Depois de mais de seis horas, a Comissão de Meio Ambiente da
Câmara encerrou os debates sobre a implantação de um sistema de
rastreabilidade do gado. Entre os convidados a falar, estavam Paulo
Adario, do Greenpeace; Reihold Stephanes, ministro da agricultura;
Daniel Azeredo, do Ministério Público Federal do Pará; Sussumu
Honda, da Associação Brasileira de Supermercados (Abras); e Otávio
Cançado, da Associação Brasileira dos Exportadores de Carne
(Abiec). Exceto por Cançado, que preferiu fazer seu setor posar
como injustiçado, os convidados da comissão, em geral, apontaram os
graves problemas ambientais da Amazônia e sugeriram maneiras de
resolvê-los.
Stephanes repetiu seu mantra de que não é preciso se derrubar
mais uma árvore para aumentar a produtividade agropecuária
brasileira. Disse ainda que em, no máximo, seis meses o Pará terá
um sistema de rastreabilidade de gado.
Adario mostrou a importância da preservação da Amazônia como
parte dos esforços brasileiros para combater a crise do clima e
reiterou que o Greenpeace é a favor do desmatamento zero. Ele disse
também que o Brasil, para ser grande, precisa mudar. "Se nós não
mudarmos a maneira como produzimos, corremos o risco de dar um tiro
no pé", disse Adario. "O relatório do Greenpeace tem o objetivo de
alertar o Brasil sobre essa necessidade e para o risco de perdermos
mercados lá fora."
O procurador federal Daniel Azeredo mostrou o tamanho da
ilegalidade na produção agropecuária paraense. Das 220 mil
propriedades rurais do Estado, apenas 69 têm licença ambiental que
as habilita a funcionar.
A avaliação do presidente da Abras é de que o Brasil mudou e a
questão ambiental tornou-se fundamental. Honda contou que hoje o
consumidor brasileiro, quando vai ao supermercado comprar carne,
quer saber se ela veio de boi pirata.
Pose - Quando os convidados terminaram de falar, a presidência
abriu o plenário para debates e os ruralistas se apossaram do
microfone por mais de três horas. Infelizmente, não para debater a
questão da rastreabilidade e o relatório do Greenpeace sobre o
gado, mas para fazer pose para seus currais eleitorais.
Disseram-se contra a rastreabilidade, reclamaram de injustiça,
choraram perseguição do Ministério Público e invocaram o
nacionalismo para defender o desmatamento. Também atacaram o
Greenpeace e o Ministério Público, e muito. Chamaram o Greenpeace
de mentiroso e criminoso, acusaram os procuradores de abuso de
poder e prometeram retaliações tanto contra um, como contra o
outro.
Em nenhum momento, no entanto, rebateram as denúncias do
relatório do Greenpeace, sinal eloquente de que o que está lá
escrito é um retrato fiel da realidade do gado na Amazônia.