Nos últimos anos, o cultivo de soja se tornou uma das principais ameaças à floresta amazônica
Num mundo alarmado com as mudanças climáticas pós-relatórios do
IPCC, a opinião pública não mais aceita que um único hectare de
floresta - aqui, na Indonésia ou no Congo - seja derrubado para dar
lugar a pastagens, plantio de grãos ou para a produção de
agrocombustíveis.
Essa rejeição explica a repercussão mundial gerada pela notícia
de que o desmatamento da Amazônia voltou a aumentar e o pronto
desmentido do governo federal de que iria anistiar fazendeiros
responsáveis pela destruição da floresta.
O momento é favorável para finalmente consolidar em lei a MP do
Código Florestal que,em 1996, fixou em 80% a área de reserva legal
na Amazônia Brasileira. Essa medida provisória não foi fruto de uma
decisão isolada do governo FHC, mas resultado do alarma da opinião
pública com o desmatamento da Amazônia - que havia batido seu
recorde histórico, atingindo quase 30 mil quilômetros quadrados no
ano anterior.
Na época, a reação da bancada ruralista contrária à medida levou
as organizações da sociedade civil a lançar o SOS Florestas, um
movimento em defesa do Código Florestal que ganhou forte apoio dos
brasileiros e do Congresso. A pressão pública salvou as conquistas
da MP.
Doze anos depois, o ataque ao Código Florestal se repete num
momento em que não há mais espaços para se falar em sacrificar o
meio ambiente em nome do crescimento econômico. Projeto de lei de
autoria do senador Flexa Ribeiro pretende consolidar enormes áreas
sem florestas, anistiar desmatadores e reduzir de 80% para 50% a
área que tem que ser protegida em cada fazenda amazônica. A lógica
do projeto Floresta Zero é o pragmatismo do fato consumado e do
lucro rápido, que se alimenta da certeza de impunidade amparada na
falta de governança e se beneficia de um sistema jurídico complexo,
lento e ineficiente.
A iniciativa de Dom Pedro II de reflorestar, no século 19, a
área que hoje é a Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, é saudada
como exemplo de governante que se preocupa com o meio ambiente. A
área era um cafezal degradado e abandonado, mas o imperador tinha o
espírito de conservação. Hoje, levando-se em conta o pragmatismo
subjacente às várias manifestações de congressistas e autoridades,
em vez de um imenso parque florestal, o Rio de Janeiro
provavelmente teria um grande canavial.
O presidente Lula deve agora decidir como quer consolidar o seu
segundo mandato projetando sua influência na história - permitindo
a destruição do "Santuário Amazônico" ou liderando o esforço no
Congresso para a aprovação definitiva da MP do Código Florestal e
barrar o projeto Floresta Zero. Seria a melhor forma de tornar
efetivo o desmentido oficial assinado pelos ministros da
Agricultura e do Meio Ambiente.
Em vez de zerar a floresta, é preciso zerar o desmatamento.
Frank Guggenheim é médico e diretor-executivo do Greenpeace no Brasil.
Paulo Adário é jornalista e coordenador da campanha da Amazônia, do Greenpeace.
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Crônica de um desmatamento anunciado
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