Centenas de balões sobem aos céus de Brasília com cinzas da floresta amazônica em protesto contra o desmatamento e em defesa do clima.
É hora dos líderes mundiais saírem da retórica e colocarem a mão
na massa para frear o aquecimento global. Quem faz o alerta agora é
o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), que
lançou nesta terça-feira o seu Relatório de Desenvolvimento Humano
(RDH) 2007/2008, que traz um forte enfoque na questão das mudanças
climáticas.
Leia aqui o
sumário executivo do relatório (arquivo PDF).
O RDH recomenda uma série de medidas a serem tomadas pelos
países mais industrializados do mundo para evitar o colapso do
clima e o aprofundamento da divisão entre ricos e pobres: cortar as
emissões em pelo menos 80% até 2050; investir anualmente um
adicional de pelo menos U$ 86 bilhões em esforços de adaptação, a
fim de proteger os mais pobres do mundo, apoiando a produção de
biocombustíveis sem prejudicar os direitos dos pequenos
agricultores ou populações indígenas; e apoiar os esforços para
reduzir o desmatamento de florestas em países como o Brasil.
"O ponto positivo e mais importante do relatório do PNUD é que
ele faz um chamado aos líderes mundiais para que saiam da retórica
e ponham a mão na massa, com ações concretas que levem à solução do
desafio das mudanças climáticas", afirma Marcelo Furtado, diretor
de campanhas do Greenpeace Brasil. "Caso contrário, o preço não
será apenas econômico, mas também de vidas humanas, particularmente
entre os mais pobres."
O relatório foi divulgado pela ONU simultaneamente em Nova York
e Brasília e analisa a situação de 177 países.
Marcelo observa que o relatório do PNUD cobra ação imediata dos
países desenvolvidos mas também dos países em desenvolvimento como
o Brasil. "O relatório destaca a importância
do combate ao desmatamento, que tem influência direta no
aquecimento global."
Mas o diretor do Greenpeace observa alguns problemas no RDH
divulgado pelo PNUD. O primeiro, e mais sério, é a promoção da
tecnologia do 'carvão limpo' como estratégia de redução de emissão
de combustíveis fósseis. "O carvão é um dos maiores vilões do
aquecimento global e o 'carvão limpo' é apenas uma maquiagem verde,
promovida por aqueles que não querem mudar sua matriz energética
para fontes verdadeiramente renováveis e limpas", diz Furtado.
"O segundo problema do relatório está relacionado à promoção da
captura e armazenamento de carbono como tecnologia para resolver o
problema das mudanças climáticas. Essa tecnologia não está
comprovada nem disponível. Além disso, no momento em que estiver
disponível, o mundo já deverá ter feito seu dever de casa,
reduzindo emissões."
Segundo Marcelo Furtado, acreditar em tecnologias salvadoras que
permitam a continuidade de nossa dependência nos combustíveis
fósseis é justamente a
posição que os EUA vêm advogando nos últimos anos para
justificar sua ausência no Protocolo de Kyoto.
"Com isso, eles não assumem metas de redução de emissões e não
demonstram vontade política alguma para mudar os seus padrões de
vida, que consomem excessivamente os recursos naturais do planeta,
condenando boa parte da população pobre do planeta a jamais ter uma
oportunidade de desenvolvimento", afirma Furtado.
Outro ponto negativo do relatório, diz Marcelo Furtado, é que a
falta de uma análise mais crítica à iniciativa brasileira dos
biocombustíveis, em particular o etanol.
"Isso é preocupante porque, mesmo sendo a biomassa uma das
muitas estratégias necessárias para se combater o aquecimento
global, neste momento carece de regulação e, portanto, não tem uma
comprovada salvaguarda sócio-ambiental,
podendo ser uma ameaça às florestas do planeta, provocar um
desequilíbrio na oferta de alimentos e não garantir boas condições
de trabalho de quem vive no campo."
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