Pacote 'Floresta Zero': bancada ruralista garante seu presente de Natal

Notícia - 18 - dez - 2007
Alterações no Código Florestal são aprovadas na Comissão de Agricultura, permitindo a criação de áreas livres de florestas.

As alterações no Código Florestal podem criar no país áreas inteiras sem florestas, substituídas por plantações de palma (dendê) ou cana.

A bancada ruralista do Congresso Nacional conseguiu um presente e tanto às vésperas do Natal: aprovou na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados uma proposta com alterações no Código Florestal brasileiro. Na prática, a proposta reforça a intenção de se reduzir a Reserva Legal de 80% para 50% na Amazônia, além de permitir a soma das áreas de preservação permanente (APP) e da Reserva Legal. Emalguns casos, isso significa, na prática, uma redução da Reserva Legalpara até menos de 50%. A Reserva Legal é fundamental para a manutenção da biodiversidade.

Confira aqui a íntegra do Projeto de Lei aprovado na Comissão de Agricultura (arquivo em PDF).

A proposta foi defendida pelo deputado Homero Pereira (PR-MT), presidente licenciado da Federação de Agricultura do Mato Grosso (Famato-MT) e relator do projeto. Pereira é fiel aliado do governador Blairo Maggi, rei da soja e notório defensor do Pacto Desmatamento Zero.

Confira aqui os defeitos, ponto a ponto, da proposta de alteração do Código Florestal, de acordo com a avaliação de entidades ambientalistas como ISA, Greenpeace, CTA e Rede Cerrado.

Em reunião na manhã desta quarta-feira com o presidente da Comissão de Agricultura, deputado Marcos Monte (DEM-MG), e com o deputado Homero Pereira, representantes do Greenpeace reforçou o pedido para que a proposta não fosse votada às pressas, na última sessão do ano, a uma semana do Natal.

Os parlamentares, no entanto, ignoraram o pedido e aproveitaram o apagar das luzes para aprovar uma proposta feita por encomenda pela bancada ruralista. 

O texto segue agora para discussão na Comissão de Meio Ambiente, também da Câmara.

"O deputado Homero Pereira, como bom defensor dos interesses ruralistase dos biocombustíveis, conseguiu piorar o que já estava muito ruim",disse Sérgio Leitão, diretor de Políticas Públicas do Greenpeace.

"Nomomento em que vários países reunidos em Bali, particularmente oBrasil, demonstraram seu compromisso com as florestas como contribuiçãoao combate ao aquecimento global, a Comissão de Agricultura da Câmarados Deputados faz o movimento inverso, dando um presente de Natal degrego para os brasileiros e sinalizando a verdadeira disposição doagronegócio no Brasil: a de acabar com as florestas do país".

O texto aprovado permite que os proprietários que destruíram sua Reserva Legal fiquem desobrigados de recuperar o dano ambiental causado dentro da região em que ele ocorreu, permitindo que a chamada "compensação" possa ser feita em qualquer região do país - ou seja, a proposta incentiva a criação de áreas inteiras livres de floresta.

Ela autoriza que a recuperação da cobertura florestal seja feita com monoculturas (dendê e outras palmáceas produtoras de óleo, além de eucalipto e outras espécies exóticas) em 30% da área ilegalmente desmatada. O texto flexibiliza ainda a chamada "compensação florestal", permitindo que áreas desmatadas nos vários biomas brasileiros, como a Mata Atlântica e o Cerrado, possam ser usadas sem maiores entraves.

O texto aprovado também sugere uma anistia a todas as multas de proprietários rurais que não tenham cumprido com as exigências do Código Florestal, como manter a averbação da Reserva Legal no registro de imóveis, em troca do cadastro das propriedades.

Para o Greenpeace, as  mudanças ao Código Florestal aprovadas hoje pela Comissão de Agricultura representam uma séria ameaça às florestas brasileiras e ao equilíbrio climático global. "Ao aprovar essa proposta, a Comissão de Agricultura demonstra que está comprometida apenas em manter o lucro do agronegócio. Em 2007, o setor registrou ganhos da ordem de R$ 60 bilhões. "O agronegócio brasileiro nunca ganhou tanto dinheiro e, mesmo assim, continua demonstrando insensibilidade com o futuro do Brasil e do nosso planeta".

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