A última semana oficial de negociação entre países antes do
início da Conferência do Clima, em dezembro em Copenhague, acabou
tão gélida quanto a Dinamarca no inverno. Os Estados Unidos se
tornaram, mais uma vez, o grande entrave para o avanço das
conversas, que precisam resultar em um acordo de como controlar o
aquecimento global.
O maior emissor histórico de gases-estufa - e portanto essencial
na formação de qualquer regime político a ser seguido neste setor -
recusa-se a assumir metas reais de corte de emissões, com validade
legal. Esse movimento é nocivo por dois motivos: os americanos
fogem de sua responsabilidade histórica e ainda servem de escudo
para outros, ricos e pobres, que também não querem assumir nada de
verdade. É como uma grande galinha protegendo seus filhotes.
A reunião de Barcelona mostrou que os países que não estão
dispostos a negociar tentam enfraquecer o acordo. Os países em
desenvolvimento, por sua vez, pressionam por um documento robusto,
mas também não assumem compromissos enquanto o mundo
industrializado não se mexer.
É o caso do Brasil. Apesar de não precisar se comprometer com
metas, o governo ganharia em mérito se avançasse e colocasse na
mesa números para cortar emissões de gases-estufa, e ainda ajudaria
a destravar as negociações. Porém, na semana passada, perdeu uma
ótima oportunidade e adiou a divulgação de qualquer plano para
conter o aquecimento global. O não-anúncio caiu como um balde de
água fria em Barcelona, gelando de vez os ânimos de quem esperava
um avanço nessa área.
De acordo com Luiz Alberto Figueiredo, chefe das negociações
brasileiras nas reuniões, o Brasil vai ter suas ações, elas serão
ambiciosas e o país será parte da solução, mas não há metas. Até o
momento, o único acordo fechado para o Brasil levar a Copenhague é
o compromisso de reduzir em até 80% o desmatamento da Amazônia -
insuficiente para um país que se coloca como potência regional.
Nesse jogo de esconde-esconde, quem mais perde são as pessoas,
especialmente as mais pobres, aquelas que deveriam ser
representadas pelos engravatados que circulam nos corredores da ONU
e dessas conferências. O aquecimento global se agrava
paulatinamente.
As vozes mais veementes vêm de quem já sofre com as mudanças
climáticas, cuja sobrevivência está ameaçada. "Seremos vítimas da
nossa própria inação", disse o diplomata que representa as Ilhas
Salomão - que serão muito afetadas pela elevação do nível do mar -
durante a plenária de fechamento da reunião de Barcelona.
Copenhague e o futuro
Em Copenhague espera-se que sejam definidos os termos da segunda
fase do Protocolo de Kyoto , estipulando metas mais arrojadas de
redução de emissão para as nações mais ricas e industrializadas e
sua implementação. Além disso, comprometimentos adicionais como
financiamentos de ações de adaptação e mitigação dos efeitos das
mudanças climáticas nos países em desenvolvimento, mecanismos de
redução de emissões pelo desmatamento e degradação (REDD) e de
mercado de carbono devem ser acordadas em dezembro.
No entanto, até agora, poucos países assumiram metas de redução
de emissão e só ofereceram migalhas para financiar a implantação de
uma economia de baixo carbono, sinalizando que tudo só vai ser
definido mesmo, na melhor das hipóteses, nos 45 do segundo tempo da
conferência.
"É claro que a reunião de Copenhague pode falhar. Se faltar
vontade política e coragem para os principais líderes mundiais como
Obama, Merkel, Sarkozy e Lula agirem, o acordo vai por água
abaixo", disse o coordenador político do Greenpeace, Martin Kaiser.
"Mas tudo está encaminhado e há tempo suficiente para colocar um
acordo ambicioso e justo em prática. O jogo ainda não acabou",
completa.
Na semana passada, aproveitando a presença do presidente Lula em
Londres para receber o prêmio de estadista do ano do instituto
Chatam House, ativistas do Greenpeace fizeram um apelo ao
presidente para que ele vá a Copenhague negociar pessoalmente com
os outros chefes de estado um novo protocolo do clima. Lula
conversou com os ativistas e prometeu convidar todos os maiores
líderes políticos a comparecerem na conferência mais importante
sobre o clima de todos os tempos.
"O histórico das negociações pelo clima nos ensina a esperar o
inesperado. Nós ganhamos as convenções, o Protocolo de Kyoto, sua
ratificação e a volta da participação dos EUA nas reuniões, em Bali
- tudo isso em um ambiente de muito pessimismo", analisa
Kaiser.