O bonde americano e o caminho do precipício

Notícia - 9 - nov - 2009
As negociações não avançaram durante a reunião sobre o clima em Barcelona e as decisões foram mais uma vez postergadas

A última semana oficial de negociação entre países antes do início da Conferência do Clima, em dezembro em Copenhague, acabou tão gélida quanto a Dinamarca no inverno. Os Estados Unidos se tornaram, mais uma vez, o grande entrave para o avanço das conversas, que precisam resultar em um acordo de como controlar o aquecimento global.

O maior emissor histórico de gases-estufa - e portanto essencial na formação de qualquer regime político a ser seguido neste setor - recusa-se a assumir metas reais de corte de emissões, com validade legal. Esse movimento é nocivo por dois motivos: os americanos fogem de sua responsabilidade histórica e ainda servem de escudo para outros, ricos e pobres, que também não querem assumir nada de verdade. É como uma grande galinha protegendo seus filhotes.

A reunião de Barcelona mostrou que os países que não estão dispostos a negociar tentam enfraquecer o acordo. Os países em desenvolvimento, por sua vez, pressionam por um documento robusto, mas também não assumem compromissos enquanto o mundo industrializado não se mexer.

É o caso do Brasil. Apesar de não precisar se comprometer com metas, o governo ganharia em mérito se avançasse e colocasse na mesa números para cortar emissões de gases-estufa, e ainda ajudaria a destravar as negociações. Porém, na semana passada, perdeu uma ótima oportunidade e adiou a divulgação de qualquer plano para conter o aquecimento global. O não-anúncio caiu como um balde de água fria em Barcelona, gelando de vez os ânimos de quem esperava um avanço nessa área.

De acordo com Luiz Alberto Figueiredo, chefe das negociações brasileiras nas reuniões, o Brasil vai ter suas ações, elas serão ambiciosas e o país será parte da solução, mas não há metas. Até o momento, o único acordo fechado para o Brasil levar a Copenhague é o compromisso de reduzir em até 80% o desmatamento da Amazônia - insuficiente para um país que se coloca como potência regional.

Nesse jogo de esconde-esconde, quem mais perde são as pessoas, especialmente as mais pobres, aquelas que deveriam ser representadas pelos engravatados que circulam nos corredores da ONU e dessas conferências. O aquecimento global se agrava paulatinamente.

As vozes mais veementes vêm de quem já sofre com as mudanças climáticas, cuja sobrevivência está ameaçada. "Seremos vítimas da nossa própria inação", disse o diplomata que representa as Ilhas Salomão - que serão muito afetadas pela elevação do nível do mar - durante a plenária de fechamento da reunião de Barcelona.

Copenhague e o futuro

Em Copenhague espera-se que sejam definidos os termos da segunda fase do Protocolo de Kyoto , estipulando metas mais arrojadas de redução de emissão para as nações mais ricas e industrializadas e sua implementação. Além disso, comprometimentos adicionais como financiamentos de ações de adaptação e mitigação dos efeitos das mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, mecanismos de redução de emissões pelo desmatamento e degradação (REDD) e de mercado de carbono devem ser acordadas em dezembro.

No entanto, até agora, poucos países assumiram metas de redução de emissão e só ofereceram migalhas para financiar a implantação de uma economia de baixo carbono, sinalizando que tudo só vai ser definido mesmo, na melhor das hipóteses, nos 45 do segundo tempo da conferência.

"É claro que a reunião de Copenhague pode falhar. Se faltar vontade política e coragem para os principais líderes mundiais como Obama, Merkel,  Sarkozy e Lula agirem, o acordo vai por água abaixo", disse o coordenador político do Greenpeace, Martin Kaiser. "Mas tudo está encaminhado e há tempo suficiente para colocar um acordo ambicioso e justo em prática. O jogo ainda não acabou", completa.

Na semana passada, aproveitando a presença do presidente Lula em Londres para receber o prêmio de estadista do ano do instituto Chatam House, ativistas do Greenpeace fizeram um apelo ao presidente para que ele vá a Copenhague negociar pessoalmente com os outros chefes de estado um novo protocolo do clima. Lula conversou com os ativistas e prometeu convidar todos os maiores líderes políticos a comparecerem na conferência mais importante sobre o clima de todos os tempos.

"O histórico das negociações pelo clima nos ensina a esperar o inesperado. Nós ganhamos as convenções, o Protocolo de Kyoto, sua ratificação e a volta da participação dos EUA nas reuniões, em Bali - tudo isso em um ambiente de muito pessimismo", analisa Kaiser.

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