Se queremos um futuro, é melhor que ele não seja tóxico

Notícia - 23 - mar - 2004
Os resultados da campanha "Eu quero uma casa livre de tóxicos", do Greenpeace na Bélgica, comprovaram que a poluição química pode ter mesmo origem dentro de nossos lares

O Greenpeace divulgou hoje os resultados dos testes com amostras de poeira doméstica coletadas em outubro de 2003, em gabinetes do parlamento europeu, e em casas e escritórios de Bruxelas. Os resultados são condenáveis: estamos diante de uma grande e difundida poluição química, cuja origem pode estar nos bens de consumo dentro de nossas próprias casas e escritórios - incluindo alguns tipos de tecido (como o nylon, por exemplo), produtos cosméticos e aparelhos eletrônicos. A análise foi feita pelo laboratório holandês TNO (1).

Os resultados dos testes da poeira doméstica da Bélgica são comparáveis aos já obtidos pelo Greenpeace em outros países da Europa. Juntos, eles apontam uma proliferação, em nosso meio ambiente próximo, de substâncias que podem causar danos à nossa saúde (2).

À luz desses dados, o Greenpeace entrou em contato com líderes políticos belgas e europeus para que, por meio de suas atribuições, façam de tudo para pôr fim à corrente falta de informação e controle sobre as substâncias químicas. A proposta de uma legislação para esse compostos na União Européia (REACH - Registro, Avaliação e Autorização de Produtos Químicos, em inglês) (3) oferece a oportunidade de se resolver um problema que pode vir a custar muito caro aos sistemas de saúde (4).

O Greenpeace encomendou a investigação devido à falta de dados existentes sobre a poluição doméstica. Os resultados mostram que estamos submetidos, diariamente, aos efeitos maléficos das substâncias químicas tóxicas. Compostos químicos são produzidos cada vez em maiores quantidades. Em 1930, a produção anual de químicos no mundo era estimada em 1 milhão de toneladas. Hoje, 400 milhões de toneladas são produzidos anualmente. A União Européia é a maior produtora de substâncias químicas do mundo, com 31% do mercado global. Mais de 100 mil substâncias químicas estão registradas no mercado. Porém, as propriedades de um grande número delas são desconhecidas, inclusive de toxicidade.

Nos estudos da poluição doméstica na Bélgica, foi averiguada a presença de aproximadamente 30 substâncias potencialmente tóxicas ao meio ambiente e à saúde humana. Elas são particularmente preocupantes pelo fato de serem cumulativas no organismo humano e não serem facilmente biodegradáveis.

"É essencial que o REACH, na reforma da legislação da União Européia, imponha o princípio da substituição às substâncias químicas industrializadas", disse o coordenador da Campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace na Bélgica, Fawaz Al Bitar. "Devem ser desenvolvidas alternativas não tóxicas. Os resultados de hoje falam alto e claro sobre com o que já estamos nos deparando e com o futuro que teremos se o REACH - que hoje se encontra seriamente diluído - falhar em proteger-nos do uso dessas substâncias no futuro".

A concentração média obtida nos testes na Bélgica é similar aos estudos realizados em outros países. Também percebeu-se que de fato a maioria das substâncias tóxicas procuradas nas análises foram detectadas em quase todas as amostras coletadas. Nenhum Estado belga está, aparentemente, mais contaminado do que outro. E as sujeiras coletadas em meios menos urbanizados não apresentaram níveis de contaminação mais baixos.

Para o coordenador da Campanha de Substâncias Tóxicas do Greenpeace no Brasil, John Butcher, "a proposta de uma legislação química da União Européia pode oferecer uma solução global para o problema da contaminação tóxica, que é de fato um problema global. Nós descobriremos, ao longo dos meses, se as discussões sobre a REACH estão caminhando na direção do direito de todo cidadão, seja da União Européia ou de outras partes do mundo, de que os compostos tóxicos sejam substituídos por alternativas não-tóxicas."

As análises coletadas pelo Greenpeace são insuficientes para responder a todas as questões sobre a poluição dentro de casa. Tampouco sobre a origem exata dessa contaminação. No entanto, o Greenpeace prova que essa poluição é real.

(1) Leia o relatório da campanha "Eu quero uma casa livre de tóxicos", do Greenpeace na Bélgica.

(2) Os efeitos prejudiciais à saúde são de vários tipos, dependendo da substância: disfunções hormonais ou imunológicas, problemas do sistema reprodutor, alergias, câncer.

(3) Em fevereiro de 2001, a Comissão Européia apresentou um projeto de lei sobre substâncias químicas, propondo a melhora da legislação existente nessa área. Os princípios da REACH foram apoiados pelo Conselho Europeu e pelo Parlamento Europeu, instituições que pediram inclusive condutas ainda mais rigorosas do que as propostas pela Comissão. Em outubro de 2003, a Comissão lançou a proposta que está sendo atualmente estudada pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho Europeu. O fim do processo legislativo é esperado para não antes de 2006.

(4) Variadas fontes estimam o impacto desses produtos químicos em nosso meio ambiente na casa dos bilhões de euros. "Avaliação do Impacto da Nova Política Química" (março de 2003), pela Comissão Européia, e "O Custo Social dos Produtos Químicos" (maio de 2003), por David W Pearce e Phoebe Koundouri.

(5) Características belgas: a concentração média de ftalatos (946 mg/kg) e de organo-estânicos (2.47 mg/kg) é similar aos níveis obtidos na sujeira doméstica coletada em outros lugares da Europa.

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