Vista aérea da central nuclear de Kashiwazaki (Japão)
Desde que um terremoto de magnitude 6,8 atingiu a maior usina
nuclear do mundo, em Kashiwazaki, no Japão, na segunda-feira, as
(poucas e confusas) informações divulgadas ao público reforçam a
falta de transparência que é uma marca história da indústria
nuclear.
Inicialmente, a empresa que controla a usina, a Tokyo Electric
Power Company (Tepco) divulgou que não houve vazamento de
radioatividade. Depois, informou que um pequeno vazamento
radioativo havia contaminado a água. Em seguida, confirmou que o
tamanho do vazamento era muito maior do que o originalmente
reportado e a água estava com 50% mais radioatividade do que o
informado inicialmente. E só então o público soube que centenas de
barris contendo lixo atômico haviam tombado e que dezenas
apresentavam vazamentos. E mais: foi revelado que elementos tóxicos
como cobalto-60 e cromo-51 foram lançados na atmosfera.
"A falta de transparência é uma marca registrada da indústria
nuclear, no Japão e em todo o mundo. O Acidente dessa semana no
Japão comprova, mais uma vez, que não existe reator 100% seguro e
que não se pode confiar no setor nuclear", disse Rebeca Lerer, da
campanha de energia do Greenpeace Brasil.
O terremoto matou pelo menos nove pessoas, feriu centenas de
moradores de Kashiwazaki e forçou a evacuação de outros milhares de
japoneses. A situação teria sido ainda mais trágica se um dos
quatro reatores nucleares deixasse de gerar energia para o sistema
de resfriamento da usina.
Nota divulgada pelo Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos
diz: "Mesmo depois do fechamento, o combustível no reator está
extremamente quente e por isso é necessário manter um contínuo
fluxo de resfriamento. Se não for mantido, o combustível pode
derreter, causando o lançamento de altos níveis de material
radioativo no meio ambiente. Sob algumas circunstâncias, isso
poderia resultar em uma explosão. Apesar da gravidade desse fogo, a
Tepco falhou em anunciar se o transformador continuou a operar ou
se o gerador de emergência foi acionado".
De acordo com o jornal japonês Yomiuri Shimbun, a Tepco admitiu
que suas medidas de resposta ao desastre não foram bem-sucedidas e
que havia apenas quatro trabalhadores para combater o incêndio, que
durou cerca de duas horas.
A Tepco também já assumiu publicamente que o terremoto de
segunda-feira foi mais forte do que a usina nuclear foi projetada
para suportar. Novos dados indicam que existe uma falha geológica
localizada sob a usina que ainda não havia sido identificada. O
Japão é um dos países mais sujeitos a terremotos e também um dos
mais dependentes da energia nuclear - uma combinação sujeita a
altos riscos.
A demora em reportar vazamentos e outros problemas não é
surpresa, mas parece que o governo japonês finalmente começa a
perder a paciência com uma indústria atingida por vários escândalos
na última década. "Eles deram o alerta muito tarde. Eu tenho
enviado instruções severas de que tais alertas devem ser dados
seriamente e rapidamente. Os envolvidos devem refletir sobre suas
ações", declarou a jornalistas o primeiro-ministro Shinzo. "Energia
nuclear só pode operar com a confiança da população",
complementou.
Enquanto isso, no Brasil, o governo federal vem anunciando com
pompa e circunstância a ressurreição do Programa Nuclear
Brasileiro. O presidente Lula chagou a afirmar publicamente que a
tecnologia nuclear brasileira seria a prova de acidentes. "Fica a
pergunta: se nem o Japão, um dos países com mais tradição nesta
tecnologia e dos mais preparados para lidar com situações extremas
ainda é refém da ameaça nuclear, será que o Brasil está preparado
para assumir riscos dessa gravidade?", aponta Rebeca. "Hoje no
Brasil já predominam sentimentos de insegurança e desconfiança em
relação ao governo por vários motivos: violência urbana, caos
aéreo, corrupção, problemas de infra-estrutura como no metrô de São
Paulo.... a população brasileira não precisa da ameaça
nuclear".
Veja também:
Incêndio e vazamento em usina nuclear japonesa mostra perigos da
energia atômica
Relatório do Greenpeace sobre os riscos das usinas
nucleares