Protesto marca 17º aniversário da tragédia de Bhopal

Notícia - 2 - dez - 2001
Garrafas com água contaminada são entregues em escritórios da Dow Chemicals ao redor do mundoGarrafas com água contaminada são entregues em escritórios da Dow Chemicals ao redor do mundo

O 17º aniversário do vazamento de gases letais da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, Índia, foi marcado hoje por protestos do Greenpeace em diversos países. Ativistas da organização ambientalista se juntaram ao 'AaCcTt: Bhopal' (1), uma aliança global de grupos de sobreviventes do pior desastre químico da história. Diversos escritórios da Dow ao redor do mundo (2) receberam garrafas de água contaminada, que foi coletada do lençol freático de Bhopal. Até hoje, mais de 5 mil famílias da região continuam a utilizar água contaminada para suas necessidades diárias.

As organizações exigem que a Dow/Union Carbide tome providências imediatas para indenizar os sobreviventes do desastre e para descontaminar a área do acidente (hoje, abandonada), além de responsabilizar legalmente o corpo diretor da Union Carbide à época do vazamento. A outra demanda é que uma legislação internacional seja criada para responsabilizar as corporações responsáveis por acidentes químicos e pela, conseqüente, contaminação causada ao redor do planeta.

Na madrugada de 03 de dezembro de 1984, mais de 500 mil pessoas foram expostas a um coquetel de gases letais que vazaram da fábrica de agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, na Índia. Mais de 7,5 mil pessoas morreram na noite do desastre. De acordo com comunidades locais, hoje, o número de vítimas fatais do desastre ultrapassa os 20 mil. Grande parte dos moradores da região continua a sofrer com os efeitos da exposição crônica aos gases, manifestadas em doenças pulmonares, coronárias, neurológicas e nos olhos, além de provocarem sérios distúrbios nos sistemas: imunológico, hormonal e reprodutivo. A população necessita constantemente de atendimento médico, que é inexistente.

Logo após o acidente, a Union Carbide abandonou a fábrica, deixando como herança toneladas de lixo tóxico. Assim, nos últimos 17 anos, o lençol freático que abastece a cidade vem sendo contaminado. Dessa forma, a comunidade, sem escolha, vê- se obrigada a consumir esta água todos os dias, ingerindo um coquetel de substâncias tóxicas, que inclui clorobenzeno, clorofórmio, tricloroetano e tetracloreto de carbono. Em 1999, uma pesquisa do Greenpeace revelou níveis de contaminação muito acima dos padrões para água potável aceitos pela EPA-US (do inglês, Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos). Os níveis de tetracloreto de carbono são 682 vezes superiores aos permitidos pela agência norte-americana; os de clorobenzeno, 11 vezes; de tricloroetano, 50 vezes; e os níveis de clorofórmio superaram em 20 vezes os padrões dos Estados Unidos.

Em fevereiro deste ano, a Union Carbide foi incorporada pela multinacional americana Dow Chemicals. A transação comercial envolveu valores da ordem de US$ 9,3 bilhões, criando a segunda maior companhia química do mundo.

"Com a aquisição da Union Carbide, a Dow comprou não só as suas instalações, mas também a responsabilidade pela tragédia de Bhopal, que se estende até hoje", diz Karen Suassuna, coordenadora da campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A Dow deve ser responsabilizada pelo passivo tóxico, pela descontaminação da área e pela indenização integral de todas as vítimas do desastre."

No dia 15 de Novembro de 2001, a segunda instância da Justiça norte-americana julgou procedente apelação que impõe responsabilidade ambiental da Dow pela situação em Bhopal. Essa decisão foi um passo importante da longa batalha judicial para responsabilizar legalmente a empresa.

Para Rashida Bi, presidente da organização de mulheres sobreviventes do desastre, "a decisão da Corte norte-americana deve criar dificuldades para que a Dow se isente das responsabilidades sobre Bhopal, mas, mesmo assim, muito ainda depende do esforço máximo da população". Já o indiano Balkrishna Namdeo, presidente de uma organização de sobreviventes que presta apoio às vítimas do desastre, apela à comunidade internacional para que a Dow se comprometa com a recuperação do meio ambiente e pela indenização às vítimas do legado tóxico de Bhopal.

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Bhopal: o desastre continua

(1) "AaCcTt:Bhopal" - "Ação contra Crimes Corporativos e Terrorismo Tóxico: Bhopal" é uma aliança internacional para promover a Justiça em Bhopal e um futuro livre da contaminação tóxica. A coalizão inclui organizações de sobreviventes da tragédia de Bhopal como a Gas Peedit Nirasharit Morcha (Bhopal), a Gas Peedit Mahila Stationary Karmachari Sangh (Bhopal), além do Grupo para Informação e Ação, da Campanha Nacional para Justiça em Bhopal (Mumbai), da A Outra Midia (Nova Delhi) e do Greenpeace.

(2) Ativistas do Greenpeace entregaram água contaminada, coletada do lençol freático de Bhopal, para os escritórios da Dow na Suíça, Holanda, Chile, Tailândia, China (Hong Kong) e Índia (em Bhopal e em Bangalore). O Greenpeace também fez protestos nas fábricas da Dow em Kerala, Índia, na Argentina e nos Estados Unidos.

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