PNUD: mudanças climáticas exigem ações concretas de países ricos e pobres

Notícia - 26 - nov - 2007
Relatório da ONU enfoca questão das mudanças climáticas e pede maior solidariedade dos países industrializados com as nações em desenvolvimento.

Centenas de balões sobem aos céus de Brasília com cinzas da floresta amazônica em protesto contra o desmatamento e em defesa do clima.

É hora dos líderes mundiais saírem da retórica e colocarem a mão na massa para frear o aquecimento global. Quem faz o alerta agora é o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que lançou nesta terça-feira o seu Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) 2007/2008, que traz um forte enfoque na questão das mudanças climáticas.

Leia aqui o sumário executivo do relatório (arquivo PDF).

O RDH recomenda uma série de medidas a serem tomadas pelos países mais industrializados do mundo para evitar o colapso do clima e o aprofundamento da divisão entre ricos e pobres: cortar as emissões em pelo menos 80% até 2050; investir anualmente um adicional de pelo menos U$ 86 bilhões em esforços de adaptação, a fim de proteger os mais pobres do mundo, apoiando a produção de biocombustíveis sem prejudicar os direitos dos pequenos agricultores ou populações indígenas; e apoiar os esforços para reduzir o desmatamento de florestas em países como o Brasil.

"O ponto positivo e mais importante do relatório do PNUD é que ele faz um chamado aos líderes mundiais para que saiam da retórica e ponham a mão na massa, com ações concretas que levem à solução do desafio das mudanças climáticas", afirma Marcelo Furtado, diretor de campanhas do Greenpeace Brasil. "Caso contrário, o preço não será apenas econômico, mas também de vidas humanas, particularmente entre os mais pobres."

O relatório foi divulgado pela ONU simultaneamente em Nova York e Brasília e analisa a situação de 177 países.

Marcelo observa que o relatório do PNUD cobra ação imediata dos países desenvolvidos mas também dos países em desenvolvimento como o Brasil. "O relatório destaca a importância do combate ao desmatamento, que tem influência direta no aquecimento global."

Mas o diretor do Greenpeace observa alguns problemas no RDH divulgado pelo PNUD. O primeiro, e mais sério, é a promoção da tecnologia do 'carvão limpo' como estratégia de redução de emissão de combustíveis fósseis. "O carvão é um dos maiores vilões do aquecimento global e o 'carvão limpo' é apenas uma maquiagem verde, promovida por aqueles que não querem mudar sua matriz energética para fontes verdadeiramente renováveis e limpas", diz Furtado.

"O segundo problema do relatório está relacionado à promoção da captura e armazenamento de carbono como tecnologia para resolver o problema das mudanças climáticas. Essa tecnologia não está comprovada nem disponível. Além disso, no momento em que estiver disponível, o mundo já deverá ter feito seu dever de casa, reduzindo emissões."

Segundo Marcelo Furtado, acreditar em tecnologias salvadoras que permitam a continuidade de nossa dependência nos combustíveis fósseis é justamente a posição que os EUA vêm advogando nos últimos anos para justificar sua ausência no Protocolo de Kyoto.

"Com isso, eles não assumem metas de redução de emissões e não demonstram vontade política alguma para mudar os seus padrões de vida, que consomem excessivamente os recursos naturais do planeta, condenando boa parte da população pobre do planeta a jamais ter uma oportunidade de desenvolvimento", afirma Furtado.

Outro ponto negativo do relatório, diz Marcelo Furtado, é que a falta de uma análise mais crítica à iniciativa brasileira dos biocombustíveis, em particular o etanol.

"Isso é preocupante porque, mesmo sendo a biomassa uma das muitas estratégias necessárias para se combater o aquecimento global, neste momento carece de regulação e, portanto, não tem uma comprovada salvaguarda sócio-ambiental, podendo ser uma ameaça às florestas do planeta, provocar um desequilíbrio na oferta de alimentos e não garantir boas condições de trabalho de quem vive no campo."

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