Projeto de transposição do rio São Francisco, do governo federal, é caro - R$ 4,5 bilhões - e não resolve o problema da seca no Nordeste brasileiro.
Há momentos que, por falta de diálogo, atitudes extremas
precisam ser tomadas para que um determinado problema ganhe
visibilidade na sociedade e seja então discutido para que o pior
não aconteça. Atos pacíficos, mas radicais, como as ações diretas
realizadas pelo Greenpeace são bons exemplos disso. Assim como a
greve de fome do bispo d. Luiz Flávio Cappio, de Sobradinho (BA),
que luta contra o projeto do governo federal de transposição do rio
São Francisco.
Há dois anos, ele já tinha ficado 11 dias sem comer para alertar
a opinião pública sobre o grande erro que estava para ser cometido.
Apesar dos inúmeros protestos de entidades da sociedade civil,
ONGs, associações de moradores, parlamentares e Ministério Público,
o governo estava disposto a gastar R$ 4,5 bilhões no projeto que
pretende ligar a bacia do rio São Francisco com as bacias
hidrográficas do Nordeste setentrional.
O ato de d. Cappio chamou a atenção da opinião pública e, com o
apoio de organizações como o Greenpeace, conseguiu interromper o
projeto. O governo reabriu o debate para discutir sobre a melhor
forma de usar o rio São Francisco no combate à seca na região.
Dois anos se passaram, a discussão não andou e o governo retomou
a obra na Bahia, com os homens do Exército iniciando os trabalhos
em junho deste ano.
D. Cappio não viu outra alternativa a não ser retomar a greve de
fome. O jejum completou dez dias e o padre já está debilitado,
tendo que tomar soro para minimizar a desidratação que vem
sofrendo.
O que o bispo d. Cappio e as entidades como o Greenpeace mais
criticam no projeto de transposição do rio São Francisco é o fato
dele ser caro e ineficaz para combater a seca, atendendo mais as
demandas de cidades que já contam com bom abastecimento de água. A
alternativa mais econômica e eficaz seria a revitalização do rio, o
uso de cisternas e microbarragens para atender os afetados pela
seca, e o uso racional da água por todos na região.
Parlamentares, o Ministério Público estadual, governos estaduais
e municipais também são contra a transposição e formaram a Frente
Nacional em Defesa do Rio São Francisco e contra a Transposição do
São Francisco para lugar contra o projeto.
Em vez dessa obra gigante, o governo federal deveria priorizar
opções mais baratas e eficazes, algumas já postas em prática no
semi-árido brasileiro por ONGs e associações de moradores. O
problea da região, em que vivem mais de 17 milhões de brasileiros,
não se resume à falta d'água, mas sim sua gestão.