O navio Pacific Swan, com 192 blocos lixo nuclear
de alta atividade - a maior carga deste tipo já transportada -,
partiu ontem, às 20 horas (horário local), do porto de Cherbourg,
na França. A rota, até então mantida em segredo, foi finalmente
revelada: o navio deverá bordejar a costa brasileira e contornar o
Cabo Horn, em direção ao Japão.
O lixo é um subproduto da separação de plutônio do combustível
nuclear irradiado do Japão, feito na fábrica de reprocessamento
estatal francesa COGEMA de La Hague. Este lixo nuclear está entre
os materiais mais radioativos já produzidos - se uma pessoa,
desprotegida, permanecesse a um metro de um bloco, ela receberia
uma dose letal de radiação em menos de um minuto. Se liberado ao
meio ambiente, o lixo poderia ser um poluente fatal para a natureza
por centenas de milhares de anos. "Se houver um acidente com o
navio, com liberação da carga, ao longo da costa brasileira, os
prejuízos à saúde pública e ao ambiente seriam catastróficos",
disse Ruy de Goes, do Greenpeace Brasil.
O Greenpeace condenou os governos britânicos, francês e japonês
pelo transporte de lixo nuclear, que coloca em risco as nações da
América do Sul e do Pacífico. "Esta é uma decisão irresponsável que
demonstra a indiferença dos governos do Japão, França e Reino Unido
pela segurança marítima e do meio ambiente, assim como pela
segurança de milhares de pessoas que vivem na América do Sul e no
Pacífico", disse Goes.
Rota aproximada a ser seguida
pelo navio
A rota do Cabo Horn, na América do Sul, foi usada apenas uma
vez, antes de 1995, no primeiro transporte de lixo nuclear da
França para o Japão. Houve uma forte oposição dos países latinos em
relação a este carregamento - um avião da Força Aérea do Chile
chegou a ameaçar o navio caso não saísse das águas chilenas. Na
época, o governo brasileiro emitiu duas notas formais de protesto
contra a passagem do navio
O Greenpeace acredita que a forte
oposição das pequenas ilhas do Caribe e dos países da América
Central, incluindo o Panamá, influenciou a decisão de seguir a rota
do Cabo Horn, em vez de usar o Canal do Panamá. Os três últimos
carregamento de lixo nuclear da França para o Japão, em 1998 e
1999, usaram a rota do Canal do Panamá. Com o fechamento da rota
pelo Caribe, a América do Sul poderá continuar sob o risco dos
próximos carregamentos.
O carregamento de lixo nuclear está seguindo para o porto
japonês de Mutsu Ogawara. Ele deverá ser transportado para o
controverso estoque de lixo nuclear, que fica nas dependências do
terreno de Rokkasho Mura, onde os japoneses estão construindo sua
própria fábrica de reprocessamento de plutônio.