Nova campanha do Greenpeace incentiva consumidores a pressionarem Bunge por produção livre de transgênicos

Notícia - 22 - jun - 2005
Maior uso de agrotóxicos, perda de biodiversidade e baixa produtividade após três anos de cultivo são conseqüências diretas do uso de transgênicos no meio ambiente


Um carrinho de supermercado gigante equipado com alto-falantes e recheado de produtos alimentícios da marca Bunge é a principal atração da nova campanha de mobilização de consumidores que o Greenpeace lança hoje nacionalmente. A organização está incentivando consumidores a questionarem publicamente a empresa sobre o uso de transgênicos em seus produtos óleos Soya e Salada, margarina Delícia e gordura vegetal Primor. Dezoito outdoors distribuídos em 11 cidades brasileiras e banners de internet são as outras ferramentas de comunicação com o público.

"Queremos dar voz a milhares de consumidores brasileiros que rejeitam os transgênicos em seus pratos", explica Gabriela Couto, da campanha de engenharia genética do Greenpeace. Segundo pesquisa ISER/2004, mais de 70% dos brasileiros não querem consumir alimentos transgênicos. "Através de nosso site, estas pessoas poderão enviar mensagens à Bunge manifestando seu direito de saber o que estão consumindo e seu desejo de consumir produtos livres de transgênicos".

A escolha da Bunge como alvo deve-se ao seu papel de líder no mercado de óleos e margarinas e de grande fabricante de maionese. A empresa é também a maior trading do mercado de grãos no país. A Bunge adota o duplo padrão em seu relacionamento com os consumidores. Tem uma linha de produtos certificados como não transgênicos, de acordo com exigências específicas de clientes. No caso dos óleos, margarina e maionese alvos da campanha do Greenpeace, a empresa não oferece informações sobre a matéria-prima utilizada na fabricação destes produtos.

Em 2004, o Greenpeace denunciou a fábrica de óleos da Bunge em Passo Fundo (RS). Na ocasião, a própria empresa admitiu não realizar controle da matéria prima em seus produtos finais. "A postura da empresa em relação aos consumidores é vergonhosa. A Bunge deve respeitar os cidadãos, informando em seus produtos a qualidade da matéria-prima utilizada em sua fabricação. Só assim os consumidores poderão escolher alimentos que não destroem o meio ambiente", afirma Gabriela.

Na produção de óleos vegetais e derivados, as moléculas de soja são esmagadas de tal forma que um teste de transgenia é incapaz de detectar a presença de transgênicos em seu DNA. Por isso, produtos como margarinas, óleos,margarinas, maionese, gorduras vegetais não podem ser definidos como transgênicos, o que não significa não ter sido usada matéria-prima transgênica em sua fabricação. Apesar da incapacidade de detecção, a empresa é obrigada a informar sobre o uso de matéria-prima transgênica ao consumidor, de acordo com Decreto de Rotulagem 4.680/03. "Poucas pessoas sabem que esses produtos não podem ser testados em laboratórios. E a Bunge se aproveita disso para tentar enganar os consumidores", alertou Gabriela. "Mas o fato de o resultado do teste não apontar transgênicos no produto final não significa que o produto não tenha sido feito com soja transgênica. Por isso, o papel do consumidor é fundamental: é preciso exigir que a Bunge garanta que seus produtos não contenham e não sejam feitos com transgênicos".

O controle da produção e o banimento do uso transgênicos nos produtos têm sido uma política frequentemente adotada por empresas de alimentos no Brasil e no mundo, segundo Relatório de Mercado Europeu do Greenpeace/2005 . No último mês de maio, o Greenpeace anunciou que, graças à pressão dos consumidores, mais sete empresas (Bauducco, Dr. Oetker, Ducoco, Fritex, Kopenhagem, Massa Leve e Visconti) passaram para a "Lista Verde" do Guia do Consumidor ao garantir produtos livres de transgênicos. "Chama a atenção o fato de que estas empresas anunciaram a política de não-utilização de transgênicos após a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de 2005", comemora Gabriela Couto.

Danos ao meio ambiente

A soja transgênica foi criada pela multinacional Monsanto para ser resistente ao agrotóxico Roundup, solucionando os problemas que os agricultores enfrentam com as ervas invasoras, o mato, que é tolerante aos agrotóxicos usados na plantas convencional. O problema é que após dois ou três anos de cultivo de soja transgênica, as plantas passam a oferecer resistência ao Roundup, obrigando o agricultor a usar cada vez doses mais elevadas do produto e de outros tipos de herbicidas.

A liberação comercial da soja transgênica aconteceu em 1995 nos EUA, e desde então já foram constatados diversos impactos que estes organismos têm causado no meio ambiente e na vida dos agricultores.

O incremento do uso de agrotóxicos após o terceiro ano consecutivo do cultivo da soja transgênica tem sido responsável pelo aumento da contaminação do solo e de rios que margeiam as plantações, pela eliminação de espécies fundamentais para o equilíbrio da vida silvestre e ainda pela redução de até 4% em sua produtividade, segundo dados do economista agrícola norte-americano Charles Benbrook.

Além dos impactos ambientais causados pela tecnologia transgênica, a Bunge, e outras empresas do setor de agronegócios, é apontada como uma das responsáveis pelo avanço da fronteira da soja sobre a Floresta Amazônica, principalmente no Estado do Mato Grosso. É no Mato Grosso que está concentrada a maioria dos silos da Bunge, 54 no total. "O estado é atualmente o maior produtor de soja do País e, não por acaso, campeão de desmatamento da Amazônia no período entre 2003 - 2004, responsável por 48% do total", afirma Gabriela Couto.

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