A Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, sai do governo Lula depois de intensa pressão do agronegócios e daqueles que defendem o crescimento insustentável.
Pressionada por setores do agronegócio, governadores de estado e
políticos da bancada ruralista, a ministra Marina Silva, do Meio
Ambiente, entregou nesta terça-feira sua carta de demissão ao
presidente Lula, de caráter irrevogável. Era a última pessoa no
governo a defender o meio ambiente e uma política de
desenvolvimento sustentável. Com sua saída, a ala do crescimento a
qualquer preço, capitaneada pela ministra Dilma Roussef, venceu o
cabo-de-guerra contra aqueles que buscavam conciliar
desenvolvimento com sustentabilidade.
Entre os nomes cotados para assumir o cargo estão Carlos Minc,
secretário de Meio Ambiente do Estado do Rio de Janeiro e deputado
estadual do PT-RJ, e Jorge Vianna, ex-governador do Acre.
Marina Silva caiu porque não suportou as pressões para que
fossem revistas medidas de combate ao
desmatamento e de punição a quem destrói a floresta
amazônica recentemente anunciadas pelo governo federal, como a
determinação para que os bancos (oficiais e privados) só
concedessem créditos a proprietários de terras que não desmatassem
e regularizassem suas terras no Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária (Incra). Políticos da região amazônica, como o
governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, e
pesos-pesados do agronegócio vinham exigindo do governo uma posição
mais favorável ao setor, o que provocou constantes choques com o
Ministério do Meio Ambiente.
"O pedido de demissão da ministra Marina comprova o descaso do
governo Lula com a causa ambiental e também com a proteção da
Amazônia", afirma Paulo Adario, diretor da campanha de Amazônia do
Greenpeace. Segundo ele, Marina sai e leva junto a toda a
credibilidade que tinha transferido para o governo Lula nos últimos
cinco anos.
"Ela vai embora e leva junto essa roupa de credibilidade
ambiental, deixando o rei Lula completamente nu", critica
Adario.
Marcelo Furtado, diretor de Campanhas do Greenpeace, diz que a
demissão da ministra é uma crônica de uma morte anunciada.
"O governo Lula já vinha dando vários sinais de que, para ele, a
agenda ambiental era uma pedra no sapato", afirma.
"A liberação dos transgênicos no país, a retomada do programa
nuclear brasileiro, com o anúncio da construção de Angra 3 e outras
quatro usinas nucleares no nordeste, são apenas algumas de várias
ações que demonstraram o compromisso do governo Lula com o
desenvolvimento a qualquer custo e não com a sustentabilidade."
UM VÔO PARA O PASSADO
A saída da ministra Marina Silva acontece um dia antes da
chegada da primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel ao Brasil.
A Alemanha é a atual sede da Conferência da ONU para a
biodiversidade, que nasceu no Rio de Janeiro na Eco-92 e tem como
sua atual presidente justamente a Marina Silva.
"A Marina iria passar o cargo para o ministro alemão de Meio
Ambiente, durante uma solenidade muito aguardada pela
primeira-ministra Merkel, que pretende marcar sua gestão como
ambientalmente correta", afirma Paulo Adario. "Mas o Brasil que ela
verá durante sua visita é diferente do país que existia antes dela
sair da Alemanha. Aquele Brasil não existe mais, com a saída da
ministra Marina. Durante o seu vôo, o Brasil mudou, e para pior.
Voltou a ser um país da década de 1970, quando a questão ambiental
era equivocadamente considerado um entrave para o desenvolvimento
do país."
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