A chegada do navio dinamarquês Jens Nu Munk ao porto de
Salvador, na noite da última segunda-feira (19/01), expôs o descaso
com que a INB (Indústrias Nucleares do Brasil) ainda trata a
população brasileira e o meio ambiente.
Para receber uma carga adicional de cerca de 120 toneladas de
"yellow cake", material radioativo produzido a partir do urânio
explorado no município baiano de Caetité, o navio infringiu a
legislação brasileira ao entrar na Baía de Todos os Santos, área de
proteção ambiental legalmente instituída, trazendo em seus porões
aproximadamente 50 toneladas de urânio enriquecido na Holanda.
"Pegando de surpresa as autoridades ambientais baianas, a
empresa operadora do porto, os trabalhadores portuários e a
população em geral, e de posse de uma licença do Ibama apenas para
o transporte rodoviário do "yellow cake" (de Caetité até o porto de
Salvador), a INB desrespeitou a legislação ambiental em vigor e
expôs a população e os portuários de Salvador a riscos
desnecessários, segundo consta, 'por razões econômicas'", disse o
coordenador do GAMBA (Grupo Ambientalista da Bahia), Renato
Cunha.
"O pior de tudo é que essa gestão da INB vai repetir o mesmo
espetáculo de impunidade no Rio de Janeiro (RJ), nesta
quarta-feira, quando o navio deverá ingressar nas águas da Baía da
Guanabara, expondo o meio ambiente e a sociedade ao risco de uma
contaminação nuclear - no caso, pouco provável mas não impossível,
de um acidente, o que poderia deixar a baía contaminada por mais de
25 mil anos! Mais uma vez, autoridades, portuários, moradores e
turistas não foram sequer informados e estarão expostos a uma
situação de risco sem que tenham direito a dar sua opinião. Por
isso convocamos todos os ambientalistas, as ongs e a sociedade em
geral a participarem de um ato de protesto em frente ao Porto, caso
se confirme a atracação do navio", convocou o presidente do
Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais, Vilmar Berna.
"Será que o cidadão comum do Rio de Janeiro, Salvador, Feira de
Santana, Vitória da Conquista, Duque de Caxias ou Resende sabe que
essas cargas radioativas passam, de tempos em tempos, bem no meio
de suas cidades, à porta de suas casas? Será que o motorista que
dirige na Rio-Bahia ou na via Dutra sabe que tipo de perigo se
esconde na carga do caminhão que vai ao seu lado?", questionou o
carioca Artur Moret, coordenador do Fórum de Debates sobre Energia
de Rondônia.
"Além de já ter custado muitos bilhões de dólares a este país, a
indústria nuclear, desde a mineração do urânio até o armazenamento
do lixo atômico, oferece uma série de perigos para vida de milhões
de brasileiros. Esse descaso com a lei e esse desprezo pela opinião
pública mostrados pela INB só reforçam a nossa visão de que a
energia nuclear deve ser suprimida da nossa matriz energética. A
indústria nuclear é perigosa, suja, cara e ultrapassada",
acrescentou o coordenador da Campanha de Energia do Greenpeace,
Sérgio Dialetachi.
A preocupação dos ambientalistas com o transporte de material
radioativo pelas costas brasileiras já é antiga e tem se agravado
com os recentes indícios da passagem pelo nosso mar territorial de
lixo atômico vindo de outros países. É o caso do reator
descomissionado (desativado) de San Onofre (EUA), que deverá nos
próximos meses contornar toda a América do Sul a caminho de seu
cemitério nuclear definitivo.