
O povo indígena Deni começou hoje a abertura de trilhas na
floresta amazônica para demarcar fisicamente seu território
tradicional, situado nos municípios de Itamarati e Tapauá, no
Amazonas. O objetivo dos Deni é proteger suas terras da exploração
comercial de empresas madeireiras, que têm interesse nos recursos
naturais concentrados na área. Esta é uma das primeiras vezes que
um povo indígena conduz a demarcação de seu território na Amazônia
sem a assistência do governo federal.
A bordo do navio do Greenpeace MV Arctic Sunrise, que está em
Manaus (1), o Patarahu (chefe) Deni Haku Varashadeni, e dirigentes
da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira) uniram-se a representantes do Greenpeace e das
organizaçõe indigenistas CIMI (Conselho Indigenistas Missionário) e
OPAN (Operação Amazônia Nativa) para anunciar o início da
auto-demarcação de cerca de 1,53 milhão de hectares de floresta no
vale dos Rios Purus e Juruá, no sudeste do estado do Amazonas.
"Faz 15 anos que esperamos que o governo brasileiro garanta a
proteção de nossas terras através da demarcação. Enquanto isso, o
povo Deni convive com a ameaça de empresas madeireiras que querem
destruir nossa casa", disse o chefe Deni Haku Varashadeni. "Não
vamos mais esperar. Pedimos que o governo brasileiro reconheça
nossa demarcação e afaste de vez os perigos que ameaçam nosso povo
e nossa terra".
Falando em nome da Coiab, o líder cambeba Tomé Fernandes Cruz
apoiou a decisão dos Deni de auto-demarcar seu territóro e cobrou
do governo a efetiva proteção de todas as terras indígenas no País.
"Além de demarcar, o governo precisa liberar recursos para
vigilância e a implementação de programas permanentes voltados para
o desenvolvimento sustentável dos povos indígenas", disse ele.
(2)
"Enquanto fazendeiros e madeireiros colocam em risco a
sobrevivência da floresta Amazônica ao forçar mudanças que
enfraquecem o Código Florestal, os Deni estão dando um exemplo de
cidadania", acrescentou Paulo Adário, coordenador da Campanha da
Amazônia do Greenpeace. "A demarcação das terras indígenas ajuda a
aumentar a proteção do patrimônio ambiental amazônico".
Nos próximos dois meses, uma equipe de especialistas brasileiros
do Greenpeace, CIMI e OPAN, e um time internacional composto por 12
voluntários estarão dando apoio logístico aos Deni nos trabalho de
demarcação, disse Nilo D'Ávila, coordenador do projeto Deni pelo
Greenpeace. "Uma vez que a demarcação esteja concluída e seja
reconhecida pelo governo, a área se torna de uso exclusivo dos
Deni, afastando madeireiros e outros invasores", disse ele.
Durante os últimos anos, os Deni sofreram constantes ameaças à
integridade de seu território. Em 1996, a madeireira malaia WTK e
sua subsidiária brasileira Amaplac compraram 313 mil hectares na
região, sendo 150 mil hectares em terras Deni. Em maio de 1999, os
Deni pediram ajuda ao Greenpeace para que suas terras fossem
demarcadas. A organização ambientalista convidou o CIMI e a OPAN,
organizações com larga experiência em assuntos indígenas, para
apoiar os Deni. Uma campanha pela Internet, promovida pelas três
organizações, levou milhares de pessoas a escrever ao governo
brasileiro pedindo a demarcação das terras Deni.
Paralemente, o Greenpeace desenvolveu intensa campanha de
pressão na Europa contra a WTK/ Amaplac, fechando o mercado aos
compensados de madeira exportados pela empresa. Recentemente, a WTK
comprometeu-se publicamente a não impedir o projeto de
auto-demarcação da terra Deni.
"O governo brasileiro não cumpriu o compromisso constitucional
de demarcar todas as terras indígenas do País até 1993. Os Deni
decidiram proteger suas terras através da auto-demarcação, mas
precisam do apoio do governo para que ela seja reconhecida
legalmente", disse Nilo D'Ávila. "É dever de todos nós apoiar a
luta dos Deni e dos demais povos indígenas pela preservação de seus
territórios e culturas tradicionais".
O apoio à auto-demarcação do território Deni faz parte da
campanha do Greenpeace pela proteção das florestas do planeta.
Cerca de 80% da cobertura florestal original já foram destruídas.
Não há tempo a perder. O Greenpeace demanda dos governos do mundo a
adotarem medidas imediatas para deter a destruição das
florestas.
Saiba mais sobre o dia-a-dia dos índios Deni -
galeria de fotos, textos e diários das expedições do
Greenpeace.
(1) O navio do Greenpeace MV Arctic Sunrise estará percorrendo a
Amazônia Brasileira durante os próximos dois meses, denunciando a
retirada ilegal de madeira da região e destacando a importância de
preservar a maior floresta tropical do planeta e sua
biodiversidade.
(2) Leia íntegra do Manifesto "Pela Demarcação e Garantia de Todas as
Terras Indígenas", assinado pela Coiab, Uni-Tefé e Opimp.