Um carrinho de supermercado gigante equipado com alto-falantes e
recheado de produtos alimentícios da marca Bunge é a principal
atração da nova campanha de mobilização de consumidores que o
Greenpeace lança hoje nacionalmente. A organização está
incentivando consumidores a questionarem publicamente a empresa
sobre o uso de transgênicos em seus produtos óleos Soya e Salada,
margarina Delícia e gordura vegetal Primor. Dezoito outdoors
distribuídos em 11 cidades brasileiras e banners de internet são as
outras ferramentas de comunicação com o público.
"Queremos dar voz a milhares de consumidores brasileiros que
rejeitam os transgênicos em seus pratos", explica Gabriela Couto,
da campanha de engenharia genética do Greenpeace. Segundo pesquisa
ISER/2004, mais de 70% dos brasileiros não querem consumir
alimentos transgênicos. "Através de nosso site, estas pessoas
poderão enviar mensagens à Bunge manifestando seu direito de saber
o que estão consumindo e seu desejo de consumir produtos livres de
transgênicos".
A escolha da Bunge como alvo deve-se ao seu papel de líder no
mercado de óleos e margarinas e de grande fabricante de maionese. A
empresa é também a maior trading do mercado de grãos no país. A
Bunge adota o duplo padrão em seu relacionamento com os
consumidores. Tem uma linha de produtos certificados como não
transgênicos, de acordo com exigências específicas de clientes. No
caso dos óleos, margarina e maionese alvos da campanha do
Greenpeace, a empresa não oferece informações sobre a matéria-prima
utilizada na fabricação destes produtos.
Em 2004, o Greenpeace denunciou a fábrica de óleos da Bunge em
Passo Fundo (RS). Na ocasião, a própria empresa admitiu não
realizar controle da matéria prima em seus produtos finais. "A
postura da empresa em relação aos consumidores é vergonhosa. A
Bunge deve respeitar os cidadãos, informando em seus produtos a
qualidade da matéria-prima utilizada em sua fabricação. Só assim os
consumidores poderão escolher alimentos que não destroem o meio
ambiente", afirma Gabriela.
Na produção de óleos vegetais e derivados, as
moléculas de soja são esmagadas de tal forma que um teste de
transgenia é incapaz de detectar a presença de transgênicos em seu
DNA. Por isso, produtos como margarinas, óleos,margarinas,
maionese, gorduras vegetais não podem ser definidos como
transgênicos, o que não significa não ter sido usada matéria-prima
transgênica em sua fabricação. Apesar da incapacidade de detecção,
a empresa é obrigada a informar sobre o uso de matéria-prima
transgênica ao consumidor, de acordo com Decreto de Rotulagem
4.680/03. "Poucas pessoas sabem que esses produtos não podem ser
testados em laboratórios. E a Bunge se aproveita disso para tentar
enganar os consumidores", alertou Gabriela. "Mas o fato de o
resultado do teste não apontar transgênicos no produto final não
significa que o produto não tenha sido feito com soja transgênica.
Por isso, o papel do consumidor é fundamental: é preciso exigir que
a Bunge garanta que seus produtos não contenham e não sejam feitos
com transgênicos".
O controle da produção e o banimento do uso transgênicos nos
produtos têm sido uma política frequentemente adotada por empresas
de alimentos no Brasil e no mundo, segundo Relatório de Mercado
Europeu do Greenpeace/2005 . No último mês de maio, o Greenpeace
anunciou que, graças à pressão dos consumidores, mais sete empresas
(Bauducco, Dr. Oetker, Ducoco, Fritex, Kopenhagem, Massa Leve e
Visconti) passaram para a "Lista Verde" do Guia do Consumidor ao
garantir produtos livres de transgênicos. "Chama a atenção o fato
de que estas empresas anunciaram a política de não-utilização de
transgênicos após a aprovação da Lei de Biossegurança, em março de
2005", comemora Gabriela Couto.
Danos ao meio ambiente
A soja transgênica foi criada pela multinacional Monsanto para
ser resistente ao agrotóxico Roundup, solucionando os problemas que
os agricultores enfrentam com as ervas invasoras, o mato, que é
tolerante aos agrotóxicos usados na plantas convencional. O
problema é que após dois ou três anos de cultivo de soja
transgênica, as plantas passam a oferecer resistência ao Roundup,
obrigando o agricultor a usar cada vez doses mais elevadas do
produto e de outros tipos de herbicidas.
A liberação comercial da soja transgênica aconteceu em 1995 nos
EUA, e desde então já foram constatados diversos impactos que estes
organismos têm causado no meio ambiente e na vida dos
agricultores.
O incremento do uso de agrotóxicos após o terceiro ano
consecutivo do cultivo da soja transgênica tem sido responsável
pelo aumento da contaminação do solo e de rios que margeiam as
plantações, pela eliminação de espécies fundamentais para o
equilíbrio da vida silvestre e ainda pela redução de até 4% em sua
produtividade, segundo dados do economista agrícola norte-americano
Charles Benbrook.
Além dos impactos ambientais causados pela tecnologia
transgênica, a Bunge, e outras empresas do setor de agronegócios, é
apontada como uma das responsáveis pelo avanço da fronteira da soja
sobre a Floresta Amazônica, principalmente no Estado do Mato
Grosso. É no Mato Grosso que está concentrada a maioria dos silos
da Bunge, 54 no total. "O estado é atualmente o maior produtor de
soja do País e, não por acaso, campeão de desmatamento da Amazônia
no período entre 2003 - 2004, responsável por 48% do total", afirma
Gabriela Couto.