Representantes de ONGs, indústrias e governos se reuniram em São Paulo para fazer um balanço do primeiro ano da moratória da soja
Confira o especial moratória da soja
Positivo, mas ainda insuficiente. Esse é o balanço que o
Greenpeace faz um ano após o anúncio, pelas empresas
comercializadoras de soja, de sua decisão de não mais comprar grãos
vindos de novos desmatamentos no bioma Amazônia. Para discutir esse
primeiro aniversário da moratória da soja, como ficou conhecida a
iniciativa, indústrias, governos, consumidores e entidades da
sociedade civil se reuniram em São Paulo nesta quarta.
"A moratória é uma oportunidade única de demonstrar que a
articulação entre empresas, organizações não-governamentais e
movimentos sociais, amparada por recursos condizentes, pode ajudar
a superar os desafios de governabilidade e efetivamente proteger a
floresta", disse Paulo Adário, coordenador da campanha da Amazônia
do Greenpeace. Para ele, a iniciativa da Abiove (Associação
Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais) e Anec (Associação
Nacional dos Exportadores de Cereais) precisa se consolidar e
inspirar outros setores do agronegócio a adotar políticas
semelhantes, "para virarmos o jogo contra o desmatamento e as
mudanças climáticas".
Até agora, o processo - conduzido por um grupo de trabalho
reunindo as grandes traders da soja, entidades ambientalistas e do
setor social - se concentrou na construção de acordos e ferramentas
para viabilizar o monitoramento da moratória e melhorar a
governança nas áreas já desmatadas. Espera-se que o sistema de
monitoramento seja implementado já na safra que começa a ser
plantada no terceiro trimestre deste ano, para garantir que a
indústria da soja possa cumprir o compromisso anunciado em
2006.
Foram dados passos importantes até agora, mas ainda falta o
principal: o mapeamento das propriedades rurais que plantam soja,
peça-chave no monitoramento e na contenção do desmatamento na
Amazônia, que em cerca de 40 anos perdeu 700 mil quilômetros
quadrados de floresta, ou mais de 17% da região. "Parece incrível,
mas a maioria das milhares de fazendas e posses existentes na
região não consta em nenhum mapa ou cadastro oficial, o que
dificulta em muito o controle, pelo poder público, do que ocorre
nessas fazendas e na própria floresta", disse Adário.
De acordo com o Incra, o cadastramento das fazendas da Amazônia
só estará concluído em 2011. Enquanto isso, o governo federal,
através da Casa Civil, se comprometeu a acelerar a implementação do
Sistema de Licenciamento Ambiental das Propriedades Rurais (SLAPR),
que é o primeiro passo para o ordenamento fundiário na região e a
solução de problemas históricos que têm causado a destruição da
floresta. Cabe à indústria contribuir com esse processo cobrando de
seus fornecedores a adesão ao sistema e também apoiar os
fazendeiros para que se adequem à legislação.
Carlo Lovatelli, presidente da Abiove, destacou que o setor
resolveu assumir o compromisso da produção responsável da soja na
Amazônia por entender que esta é uma demanda do consumidor.
Queda no desmatamento
Nos últimos anos, o cultivo de soja se tornou uma das principais
ameaças à floresta amazônica. Entre agosto de 2000 e agosto de
2005, a área total de florestas desmatadas na Amazônia brasileira
foi de cerca de 129 mil quilômetros quadrados, o equivalente a mais
da metade do Estado de São Paulo. Cerca de 75% das emissões
brasileiras de gases do efeito estufa resultam do uso do solo por
atividades agrícolas, principalmente desmatamento e queimadas,
sendo a maioria na Amazônia. Isso coloca o Brasil como o quarto
maior poluidor do clima. O alarme climático aliado à crescente
pressão sobre a floresta Amazônica torna a efetividade da moratória
ainda mais imperativa para proteger a floresta e o clima do
planeta.
Apesar dos fatores econômicos que contribuíram para a queda do
desmatamento na Amazônia, a moratória tem apresentado impactos
positivos para a floresta. O Mato Grosso, maior Estado produtor de
soja no Brasil, apresentou uma redução de 40% no índice de
desmatamento entre agosto de 2006, quando a moratória foi
anunciada, e maio de 2007, comparada com o mesmo período do ano
anterior. No Pará, houve uma redução de 41% na área plantada com
soja desde o anúncio da moratória, uma queda significativa quando
comparada com a média nacional, que foi de 9,3%.
"Não há mais tempo a perder para proteger a Amazônia. O primeiro
ano da moratória apresentou um bom progresso e estamos
comprometidos com a continuação do processo. Como algumas medidas
devem demorar mais do que dois anos para serem implementadas,
esperamos que a moratória seja estendida até que todos os
compromissos sejam alcançados", disse Rebecca Jaramillo, do
McDonald's Europa, uma das principais empresas consumidoras que
apóiam a moratória.
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