Navio com lixo nuclear passará pela costa do Brasil

Notícia - 19 - dez - 2001
Carga com o equivalente a mais de 40 vezes a radiação liberada no acidente de Chernobyl deve chegar em duas semanas

O navio Pacific Swan, com 192 blocos lixo nuclear de alta atividade - a maior carga deste tipo já transportada -, partiu ontem, às 20 horas (horário local), do porto de Cherbourg, na França. A rota, até então mantida em segredo, foi finalmente revelada: o navio deverá bordejar a costa brasileira e contornar o Cabo Horn, em direção ao Japão.

O lixo é um subproduto da separação de plutônio do combustível nuclear irradiado do Japão, feito na fábrica de reprocessamento estatal francesa COGEMA de La Hague. Este lixo nuclear está entre os materiais mais radioativos já produzidos - se uma pessoa, desprotegida, permanecesse a um metro de um bloco, ela receberia uma dose letal de radiação em menos de um minuto. Se liberado ao meio ambiente, o lixo poderia ser um poluente fatal para a natureza por centenas de milhares de anos. "Se houver um acidente com o navio, com liberação da carga, ao longo da costa brasileira, os prejuízos à saúde pública e ao ambiente seriam catastróficos", disse Ruy de Goes, do Greenpeace Brasil.

O Greenpeace condenou os governos britânicos, francês e japonês pelo transporte de lixo nuclear, que coloca em risco as nações da América do Sul e do Pacífico. "Esta é uma decisão irresponsável que demonstra a indiferença dos governos do Japão, França e Reino Unido pela segurança marítima e do meio ambiente, assim como pela segurança de milhares de pessoas que vivem na América do Sul e no Pacífico", disse Goes.

Rota aproximada a ser seguida pelo navio

A rota do Cabo Horn, na América do Sul, foi usada apenas uma vez, antes de 1995, no primeiro transporte de lixo nuclear da França para o Japão. Houve uma forte oposição dos países latinos em relação a este carregamento - um avião da Força Aérea do Chile chegou a ameaçar o navio caso não saísse das águas chilenas. Na época, o governo brasileiro emitiu duas notas formais de protesto contra a passagem do navio

O Greenpeace acredita que a forte oposição das pequenas ilhas do Caribe e dos países da América Central, incluindo o Panamá, influenciou a decisão de seguir a rota do Cabo Horn, em vez de usar o Canal do Panamá. Os três últimos carregamento de lixo nuclear da França para o Japão, em 1998 e 1999, usaram a rota do Canal do Panamá. Com o fechamento da rota pelo Caribe, a América do Sul poderá continuar sob o risco dos próximos carregamentos.

O carregamento de lixo nuclear está seguindo para o porto japonês de Mutsu Ogawara. Ele deverá ser transportado para o controverso estoque de lixo nuclear, que fica nas dependências do terreno de Rokkasho Mura, onde os japoneses estão construindo sua própria fábrica de reprocessamento de plutônio.

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