O 17º aniversário do vazamento de gases letais da fábrica de
agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, Índia, foi marcado hoje por
protestos do Greenpeace em diversos países. Ativistas da
organização ambientalista se juntaram ao 'AaCcTt: Bhopal' (1), uma
aliança global de grupos de sobreviventes do pior desastre químico
da história. Diversos escritórios da Dow ao redor do mundo (2)
receberam garrafas de água contaminada, que foi coletada do lençol
freático de Bhopal. Até hoje, mais de 5 mil famílias da região
continuam a utilizar água contaminada para suas necessidades
diárias.
As organizações exigem que a Dow/Union Carbide tome providências
imediatas para indenizar os sobreviventes do desastre e para
descontaminar a área do acidente (hoje, abandonada), além de
responsabilizar legalmente o corpo diretor da Union Carbide à época
do vazamento. A outra demanda é que uma legislação internacional
seja criada para responsabilizar as corporações responsáveis por
acidentes químicos e pela, conseqüente, contaminação causada ao
redor do planeta.
Na madrugada de 03 de dezembro de 1984, mais de 500 mil pessoas
foram expostas a um coquetel de gases letais que vazaram da fábrica
de agrotóxicos da Union Carbide em Bhopal, na Índia. Mais de 7,5
mil pessoas morreram na noite do desastre. De acordo com
comunidades locais, hoje, o número de vítimas fatais do desastre
ultrapassa os 20 mil. Grande parte dos moradores da região continua
a sofrer com os efeitos da exposição crônica aos gases,
manifestadas em doenças pulmonares, coronárias, neurológicas e nos
olhos, além de provocarem sérios distúrbios nos sistemas:
imunológico, hormonal e reprodutivo. A população necessita
constantemente de atendimento médico, que é inexistente.
Logo após o acidente, a Union Carbide abandonou a
fábrica, deixando como herança toneladas de lixo tóxico. Assim, nos
últimos 17 anos, o lençol freático que abastece a cidade vem sendo
contaminado. Dessa forma, a comunidade, sem escolha, vê- se
obrigada a consumir esta água todos os dias, ingerindo um coquetel
de substâncias tóxicas, que inclui clorobenzeno, clorofórmio,
tricloroetano e tetracloreto de carbono. Em 1999, uma pesquisa do
Greenpeace revelou níveis de contaminação muito acima dos padrões
para água potável aceitos pela EPA-US (do inglês, Agência de
Proteção Ambiental dos Estados Unidos). Os níveis de tetracloreto
de carbono são 682 vezes superiores aos permitidos pela agência
norte-americana; os de clorobenzeno, 11 vezes; de tricloroetano, 50
vezes; e os níveis de clorofórmio superaram em 20 vezes os padrões
dos Estados Unidos.
Em fevereiro deste ano, a Union Carbide foi incorporada pela
multinacional americana Dow Chemicals. A transação comercial
envolveu valores da ordem de US$ 9,3 bilhões, criando a segunda
maior companhia química do mundo.
"Com a aquisição da Union Carbide, a Dow comprou não só as suas
instalações, mas também a responsabilidade pela tragédia de Bhopal,
que se estende até hoje", diz Karen Suassuna, coordenadora da
campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace. "A Dow deve ser
responsabilizada pelo passivo tóxico, pela descontaminação da área
e pela indenização integral de todas as vítimas do desastre."
No dia 15 de Novembro de 2001, a segunda instância da
Justiça norte-americana julgou procedente apelação que impõe
responsabilidade ambiental da Dow pela situação em Bhopal. Essa
decisão foi um passo importante da longa batalha judicial para
responsabilizar legalmente a empresa.
Para Rashida Bi, presidente da organização de mulheres
sobreviventes do desastre, "a decisão da Corte norte-americana deve
criar dificuldades para que a Dow se isente das responsabilidades
sobre Bhopal, mas, mesmo assim, muito ainda depende do esforço
máximo da população". Já o indiano Balkrishna Namdeo, presidente de
uma organização de sobreviventes que presta apoio às vítimas do
desastre, apela à comunidade internacional para que a Dow se
comprometa com a recuperação do meio ambiente e pela indenização às
vítimas do legado tóxico de Bhopal.
Leia mais sobre o caso:
Bhopal: o desastre continua
(1) "AaCcTt:Bhopal" - "Ação contra Crimes Corporativos e
Terrorismo Tóxico: Bhopal" é uma aliança internacional para
promover a Justiça em Bhopal e um futuro livre da contaminação
tóxica. A coalizão inclui organizações de sobreviventes da tragédia
de Bhopal como a Gas Peedit Nirasharit Morcha (Bhopal), a Gas
Peedit Mahila Stationary Karmachari Sangh (Bhopal), além do Grupo
para Informação e Ação, da Campanha Nacional para Justiça em Bhopal
(Mumbai), da A Outra Midia (Nova Delhi) e do Greenpeace.
(2) Ativistas do Greenpeace entregaram água contaminada,
coletada do lençol freático de Bhopal, para os escritórios da Dow
na Suíça, Holanda, Chile, Tailândia, China (Hong Kong) e Índia (em
Bhopal e em Bangalore). O Greenpeace também fez protestos nas
fábricas da Dow em Kerala, Índia, na Argentina e nos Estados
Unidos.