Empresas fornecedoras de madeira ilegal para a China sofreram
um golpe com a decisão da terceira maior rede varejista de
materiais de construção e decoração doméstica do mundo, a empresa
inglesa B&Q, de controlar a origem dos produtos de madeira que
comercializa. A B&Q anunciou nesta terça, em Pequim, que irá
rastrear fornecedores ilegais para garantir que todos seus produtos
vendidos no mercado chinês estejam certificados em três anos.
Dois meses atrás, o Greenpeace revelou que muitas espécies
madeireiras vendidas em lojas chinesas de materiais de construção
vêm de países onde mais de 80% da extração madeireira é ilegal e
predatória, caso do Brasil.
O diretor executivo da B&Q Ásia, Steve Gilman, disse que a
empresa iniciou o trabalho para que todos os produtos madeireiros
vendidos na China venham de fontes legalizadas. A B&Q também
garantiu que, em três anos, todas as linhas de produtos vendidas na
China virão de operações florestais responsáveis e ecologicamente
certificadas, conforme a política global de aquisições de sua
filiada Kingfisher.
"A medida é extremamente positiva para os esforços de
conservação da Amazônia porque a China comprou, em 2006, mais de
10% da madeira da Amazônia exportada pelo Brasil. O país é o
segundo maior cliente da madeira brasileira, perdendo apenas para
os Estados Unidos", diz Marcelo Marquesini, da campanha Amazônia do
Greenpeace. Entre 1999 e 2006, as exportações de madeira da
Amazônia para a China aumentaram 1300%, saltando de 6,1 mil
toneladas para quase 80 mil toneladas. "Porém, a indústria da
madeira ilegal no Brasil pode se preparar para perder parte da
clientela chinesa, em breve", antecipa Marquesini.
O Greenpeace estima que a ilegalidade da madeira na Amazônia
pode chegar a 80%. O governo federal já reconhece que pelo menos
63% desse total é ilegal. Entre a floresta e os portos de
exportação, a madeira extraída ilegalmente é legalizada de diversas
maneiras.
O diretor de campanhas do Greenpeace China, Lo Sze Ping, disse
que "a menos que todas as companhias comercializadoras de produtos
madeireiros façam esforços concentrados, como a B&Q, para
limpar o mercado de madeira e garantir que o material venha de
fontes ecologicamente responsáveis, elas continuarão contribuindo
inadvertidamente para o desmatamento global e as mudanças
climáticas. Empresas que operam na China têm a obrigação particular
de tomar alguma medida porque a China é hoje o maior importador de
madeira tropical, e a rápida expansão desse setor vem tendo impacto
direto nas florestas do mundo inteiro." Atualmente, apenas um
quinto das florestas originais do planeta permanecem relativamente
intactas.
A B&Q também anunciou que parou de vender pisos feitos de
merbau, nome comum dado a algumas espécies tropicais que crescem na
ilha de Nova Guine e estão sob séria ameaça de desaparecer da
natureza. "Apesar de nossos melhores esforços para avaliar as
fontes dos nossos pisos de merbau, nós somos incapazes de ter
certeza absoluta de que ele estava vindo de operações legalizadas",
disse Gilman. "Como resultado, a única escolha responsável que nós
podemos fazer agora é parar de comprar e vender este produto, mesmo
sabendo que ele tem sido historicamente um de nossos campeões de
venda."
O Greenpeace está convocando as empresas ao redor do mundo a
pararem de vender madeira que venha de fontes ilegais e
destrutivas. A organização também exige que os governos eliminem a
entrada de madeira ilegal em seus países, e que os países que
tenham florestas intactas adotem uma moratória na exploração em
escala industrial de madeira proveniente dessas áreas, até a
conclusão de amplos e participativos zoneamentos
econômicos-ecológicos.