Medidas contra desmatamento não entusiasmam Greenpeace

Notícia - 15 - mar - 2004
Governo Lula não enfrenta as causas da destruição da maior floresta tropical do planeta

O Greenpeace recebeu com pouco entusiasmo o anúncio feito ontem pelo governo Lula, em Brasília (DF), de uma série de medidas para conter o desmatamento na Amazônia. Para a organização ambientalista, embora o plano de ação pareça formar um todo coerente de iniciativas e ações interministeriais que pretendem minimizar os impactos do processo de colonização da Amazônia, as verdadeiras causas econômicas e sociais da destruição da floresta continuam a não ser enfrentadas.

"O governo Lula foi eleito com base no compromisso de mudar o modelo de desenvolvimento adotado pelo Brasil e proteger a Amazônia. O país, no entanto, parece estar preso numa armadilha: a necessidade de gerar superávits para pagar a gigantesca dívida externa e interna, e atender à demanda da população resulta em pressão cada vez maior sobre as florestas. O carro-chefe da economia brasileira tem sido a agropecuária de exportação, e essa atividade, de acordo com dados do Banco Mundial, é mais rentável na Amazônia do que nas demais regiões do País", disse o coordenador da Campanha da Amazônia do Greenpeace, Paulo Adário.

O Greenpeace reconhece que a maior integração dos diferentes ministérios e órgãos do governo envolvidos com as questões amazônicas representa um avanço considerável, e que algumas medidas - tais como o aumento dos recursos destinados à fiscalização e o monitoramento (que saltariam de R$ 22 milhões em 2003 para R$ 68 milhões em 2004), o zoneamento ecológico-econômico do Arco do Desflorestamento e a criação de áreas protegidas - podem inibir a ocupação e exploração predatória. Mas a questão central é saber se esse pacote de iniciativas será suficiente para reverter o assalto à Amazônia conduzido pela iniciativa privada. "Nas décadas de 60 e 70, o desmatamento foi resultado de uma política de ocupação da Amazônia conduzida pelo governo militar. Hoje, no entanto, são as forças do mercado que conduzem este processo, e o governo se beneficia disso, já que a crise econômica de 2003, e suas consequências políticas, teriam sido muito piores se não fosse o boom do setor de agronegócios", disse Adário.

O Plano Plurianual 2004-2007 formulado pelo governo Lula, em fase de análise pelo Congresso, deixa claro que as linhas centrais do modelo de desenvolvimento serão mantidas: o Brasil quer retomar o crescimento econômico (que atingiria 5% ao ano em 2007), gerar 7,8 milhões de empregos, triplicar a exportação de carne bovina (que pularia para três milhões de toneladas em 2007) e manter as altas taxas de crescimento da agricultura, assumindo a liderança mundial na produção e exportação de soja e outros grãos. Medidas de desenvolvimento sustentável são de maturação lenta. Para produzir, beneficiar e escoar a produção agrícola estimada pelo governo, o Brasil precisa ampliar a área ocupada, além de produzir energia e construir estradas. "É óbvio que isso não será conseguido apenas com ganhos de produtividade e absorção de tecnologia em prazo tão curto. A fronteira agrícola continuará crescendo e a Amazônia e o Cerrado continuarão pagando um preço alto", disse o coordenador da Campanha da Amazônia.

O atual modelo de desenvolvimento econômico para a Amazônia tem profundas causas sociais, econômicas e culturais. A expansão da agricultura e da pecuária de larga escala em terras baratas se beneficia da ausência do poder público em muitas regiões, envolve a grilagem de terras públicas, a concentração de poder econômico e político nas mãos de poucos, a impunidade, o avanço descontrolado da exploração ilegal de madeira, a injustiça social, a ausência de uma política real de reforma agrária em outras regiões do país para conter o fluxo contínuo de novos colonos etc.

A Amazônia é muito mais do que um celeiro de oportunidades de desenvolvimento econômico: é a jóia da coroa do meio ambiente no planeta, tem a maior biodiversidade do mundo e é de importância vital para o clima e o ciclo das águas. É também o lar de 20 milhões de brasileiros. Segundo o Greenpeace, o desenvolvimento sustentável da região exige, por isso mesmo, uma mudança radical de concepção do modelo, que não pode ser deixado à mercê das forças de mercado, com sua visão predatória e imediatista.

De acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o desmatamento no período agosto 2002-agosto 2003, ainda não divulgado oficialmente, teria sido semelhante ao do período anterior, que atingiu inaceitáveis 25.476 km2, o segundo maior da história (2). Em dois anos, mais de cinco milhões de hectares foram completamente destruídos, o equivalente a mais de nove campos de futebol desmatados a cada minuto. O período agosto 2001-agosto 2003 também pode ser considerado o biênio da destruição - o pior em toda a história da Amazônia Brasileira.

"Nos governos anteriores, a cada má notícia para a Amazônia o governo anunciava um pacote de medidas bem intencionadas. A implementação das decisões, no entanto, sempre foi um grande problema. É preciso romper esse paradigma", concluiu Adário.

(1) Veja a íntegra do plano apresentado pelo Governo Federal.

(2) Veja íntegra da notícia publicada pelo jornal "O Estado de São Paulo" em 04/03/2004.

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