Amazônia.
"Além disso, a expansão da soja na região tem gerado vários
problemas sociais, como a pressão exercida sobre famílias para
deixarem suas terras e o processo de favelização da periferia de
Santarém".
A caminhada começou com a concentração em frente ao Mercadão
2000, local simbólico para as comunidades locais, pois é lá que
produtores familiares comercializam sua produção. Estudo recente da
ONG Fase aponta que cinco produtos importantes da produção familiar
têm tido menos oferta nos mercados de Santarém, com conseqüente
alta nos preços.
Após a concentração, às 10h30, a marcha seguiu em direção à
entrada do porto ilegal da Cargill, multinacional norte-americana
líder na exportação de soja e uma das principais responsáveis pelo
desmatamento gerado pela expansão da soja na Floresta
Amazônica.
Durante a passeata, as pessoas gritavam: "Cadê a floresta que
estava aqui? A soja comeu. Cadê a praia que estava aqui? A soja
comeu. Cadê o peixe que estava aqui? A soja comeu. Cadê a
biodiversidade que estava aqui? A soja comeu". Ao chegar à Cargill,
aos gritos de "Fora já Cargill, nós somos da Amazônia e defendemos
o Brasil", deram as costas para o porto da empresa.
Depois, foi servido um almoço com produtos cultivados na
agricultura familiar como baião de dois, peixe frito, macaxeira
cozida, farofa e suco de cupuaçu.
"Queremos paz, progresso e desenvolvimento cultural e político.
Queremos combater as afirmações de que essa população é preguiçosa,
pois essa gente trabalha de sol a sol. Não vamos aceitar
provocações de quem vem de fora", afirmou Paulo Roberto Spósito
Oliveira, o Magnólio, do Projeto Saúde e Alegria, referindo-se às
agressões e ofensas praticadas recentemente por produtores rurais,
quando um deles chamou moradores de Santarém de "índios
preguiçosos".
"Nós, nativos, estamos nos sentindo agredidos em nossa cultura,
etnia e natureza porque forasteiros agridem nossa região, geram
lucro para poucos e nós ficamos sem nossa floresta e sem futuro
para nosso povo", disse o padre Edilberto Sena, da Frente de Defesa
da Amazônia.
Segundo a Polícia Militar, cerca de 50 produtores de soja
tentaram impedir a marcha, com carros e caminhonetes, mas foram
impedidos pelos policiais. Cerca de cem homens da Polícia Militar
foram destacados para garantir a paz.